Mães à distância: orgulho, tristeza e preocupação

As mães ficam por cá enquanto os filhos correm mundo para estudar ou para trabalhar. Hoje é Dia da Mãe.

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Ilustração de Bárbara Fonseca, uma das filhas que saíram do país e deixaram a família cheia de saudades Bárbara Fonseca

Qatar, Angola, Reino Unido, Alemanha, Holanda e República Checa foram os países de destino dos filhos. O PÚBLICO falou com seis mães que têm os filhos longe. Uma delas, Maria de Jesus Rodrigues, apanhou um grande susto na semana que passou. É a mãe de uma das estudantes portuguesas feridas na explosão de um edifício universitário em Praga.

Para estudar ou trabalhar, cada vez são em maior número os jovens que saem de Portugal. Provisória ou definitivamente. As mães ficam por cá e continuam a apoiá-los, ainda que à distância. Autonomia, experiência de vida e “mais mundo” são aspectos positivos a que se agarram quando os vêem partir. Mas sentem tristeza por Portugal não lhes assegurar um futuro feliz. Vivem preocupadas e preferiam tê-los por perto. Sempre. Vale-lhes o Skype.


"Nada substitui a proximidade física de poder dar um abraço ou um beijo”
República Checa
Mãe: Maria de Jesus Rodrigues
Filha: Catarina, 22 anos, estudante de Medicina

Maria de Jesus Rodrigues viu a filha partir há cinco anos para Praga, para estudar Medicina. Foi uma decisão de Catarina. “Quando ela terminou o ensino secundário e, apesar de ter sido boa aluna, não teve oportunidade de entrar para uma faculdade de Medicina em Portugal. Como só estava interessada em seguir essa área, chegou a dizer que, se não fosse estudar Medicina, preferia ir trabalhar. Atendendo à sua determinação, decidimos apoiá-la incondicionalmente na realização desse sonho”, conta a mãe, via e-mail.

Se a preocupação com a distância já existia, agora aumentou, depois de a filha ter sido uma das vítimas (com ferimentos ligeiros numa mão) da explosão em Praga, a 29 de Abril, num edifício universitário. “É como uma espécie de alerta para a fragilidade do ser humano e dos perigos que existem à sua volta.”

Mas antes já havia o sentimento de impotência próprio de quem está longe: “As preocupações aumentam na medida em que estou privada da sua companhia e do seu convívio diário. Também não é possível dar-lhe apoio quando ela necessita e nada substitui a proximidade física de poder dar um abraço ou um beijo.”

Agora, tudo se passa “via Internet, através do Skype”. Afectivamente falando, a distância não as afastou: “A nossa relação é mais forte do que todas as barreiras. Por isso, o que muda não é a intensidade dos afectos, mas o modo e o meio de os expressar.”

Quando se deu a explosão, Catarina Rodrigues telefonou à mãe: “[Disse] que tinha acontecido uma explosão na biblioteca onde se encontrava, mas que estava bem e que tinha apenas uns ferimentos numa das mãos. Foi contactada a embaixada de Portugal em Praga, que disponibilizou toda a informação e apoio.”

A mãe não lhe pediu para voltar: “Nunca o faria porque ela está a estudar para concretizar o sonho de ser médica.” Também nunca lhe pedirá que fique em Portugal depois do curso terminado: “A decisão será sempre dela. O que eu gostava mesmo era que ela não tivesse tido a necessidade de ir estudar para o estrangeiro, não só por questões afectivas, mas também financeiras. É um esforço muito grande para a Catarina e para os pais.”

Maria de Jesus encontra, no entanto, aspectos positivos da saída do país: “O facto de ela não estar em Portugal tornou-a mais autónoma, com maior capacidade para decidir e resolver situações. E ao mesmo tempo mais crítica sobre o que se passa em Portugal, sobretudo relativamente aos jovens.”

Para outras mães em igual situação, diz: “Não é fácil ser mãe à distância, porque não se está fisicamente presente para ajudar nas situações concretas do dia-a-dia. É importante manter o contacto regular, acompanhar o percurso de vida, quer seja de estudo ou trabalho, demonstrar compreensão e respeito, encorajar quando é necessário e transmitir muito amor.”

A filha sente-se “mais independente e mais forte”, diz ao PÚBLICO, por telefone. “Tenho saudades e o reencontro é sempre emocionante, mas também é bom estarmos sozinhos”, acrescenta. A sua maior barreira na República Checa é a língua, com que não simpatiza. “Estudamos em inglês, mas temos de comunicar em checo. Gosto de francês, de italiano, mas não acho o checo bonito.”

O episódio da explosão não a fez arrepender-se de ter saído de Portugal. “Podia acontecer a qualquer pessoa em qualquer lugar. Eu fiquei calma, mas triste com a destruição e caos que estavam à minha volta. Um senhor que estava muito pior que eu queria ajudar-me. Eu própria senti o impulso de ajudar. Foi um bom impulso, pensando na profissão que vou seguir. Acabou por ser uma aprendizagem, que acabou bem para mim.”

Especialidade profissional e destino geográfico ainda não estão decididos. “Está tudo em aberto.”

"Foi difícil adaptarmo-nos. E não me parece que ela volte”
Alemanha
Mãe: Luísa Nogueira
Filha: Bárbara Fonseca, 23 anos, ilustradora

Luísa Nogueira não incentivou nem contrariou a vontade da filha de, a certa altura, “se fazer ao caminho”. Aos 21 anos, Bárbara Fonseca, depois de ter estudado Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e de ter tido alguma experiência profissional no país, nomeadamente no PÚBLICO, “sentiu necessidade de ir para fora”.

Diz a mãe: “Era difícil ela conseguir trabalho na sua área ou mesmo noutra. Com sorte, iria para um supermercado. E seria infeliz.” Isso é que Luísa não quer, de forma alguma. “Entristece-me que todo o investimento que fizemos nela (música, ballet, artes) não tenha retorno aqui em Portugal. Mas a verdade é que ela se sente bem em Berlim, está a trabalhar e está feliz. Se ela está bem, eu estou bem.” Mas, em termos familiares, foi muito complicado. “A Bárbara é muito expansiva, ‘ocupa muito espaço’, enche uma casa. O irmão [18 anos] é mais discreto. Foi difícil adaptarmo-nos. E não me parece que ela volte.”

Segundo Luísa Nogueira, a preocupação não se dilui à medida que os filhos crescem. “São diferentes, mas continuamos a preocupar-nos com as constipações... Agora, com a distância, fico sempre na dúvida se ela está mesmo bem ou se não me diz a verdade só para não me preocupar.” A aflição mais recente tem que ver com a aquisição de uma bicicleta. “Será que ela usa sempre capacete?”, pergunta a rir-se do outro lado da linha. Mas com uma inquietação genuína.

Comum é estarem ambas a fazer o jantar, uma nas Caldas da Rainha e outra em Berlim, enquanto se vão vendo e falando via Skype. “Mas a distância afastou-nos em termos de relação mãe-filha. É diferente, sinto-a mais afastada. É natural”, conclui a mãe.

Como todas as mães, gostava muito de a ter por perto. “É triste ter de aceitar a distância. Mas, se ela está bem, eu estou bem.”


Gostava que o filho estivesse por perto
Angola
Mãe: Fátima (nome fictício)
Filho: Joaquim (nome fictício), 31 anos, engenheiro civil

Fátima foi a mãe mais preocupada e nervosa que falou com o PÚBLICO. O filho voltou para Angola há poucos dias, depois de já lá ter estado a trabalhar alguns meses. Notícias relacionadas com doenças tropicais, sobretudo paludismo, e relatos de episódios de violência e roubos provocam ansiedade e preocupação constantes nesta mãe, que telefona diariamente ao filho. Daí os nomes fictícios e a ausência de discurso directo neste breve testemunho.

Joaquim decidiu abandonar o país depois de a empresa para onde trabalhava como engenheiro civil começar a deixar em atraso o pagamento dos ordenados. Embora vá pagando, ainda está a dever aos trabalhadores os salários relativos aos meses de Novembro e Dezembro do ano passado. E nada de subsídio de Natal.

As comunicações entre mãe e filho fazem-se sobretudo por telefone porque falta muitas vezes a luz em Angola, impossibilitando o recurso à Internet. A água também falta, conta Fátima, que tem mais uma filha adulta, mas que trabalha em Portugal.

Esta mãe lamenta profundamente a situação a que o filho se vê obrigado. Mantém uma relação muito próxima com ele e gostava que ele se mantivesse (geograficamente) por perto. Mais não diz.


“Quando tenho uma ‘saudade súbita’, telefono"
Holanda
Mãe: Manuela Barbas
Filha: Matilde, 20 anos, estudante de Dança

Matilde tem 20 anos, estuda Dança na Escola Superior de Dança e está a fazer Erasmus na Fontys Hogeschool voor de Kunsten, em Tilburg, Holanda. Foi para lá em Agosto de 2012 e estava previsto regressar em Janeiro deste ano. “Contudo, ela adorou a experiência e, com o parecer favorável das duas instituições universitárias, prolongou a estadia por mais um semestre. Mantém-se na Holanda até meados de Julho e, como conclui a licenciatura neste ano, não sabemos ainda se vai continuar por lá”, conta a mãe, Manuela Barbas, por e-mail.

No entanto, as questões financeiras podem ser um entrave ao processo. Há mais uma filha a caminho do aeroporto. E para mais longe. É a Laura, 19 anos, que estuda Economia na Universidade Nova de Lisboa. “Vai em Julho fazer um semestre de intercâmbio na Universidade de São Paulo. Incentivei-a a ir porque considero que estas oportunidades são enriquecedoras do ponto vista académico, mas também pessoal. Além do reforço da autonomia, outras pessoas, outras formas de ver e ‘resolver’, abrir horizontes...”

Em Agosto, Manuela Barbas foi até à Holanda perceber por onde e com quem andava a filha mais velha: “Tive a oportunidade de conhecer a responsável pelo programa Erasmus na área da Dança. Fontys fez-me uma visita guiada à escola e respondeu a todas as minhas questões.” Também pôde conhecer os outros estudantes com quem a filha ia partilhar casa. “Eu andava muito ansiosa e fiquei bem mais tranquila.”

A comunicação entre mãe e filha faz-se diariamente por Skype ou Facebook. “Quando tenho uma ‘saudade súbita’ ou quando não foi possível falarmos na véspera, telefono. De vez em quando, recebemos em casa uma encomenda com uns miminhos enviados pela Matilde, outras vezes somos nós que enviamos.”

Sente que continuam próximas e a falar de tudo, “a distância é apenas física”. Tem muitas saudades e sente a falta da filha todos os dias. “Só me preocupei duas ou três vezes, porque ela esteve adoentada e eu não podia fazer nada... Se fosse grave, é evidente que apanhava o primeiro avião para a Holanda!”

A ida da sua filha mais nova para São Paulo cria-lhe alguma ansiedade: “Pela imensidão da cidade, pela insegurança de que se fala e pela distância a que se encontra. Mas já consegui estabelecer uma boa rede de contactos, de pessoas amigas de amigos que vivem em São Paulo, dois deles vão ser o apoio da Laura enquanto lá estiver.”

Agora que o alojamento já está resolvido, Manuela Barbas consegue adormecer mais tranquila, “depois de uns quantos dias a dormir mal, essa preocupação foi minimizada”.

Conta ainda que a filha podia ter concorrido a uma universidade europeia, mas Laura pensou (e a mãe concordou) que na área dela, Economia, São Paulo seria uma excelente aposta. “Mas vou morrer de saudades porque, ao contrário da Matilde, que vem a casa nas pausas lectivas, não está previsto que a Laura venha antes do final do semestre.”


“Os nossos filhos estando bem nós também estamos.”
Reino Unido
Mãe: Deolinda Ramos
Filha: Bárbara, 27 anos, engenheira civil

Com uma filha de 27 anos, que estudou Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, Deolinda Ramos aceitou com naturalidade (e alguma tristeza) que a decisão da filha e do marido fosse a de rumarem a Londres. “[Bárbara] já se encontra empregada numa empresa, que diz adorar, não só por ser da sua área, o que a realiza, mas pelo tratamento, que é muito diferente do que aqui estava habituada.”

Deolinda admite que “não é muito animador ver a filha ir para longe”, no entanto, “seria pior vê-la doente e deprimida”. O casal decidiu e foi preparando a família para a partida. “Penso que foi positivo porque em Portugal estava a ser um pouco deprimente. Trabalhavam e não recebiam a tempo. Já que assim terá de ser, é preferível vê-la feliz e realizada.” Conclusão: “Os nossos filhos estando bem nós também estamos.”

A distância vai sendo encurtada, todos os dias, por Skype ou telemóvel. Mas a filha já veio a Portugal e os pais também já foram visitá-la a Londres. “Sempre fomos uma família muito presente e próxima. A nossa preocupação é que não adoeça e nós por cá um pouco longe”, diz. Nova conclusão: “Preocupações de mãe, claro.”

“O país está a negar o futuro aos jovens portugueses”
Qatar
Mãe: Angelina Soares
Filha: Catarina, 22 anos, hospedeira

Logo aos 19 anos, Catarina teve uma primeira experiência fora do país. No 2.º ano do curso de Ciências Políticas e Relações Internacionais, fez Erasmus em Istambul. A mãe incentivou-a e nunca se sentiu muito ansiosa: “A Catarina sempre foi muito autónoma e responsável. É claro que pensei na distância, mas achei que era uma boa experiência.”

Segundo a mãe, Catarina jamais tinha pensado em ser hospedeira, “mas, como cá estava sem saídas profissionais, concorreu para as Qatar Airlines”. E é para quem trabalha desde Junho de 2012. “É bem paga.”

Angelina Soares tem mais dois filhos, o André, 28 anos, e a Inês, 19. Ambos em Portugal. Ele já trabalha, ela ainda estuda.

Esta mãe acredita que é “enriquecedora, nesta fase, a experiência que a Catarina está a viver”. Ela diz que vai voltar. Mas a mãe não pode afirmar peremptoriamente que preferia tê-la aqui, pois sabe como “estas vivências, para mais num país muçulmano, tão diferente, abrem horizontes”.

Custa-lhe, como mãe, viver a situação, mas a verdade é que sente que “o país está a negar o futuro aos jovens portugueses”. Por isso, deixa um apelo aos governantes: “O nosso país tem de se transformar num lugar feliz para os nossos filhos. É aqui que eles têm de se realizar. Em Portugal.”