Inesc Tec cria rede com instituições brasileiras e exporta tecnologia

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O Inesc Tec tem instalações no Porto, mas projectos de parceria no Brasil e EUA Fernando Veludo/NFACTOS

A actividade da rede científica criada pelo Inesc Tec no Brasil e com forte ligação às empresas deverá ultrapassar nos próximos anos o peso dos contratos europeus

O Inesc Tec-Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Porto está, neste momento, a exportar tecnologia e serviços tecnológicos que vão desde submarinos robóticos para barragens brasileiras à engenharia biomédica aplicada à previsão da produção eólica nos EUA e defende ser hoje a "única entidade científica portuguesa com uma presença institucional no estrangeiro", no caso, o Brasil, segundo o seu director, Vladimiro Miranda.

Segundo as previsões deste responsável, o mercado brasileiro será determinante para os próximos anos de actividade. Admite que aquele país poderá representar pelo menos metade das receitas vindas do estrangeiro. Através do Inesc P&D Brasil, o instituto criou uma associação sem fins lucrativos, que arrancou em Julho do ano passado e gere uma rede de cooperação científica com 11 universidades públicas do país, que são "a elite do sistema público brasileiro", afirma o mesmo responsável. A rede, que fomenta projectos multilaterais e multidisciplinares, inclui as universidades federais do Pará, Ceará, Rio Grande do Norte, Campina Grande, Etajobá, Juiz de Fora, Rio de Janeiro, USP-S. Carlos, Unicamp, Santa Catarina e Unesp.

Este projecto, actualmente o de maior fôlego desta instituição, reflecte também a opção em apostar em contratos internacionais de modo a travar o efeito de uma "forte retracção" de contratos de investigação e desenvolvimento (I&D) das empresas portuguesas, sobretudo PME, em fuga por causa da crise, e manter uma "margem de sustentabilidade". Quase 40% das receitas de um orçamento de 14 milhões de euros vêm hoje de contratos directos com a indústria, um terço dos quais são contratos internacionais, na sua maioria europeus. "O nosso objectivo é que o Brasil represente, a prazo, pelo menos 50% dos contratos internacionais." No entanto, isso deverá representar apenas 20% da actividade do braço brasileiro da instituição, cuja grande maioria do valor a criar, com previsões que apontam para os 20 milhões de euros de facturação, permanecerá entre entidades locais.

Às universidades brasileiras interessava a cooperação internacional transatlântica e à entidade portuguesa a possibilidade de levar para o Brasil o modelo de gestão de ciência e tecnologia. Daí nasceu a parceria. "O Brasil tem grandes cientistas e áreas de grande desenvolvimento e claramente superiores, como a aeronáutica e a Embraer, enquanto Portugal tem conhecimento mais avançado em redes inteligentes e em transferência de tecnologia e valorização do conhecimento e gestão da ciência e tecnologia."

O projecto-bandeira do Inesc P&D é o submarino robótico. O instituto já exportou serviços e equipamentos relativos a dois veículos submarinos autónomos, entretanto desenvolvidos com a Universidade Federal Juiz de Fora. O robot inspecciona agora a barragem do Lajeado, da EDP, com um contrato conseguido "não através da EDP e em concorrência com outras entidades" e abre uma frente de trabalho de inspecção de reservatórios e albufeiras que "pode dar origem a uma empresa localizada no Brasil".

O instituto tem neste momento outros projectos, como o de melhoria do transporte de electricidade para a brasileira TBE, dona da rede eléctrica de alta tensão na Amazónia, usando conhecimentos de física, fibra óptica e sensores. "A nossa investigação leva a resultados com criação de valor", frisa.

O caminho no Brasil começou pela electricidade, por ser a área que o Inesc melhor conhecia e em que o país tinha maior visibilidade, mas está agora a alargar-se ao petróleo, envolvendo a Petrobras e a ideia de colocar submarinos robóticos até mais de três mil metros de profundidade para apoio à actividade petrolífera e mineira e tendo também na mira a extensão da plataforma continental de Portugal.

Vladimiro Miranda diz que outras instituições e laboratórios associados têm manifestado interesse em aproveitar a estrutura no Brasil, embora não adiante nomes e sublinhe que o "Brasil não é para principiantes". O Inesc P&D demorou mais de três anos a formar-se e a superar burocracia e a relação com os parceiros brasileiros tem de evidenciar o "valor que se leva para o Brasil". No caso do Inesc, "conhecimento e tecnologia".

O Inesc P&D Brasil, instalado discretamente e "sem um único apoio da ciência nem da economia" por os programas vigentes em Portugal não preverem este tipo de investimento, é para o investigador e gestor a prova de que, por exemplo, o ministro Nuno Crato está errado, por preferir o financiamento directo a indivíduos em vez de instituições. "É um modelo que não subscrevemos. Quando é que a partir de um indivíduo se geraria uma ideia como a do Inesc Brasil, que é um movimento estratégico?", pergunta.

O outro projecto emblemático, de nome Argus, foi criado para os EUA e associou a engenharia biomédica à previsão do vento, uma informação vital para a produção eólica. O convite partiu do Departamento de Energia dos EUA, em 2009, para desenvolver um projecto com novo conhecimento para a previsão da potência eólica especificamente para os EUA, segundo maior produtor mundial de energia eólica em percentagem do sistema, e com características específicas: rampas de vento, com inícios e fins bruscos, falta de apoio da energia hídrica e parques eólicos gigantescos.

Acredita que o convite teve na origem o trabalho que Portugal fez na área das renováveis. "Portugal é internacionalmente muito respeitado não por ter energias renováveis, mas por as ter e não entrar em colapso. É dos sistemas mais fiáveis e é-o porque temos colocado nele imensa engenharia avançada."

Vladimiro Miranda diz que a grande diferença em relação às previsões feitas para a REN por várias entidades, entre elas as da equipa liderada por Delgado Domingos, do IST, está numa maior precisão do cálculo, uma condição que o próprio investigou e foi buscar à engenharia biomédica e à investigação sobre o processamento de sinal no cérebro.

O cruzamento científico da biomedicina com o vento "resultou na primeira aplicação industrial do interface máquina-cérebro". O sistema não tem uma exploração comercial directa. As licenças para o seu uso são compradas através da administração dos EUA. O sistema entrou em funcionamento no ano passado, pelo que o Inesc Tec aguarda que lhe seja comunicado quantas licenças para construção de sistemas profissionais de previsão foram vendidas no primeiro ano e pelas quais receberá royalties. O mercado mundial conta actualmente com 24 empresas de previsões de vento na Europa e seis nos EUA.

Para o responsável do Inesc Tec, o próximo grande desafio à escala mundial será chegar a um sistema de previsão de raios solares para o solar fotovoltaico tão fiável como o de previsões do vento.