A curva de Keeling continua a subir e regista recorde de dióxido de carbono

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A queima de combustíveis fósseis, como o carvão, está a aumentar o CO2 na atmosfera PETER ANDREWS/REUTERS

A concentração de dióxido de carbono na atmosfera, principal gás com efeito de estufa, está à beira das 400 partes por milhão. A Terra não conhecia estes valores há 4,5 milhões de anos, um novo sinal de alerta.

A curva de Keeling tornou-se um ícone da ciência das alterações climáticas: desde 1958 que regista as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera terrestre, medidas no topo do vulcão Mauna Loa, no Havai. É o registo contínuo mais antigo da presença atmosférica deste gás que aquece o planeta e as suas concentrações estão agora a atingir um marco simbólico, que o planeta não conhecia há cerca de 4,5 milhões de anos - o das 400 partes por milhão, o que significa que por cada milhão de moléculas de diferentes gases na atmosfera há 400 de dióxido de carbono (CO2).

Charles David Keeling foi o cientista por detrás deste gráfico, com implicações na investigação das alterações climáticas. Então com 28 anos, em 1956, Charles Keeling, já doutorado em Química e a fazer medições do CO2 atmosférico, foi contratado pelo então director da Instituição de Oceanografia Scripps da Universidade da Califórnia, em San Diego, o oceanógrafo Roger Revelle, que pretendia lançar um programa de medição em vários locais remotos do planeta.

Naquela altura, suspeitava-se de que o CO2 estivesse a aumentar na atmosfera com a queima de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão. Certezas não havia, porque as medições eram escassas.

A partir de Março de 1958, tudo mudaria: Charles Keeling instalou um aparelho no cimo do Mauna Loa, longe das fontes de poluição do mundo industrial, e logo no primeiro dia de operação, como refere o site da Scripps dedicado a este gráfico (http://keelingcurve.ucsd.edu), registou uma concentração de 313 partes por milhão (ppm). Em Maio desse ano, os registos atingiriam um máximo, de 316 ppm, para em seguida decrescerem, até a um mínimo em Outubro.

No ano seguinte, Charles Keeling observou o mesmo fenómeno de aumento do CO2 até Maio, seguido de descida no Outono. Só que os valores ficaram um pouco acima dos do ano anterior. Mais: todos os anos isso acontecia, pelo que o gráfico era uma linha em forma de dentes de serra.

O químico norte-americano estava a observar duas coisas. Primeira, a respiração sazonal do planeta, ora na Primavera, ora no Outono no hemisfério Norte. Os pontos baixos do gráfico correspondiam à remoção de CO2 da atmosfera pelas plantas através da fotossíntese, que até ao Outono tinham feito todo esse trabalho, enquanto os pontos altos resultavam das árvores estarem sem folhas e não absorverem tanto CO2. Segunda, este gás estava a aumentar porque o estamos a atirar para o ar a uma velocidade tão alucinante que o planeta está ficar ofegante.


Em 2005, o ano da morte de Charles Keeling, aos 77 anos, de ataque cardíaco, atingiam-se novos valores: 379 ppm, o nível mais alto desde há 650 mil anos. Há ainda que dizer que o CO2 na atmosfera oscilou entre as 200 ppm nos períodos frios, ou glaciares, e as 280 ppm nos períodos quentes, tanto quanto sabemos por bolhas de ar aprisionadas no gelo e por anéis das árvores. Que antes da revolução industrial, há 250 anos, os valores não passavam das 280 ppm. E que o aumento médio no final dos períodos glaciares foi de cerca de 80 ppm, só que isso demorava pelo menos cinco mil anos. Ora, em décadas as chaminés industriais lançaram o que geralmente, de forma natural, levava milénios. Desde 1850, quando os registos meteorológicos se tornaram sistemáticos, a subida média da temperatura do ar no planeta foi de 0,76 graus Celsius.

Os registos no Mauna Loa continuaram com o filho de Charles Keeling, o geólogo Ralph Keeling. E agora, na última leitura, de 5 de Maio, estavam nas 399,54 ppm. Dentro de dias deverão ser ultrapassadas as 400 ppm. "Se os níveis de CO2 não chegarem às 400 ppm em Maio de 2013, no próximo ano chegarão certamente", disse ao The Guardian Ralph Keeling.