Exames do 4.º ano: "Não venham dizer que correu bem"

Foto
O pai de Inês diz que "não é a inventar formalismos absurdos que se preparam os alunos" Paulo Pimenta

Depois de semanas de críticas, tudo parece estar a postos para o primeiro dos dois exames do 1.º ciclo. Mas, segundo os pais, só à custa do "sacrifício das famílias".

Esta terça-feira, quando as carrinhas da câmara começarem a percorrer as diversas aldeias de Cinfães para apanhar os 137 alunos que vão fazer exame do 4.º ano à sede do concelho, o bulício já será grande à porta da EB 2,3. Os 700 estudantes que ali costumam ter aulas, do 5.º ao 9.º anos, estarão a ser encaminhados para autocarros para fazerem visitas de estudo no Porto e em Coimbra. "Se tudo correr bem, nem se vêem uns aos outros. Antes das 9h saem os 700 e, pouco depois, entram os 137 - foi a solução que encontrámos para garantir condições para que os mais pequenos possam fazer o exame de Português em sossego", dizia ontem Manuel Pereira, director daquele agrupamento de escolas.

Mesmo assim, em Cinfães haverá crianças sem aulas - as das escolas básicas de 1.º ciclo cuja única professora terá de acompanhar os alunos do 4.º ano à escola-sede do agrupamento, para o exame. Serão algumas, mas poucas - nada que se pareça com os 500 alunos do 5.º ao 9.º anos, que esta manhã deviam ter aulas na EB 2,3 de Gaia, mas ficam em casa, para que a escola possa acolher os 300 do 4.º ano que ali fazem exame de Português. O director, Filinto Lima, reconhece que "é muito aborrecido" e lamenta "o transtorno e a perda das aulas". "Ainda assim", garante, "os pais foram compreensivos" quanto à solução encontrada para corresponder às orientações do Ministério da Educação e Ciência, que indicou que hoje e sexta (dia em que se realiza a prova de Matemática) as escolas deviam congregar no mesmo espaço, nomeadamente na sede do agrupamento, os alunos que estreiam os exames no 4.º ano, que não se realizavam há quase três décadas.

"É o caos - a complicação gerada por este exame é absolutamente injustificável e prejudica milhares de famílias: as dos mais de 107 mil alunos que vão fazer exame hoje e na sexta e também as dos que nesses dias não podem ter aulas. Mas, como sempre, com a boa vontade, o esforço e o sacrifício de todos, tudo se vai resolvendo, tudo se vai encaixando...", comentava ontem o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Jorge Ascenção. Não o dizia com alívio: "No ano que vem (se é que há exames do 4.º para o ano, depois desta confusão) não aceitamos nada de parecido. Espero que daqui a uns dias não apareça alguém do Governo a dizer que "afinal não houve problema nenhum" e que "tudo correu bem", como se nada disto fosse grave", disse.

Desde Março que os representantes das associações de directores, dos pais e das câmaras (que acabaram por assegurar o transporte de quase todos os alunos) alertam para os mais diversos problemas. "E de cada vez que há uma notícia no Telejornal, mais uma criança perde o sono ou fica com dores de barriga, tal é o stress", comenta Fátima Pereira, de 32 anos, mãe de Pedro, um dos alunos que hoje, às 9h30, agarrarão na caneta preta para fazer o seu primeiro exame.

Residente em Cinfães, Fátima diz que o filho e os colegas andam em sofrimento por causa da pressão imposta, também, pela professora, que lhes disse que quem tivesse zero no exame chumbava. No colégio privado que Inês França frequenta, em Coimbra, nenhum professor sugeriu tal coisa "para incentivar os alunos", mas a mãe, Rute Ferreira, nota que o nervosismo dos professores e dos miúdos é maior do que nos anos anteriores. "Basta dizer que o meu filho mais velho fez as provas de aferição e teve A a Matemática e A a Português sem nunca ter passado pelo stress que a Inês está a viver com os exames. E o que é que ela ganha com isto? Experiência? Nada! Apenas uma pilha de nervos", comenta.

Fátima e Rute têm apoiado os respectivos filhos no estudo, tentando desdramatizar um eventual desaire, provocado pelo nervosismo, por exemplo. O mesmo tem feito Noémia Malva Novais, mãe de Daniel, que frequenta um colégio privado, em Coimbra. Critica, para além dos "formalismos ridículos", "a obrigatória deslocação a outra escola".

Teresa Valdiviesso, de Lisboa, tem uma experiência diferente: depois de ter comprado vários livros com exercícios de antigas provas de aferição para ajudar a filha a preparar-se, reconhece que talvez esteja mais ansiosa do que ela. Já ouviu: "Calma, mãe! O exame só vale 25 por cento!"

Teresa considera que "a substituição da prova de aferição por um exame, com toda a carga que isso implica, é importante para a auto-responsabilização". Acredita que "quanto mais cedo a filha aprender a enfrentar os problemas da vida real, melhor", uma perspectiva muito diferente da de Rui Martins, que dirige a Confederação Nacional Independente de Associações de Pais (CNIPE) e diz que "não é a inventar problemas e a criar formalismos absurdos que se preparam os alunos". Ele próprio, conta, já teve de ir a duas reuniões, na escola, para preparação do exame que a filha, Inês, vai fazer. "Faz algum sentido colocar esta pressão sobre os pais que, sem querer, a transmitem aos filhos? ", pergunta. E responde: "Nenhum. Não faz sentido nenhum".