Há um camião de obras de Lygia Clark a percorrer Portugal

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A exposição mostra sete Bichos (em cima) e no interior do camião há pinturas da fase inicial da artista DR

Em 1963, Lygia Clark deixou descrito num diário um projecto para Portugal. Concretiza-se agora, 50 anos depois, em itinerância

Corria 1963 quando Lygia Clark (1920-1988) escreveu num dos seus diários: "O que eu gostaria de fazer é o seguinte: levar os bichos para Portugal e fazer de lá até onde possa chegar, exposições em praças públicas."

Bichos é o título genérico das emblemáticas esculturas de alumínio que Clark, uma das referências maiores da arte brasileira das décadas de 1960 e 1970, começara a desenvolver três anos antes. Modulares e articulados, de maneira a poderem assumir diferentes formas, são feitos para manipular e, tal como a generalidade da obra de Clark, o seu foco sempre esteve no grande público não especializado, no sentido de "uma arte "verdadeiramente participante"".

"Os meus planos iniciais para os bichos não incluíam Museus nem Marchants", escreve a artista no mesmo diário. "O que eu queria era fazer montes deles, pôr à venda até nas esquinas por camelôs."

No Brasil, "camelôs" são vendedores ambulantes, normalmente com bancas ilegais, improvisadas. Lygia foi dissuadida desse plano pelo crítico de arte e literatura Mário Pedrosa, um dos fundadores da Liga Comunista e do Partido dos Trabalhadores. "Mário Pedrosa disse ser um suicídio mas bem que estou arrependida pois acho que era o que deveria ter feito mesmo", escreveu a artista.

Mário Pedrosa morreu em 1981, Lygia Clark sete anos depois, em 1988. Um quarto de século volvido, parte do plano inicial para os Bichos concretiza-se: desde dia 2 e até 30 de Junho há um camião cheio de réplicas de Bichos, obras sensoriais e pinturas a percorrer Portugal.

Hoje e amanhã, esse camião está em Óbidos, onde fica estacionado na Porta da Vila. Dia 10 chega ao Porto, aos jardins de Serralves. Seguem-se cidades como Coimbra (dias 17, 18 e 19), Lisboa (8 e 9 de Junho na LX Factory, 14 a 17 na Praça da Figueira), Cascais (21 a 23), Faro (28 de Junho) e Lagos (29 e 30).

A estrutura da exposição é sempre a mesma: para além de sete Bichos pequenos e dois médios, no interior do camião estão exemplos de nove pinturas da fase inicial, dos anos 1950, quando a artista foi uma das fundadoras do Grupo Frente (1954), dedicando-se a uma pesquisa sobre as hipóteses de fuga da pintura ao "espaço claustrofóbico da moldura"; há também um Trepante, da longa série que a artista desenvolveu entre 1960 e 1964 (uma derivação dos Bichos em que as obras, formas orgânicas nascidas a partir de recortes em alumínio, podem emergir de caixas ou ser, por exemplo, dependuradas em árvores); há ainda quatro Obras Moles (Trepantes feitos em borracha, a que a artista chamava "obra de arte para se chutar") e três Caminhando (recortes em papel feitos a partir de 1965).

No exterior, à volta do camião, serão apresentadas 18 outras obras, na sua maioria Objectos Sensoriais, uma longa série de objectos relacionados com o corpo e datados de entre 1966 e 1975, e Objectos Relacionais, de entre 1976 e 1984 e criados especialmente para uma técnica de terapia pela arte desenvolvida por Lygia Clark.

Cá fora, projectar-se-á um filme e uma equipa de monitores orientará a manipulação de peças e a interacção do público com os vários materiais disponíveis.

Excursão de ciganos

"É uma compilação pedagógica, porque todo o projecto se supõe ser formador", explica Alessandra Clark, neta da artista que há já dez anos trabalha na Fundação Lygia Clark e no Clark Art Center.

O "camião-baú", como ela lhe chama, foi organizado por estas duas entidades a partir da obra teórica da artista, em parte compilada no Livro-Obra (1983-84). É uma das iniciativas do Ano do Brasil em Portugal.

Para provar a tese de que "o público (povo) é subestimado na sua real receptividade em relação a arte" e de que a sua era "uma arte "verdadeiramente participante", no mais alto sentido", Lygia Clark imaginou-se a comprar "um trailer que se chamaria "caminhando"" e a fazer "uma espécie de excursão de ciganos" : "Como eu adoraria. Seria a maior aventura da minha vida", escreve no seu diário. "O meu desejo é que todos possam dialogar com os bichinhos. Tenho a certeza de que a gente do povo vai gostar deles."

Lygia estava convicta porque, em tempos, um português tinha ido ao seu atelier para lhe comprar a máquina de funileiro que usava para fazer essas peças: "Perguntando-me o que fazia com esta máquina, mostrei o bichinho sem dizer nada. Ele olhou e pegando nas mãos, virando-o de todos os lados disse: - Que interessante, não tem avesso..."

O título da iniciativa é Lygia Clark, Caminhando em Busca do Próprio Caminho. Vem de uma frase do diário: "Faria fotografias de cada local de exposições e levaria vários [membros do público] caminhando para que eles participassem em busca do seu próprio caminho."