Associações criticam a câmara por autorizar semana académica em Monsanto

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O terreno começou ontem a ser preparado para receber o festival Nuno Ferreira Santos

Ambientalistas e parecer dos serviços municipais afirmam que está em causa a biodiversidade numa zona tampão do parque

Uma dúzia de organizações ambientalistas reunidas na Plataforma por Monsanto, bem como o grupo municipal de Os Verdes, insurgiram-se ontem contra a realização da Semana Académica de Lisboa no Parque Florestal de Monsanto. A escolha do local teve luz verde da câmara, embora tenha sido alvo de um parecer negativo dos seus serviços.

A iniciativa decorrerá entre 13 e 18 deste mês numa área contígua ao pólo universitário da Ajuda e ainda não foi formalmente licenciada pelo município. Ontem, porém, as máquinas da empresa contratada pela Associação Académica de Lisboa (AAL), promotora do evento, já tinham iniciado a desmatação e preparação dos terrenos.

De acordo com o presidente da AAL, Marcelo Fonseca, a permissão para que os trabalhos arrancassem consta de um email enviado à associação pelo Departamento de Ambiente do município. A selecção daquele espaço de cerca de cinco hectares, diz o dirigentes estudantil, foi feita pelos serviços camarários, tendo sido também analisado, em alternativa, o recinto Keil do Amaral, também em Monsanto.

Quem não partilhou esta opção foi um dos mais directos responsáveis pela gestão do parque de Monsanto, que emitiu um parecer desfavorável. A posição daquele técnico, que coincide com as críticas das organizações ambientalistas, vai no sentido de que a concentração de mais de 20 mil pessoas na orla de Monsanto, durante quatro dias, é profundamente nociva para a biodiversidade e a conservação da natureza.

O espaço em causa, onde decorreu há alguns anos o festival Delta Tejo, faz parte de uma clareira com dez hectares, quase desprovida de arvoredo, mas que os especialistas consideram essencial para a fauna e a flora. Num comunicado, a Plataforma por Monsanto considera a escolha do sítio como um "atentado ambiental" e diz que, nesta época do ano, ele é um "oásis" para a nidificação da perdiz-vermelha - com o coberto vegetal repleto de flores.

Em causa está também - dizem as associações e o grupo municipal de Os Verdes, que dirigiu um requerimento à Câmara sobre o assunto - a destruição do trabalho ali desenvolvido nos últimos dois anos, pelo município, com a colaboração de "milhares de voluntários". Trata-se da requalificação de toda a clareira, que está integrada na Rota da Biodiversidade criada pela autarquia e faz parte da maior bacia hidrográfica de Monsanto. A compactação do solo provocada pela presença simultânea de milhares de pessoas é outro problema apontado pelos ambientalistas, que referem o risco de inundações que daí poderá advir para os bairros habitacionais situados mais abaixo.

A realização da semana académica implicará a montagem de grandes palcos para a realização de espectáculos e envolverá a criação de um corredor de emergência situado entre duas vedações paralelas, a erguer em torno do recinto.

O PÚBLICO dirigiu várias perguntas sobre estas questões ao gabinete do vereador dos Espaços Verdes, mas José Sá Fernandes nada disse.

Nos últimos anos, a AAL mudou várias vezes o local da Semana Académica devido a protestos de moradores das zonas vizinhas, relacionados, nomeadamente, com o ruído.

Marcelo Fonseca diz que "o que está a ser feito em Monsanto é o corte de erva, como se faz em todo o país e é obrigatório para não haver fogos". O presidente da AAL defende que o espaço sairá beneficiado, porque a associação vai mandar "revolver o terreno" no final do evento, para contraria a compactação. Além disso, garante, vai "ajudar a câmara a criar ali equipamentos" para que o recinto possa acolher famílias e visitantes durante todo o ano.

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