Elogio da unidade por Anne Teresa de Keersmaeker e Boris Charmatz

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Ensaio de Partita 2, corpos em movimento ao som da música de Bach © Anne Van Aerschot

Os dois coreógrafos assinam Partita 2, opus magnífico construído sobre a música de Bach e dois corpos que queimam o nosso olhar. Estreou-se na sexta-feira 3 de Maio, em Bruxelas. Chega a Lisboa em 2014

Começa a negro. E o som de um violino que se demora nessa escuridão até lhe começarmos a imaginar os movimentos. Depois, quando já não esperávamos, um corte, sem efeitos de luz ou de som. Um corte na escuridão, um palco vazio, sem violinista, só a sua memória, a dos seus movimentos imaginados e a dos movimentos criados pela música. E entram dois corpos, um homem e uma mulher, seguros, sem hesitações até que a linha diagonal que desenham nesse palco vazio é cortada pela contagem de passos. Talvez já os viessem a contar, não sabemos. E depois o início de um círculo, um salto, a mão dela no pescoço dele, os pés dele a provocarem um salto maior que o dela. E depois uma linha. E um gesto que traz memórias de galantes cortes. E a cópia desse mesmo movimento, agora já não nos braços mas nas pernas, como se o sexo se substituísse ao desejo.

Começa assim e não terminará, nem mesmo depois de deixarem de dançar. Nem mesmo depois de sairmos da sala. Nem mesmo depois de o violino ter deixado de ser tocado, mas porque, assim, simplesmente, um movimento nunca é interrompido. Mesmo que, à nossa frente, deixemos de o ver. Já foi. Acabou.

Partita 2, de Anne Teresa de Keersmaeker, com Boris Charmatz como cúmplice e parceiro no movimento e Amandine Beyer como cúmplice dos dois no violino, é só isto e é tanto.

Estreada em Bruxelas a 3 de Maio, na noite de abertura do Kunsten Festival des Arts, é o mais perfeito exemplo do encontro entre a sexualidade feita metáfora dele e o movimento como hipérbole do corpo que ela tem perseguido. Às vezes parece um duelo, outras vezes um gesto que se completa. Mas é sempre uma coreografia, de som e de movimento, de espaço e de tempo, de forma e de conteúdo. E, ao mesmo tempo, são dois corpos, mais um, o nosso, tenso no interior do espaço que vão criando em cada um dos gestos que desenham. E ainda outro, o da violonista, Amandine Beyer, que os observa e nos observa, espectadora privilegiada deste encontro entre dois coreógrafos que para fugirem "à demasiado intensa agenda de trabalhos" decididiram "regressar ao que importa, ao que é essencial", diz ele, mesmo que "essencial" seja aqui "a palavra errada". "Não é essencial por ser o que vale a pena, é essencial porque está na essência das coisas", acrescenta. "E depois porque é o que importa", sublinha ela.

Espectáculo esgotado

À estreia acorreram os amigos, os bailarinos, a fina-flor da dança contemporânea europeia, de tão inusitado foi este encontro. E os programadores dos dez teatros co-produtores, os que entraram na aventura desde o início, sem saberem o que seria, e os outros, que agora querem ter o espectáculo nos seus teatros. A Lisboa chega dias 13 e 14 de Maio de 2014 à Fundação Calouste Gulbenkian, que co-produz a peça.

Para se ter uma ideia do impacto do encontro, digamos apenas que daqui até Lisboa Partita 2 passará, para já, pelos mais importantes festivais europeus. Para poder promover e publicitar uma só data, em Outubro deste ano, o festival de dança de Turim trouxe 20 jornalistas de toda a Itália. Em Abril, quando abriram as bilheteiras para as seis datas em Bruxelas, foi o espectáculo que esgotou em menos tempo, duas semanas. Na entrada há quatro filas para levantar bilhetes e uma fila de espera com 80 nomes.

E, no entanto, ao início, era só um desejo comum de fazer alguma coisa. Diz ela: "Que privilégio poder ter como intérprete e colaborador alguém tão sensível, inteligente, cuidadoso como bailarino e como coreógrafo. É mais difícil de encontrar do que parece." Diz ele: "Entrar dentro da estrutura dela, da sua cabeça, ser ao mesmo tempo aluno e parceiro, leitor e espectador." Faz uma pausa. E ri-se. E depois: "Como é que dizes: My walking is my dancing [Caminho como danço]?" "Não", corrige ela. "Se fosse isso, aquelas pessoas a irem-se embora estavam a dançar", e aponta para quem abandona a sala durante a conversa que se seguiu ao espectáculo ao qual o PÚBLICO assistiu no sábado. "My dancing is my walking [Como danço é como caminho]."

Os riscos que os dois aceitaram correr - "a expectativa, pois", diz ele - é a base deste espectáculo que mostra como De Keersmaeker e Charmatz estão em pontos que, parecendo opostos, são complementares. Estão no ponto que poderíamos apelidar de o elogio da unidade.

Partita 2 é isso. Um regresso de Anne Teresa de Keersmaeker "ao que pareceu esquecido durante 20 ou 30 anos", como se buscasse o que no concreto se faz imaterial: "As linhas, movimentos simples, andar, um círculo." Um regresso a, diz ele, "uma concepção arquitectónica e espacial única, sem desvios, sem que para cada gesto se construa um significado". E provocando-a: "Agora, sim, devias fazer o Fase [primeira peça de De Keersmaeker, esteve no Centro Cultural de Belém em Janeiro 2012], agora, sim, estamos prontos [para o perceber]." E é ainda, para Charmatz, a possibilidade de prolongar o que o seu movimento tem de intuitivo, de tão alicerçado que está numa prática de rigor, de estudo e de metodologia que em momento algum pode ser entendida como gestão eficaz de um efeito.

Na viagem que a coreógrafa que foi Artista da Cidade de Lisboa em 2012 está a fazer, vinda de Keeping Still (2008), de En Attendant (2010) e Cesena (2011), tentando encontrar "o pequeno movimento que desenha um espaço", reside um desejo de regresso a uma simplicidade, que por vezes é só eficácia, "libertadora". Como se caminhasse do material para o imaterial. Ou, como a própria diz: "Como se redescobrisse o que sempre tive em mim, mas que, porque não dançava nas minhas peças, deixei de ver."

No percurso que Charmatz tem vindo a desenhar, a ponte entre uma memória herdada (Quintet Cercle, 2006; 50 ans de danses, 2009) e uma construção mais livre (o seu opus Levée des conflits, 2010, para 22 bailarinos, continua por descobrir em Portugal) que tem caracterizado o seu trabalho (inclusive em objectos tão radicais como Régi, 2005, com Raimund Hoghe, e La Danseuse Malade, 2008, com Jeanne Balibar, esteve na Culturgest em 2009) sugere o caminho oposto: do imaterial para o material.

É por isso que esta peça é muito mais complexa do que isto. E as escolha das Partitas de Bach não são meramente circunstanciais. Sendo uma composição barroca, escrita para ser dançada, a coreografia da música sujeita a coreografia dos corpos a um equilíbrio entre o que se pode mostrar e o que se deve deixar como intuição.

O que os dois coreógrafos mostram, mesmo que seja de De Keersmaeker toda a estrutura, é uma estrutura que não faz distinção sobre a pertença do movimento mas assume um confronto entre diferentes percepções do corpo. Mais interna, mesmo que exposta, no caso de De Keersmaeker. Mais física, mesmo que intensamente pensada, no caso de Charmatz. O coreógrafo usa um exemplo da própria partitura de Bach: "Ouça-se a nota mais baixa, é aí que está a estrutura." Olhe-se para o palco. Aquilo por que esperamos, aqueles dois corpos em profundo, exigente, extenuante, exangue diálogo, acontece na mais discreta das presenças: a de um espaço que confina a um tempo e a um modo um movimento que, a cada momento, se quer libertar.

O PÚBLICO viajou a convite da Fundação Calouste Gulbenkian