Crítica

Helder Moutinho em fado maior no São Luiz

Sexta-feira, 13 de Maio às 21h, com a sala a três quartos, Helder Moutinho apresentou 1987, ao vivo, em Lisboa, no Teatro Municipal São Luiz. 4,5 estrelas

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O fadista Helder Moutinho DR

Helder Moutinho já está fadado para cantar em dias assim. Lembra-se que, noutra vez, estava ele a cantar no CCB e estava o primeiro-ministro a anunciar “coisas horríveis” ao país. Na noite de sexta-feira, 3 de Maio, sucedeu o mesmo. Cantava ele o segundo fado da História de um desencontro quando o país lá fora escutava os fados da austeridade.

Mas isso não perturbou, de modo algum, a estreia ao vivo de 1987. Dias depois da confirmação na excelência de Camané (o seu irmão mais velho) num CCB superlotado e na mesma sala do São Luiz onde, na véspera, Anamar assinalara com um concerto enérgico e muito aplaudido o seu regresso aos palcos e aos discos, Helder Moutinho apresentou com sobriedade, elegância e sobretudo um grande espírito fadista, 1987, disco arrojado onde se alinham quatro histórias cada qual composta por quatro fados, todos eles escritos com um empenho e uma emoção que transparecem na música e no canto.

O roteiro, distribuído à entrada da sala, com a ficha do espectáculo e a sequência dos fados, foi cumprido à risca. O que quer dizer que os fados foram “baralhados” na sua sequência original, acabando as histórias por darem origem a uma história nova. E essa história é a do canto de Helder, cada vez mais depurado e perto da perfeição. Do início, com Pequeno amor, ao final, com Escrito no destino, temas de João Monge com música de Helder (o primeiro) e do Fado menor (o segundo), ouviu-se a quase totalidade dos temas do disco (só ficou de fora Maria da Mouraria, primeiro tema da história homónima, escrita por Pedro Campos) tendo, pelo meio, A saudade, de Linhares Barbosa e Fontes Rocha, que Helder foi buscar ao seu terceiro disco, Que fado é este que trago? (2008). Foi buscar e bem, porque entre a Noite em claro (da História de um desencontro) e o Luto inteiro (do Luto de uma relação), a saudade foi o sentimento exacto. E ele deu a este fado a alma e a garra que o fado pedia.


De resto, Helder começou a ser aplaudido efusivamente logo ao segundo fado, Vida, ouvindo vários “bravo!” inteiramente merecidos, como em Volta a dar ou em Já não te espero. Num cenário sóbrio mas engenhoso, com vários patamares (palcos dentro do palco) a sugerirem as “casas” das diferentes histórias, Helder teve o suporte condigno no trabalho dos músicos que o acompanharam, também eles já com trabalhos a solo ou projectos próprios: Ricardo Parreira, na guitarra portuguesa; Marco Oliveira, na viola de fado; e Ciro Bertini, na viola baixo. E que brilharam quando a voz lhes cedeu o lugar.

Dificilmente se arranjariam melhores palavras do que aquelas com que Helder fechou o espectáculo, antes de voltar para o encore. Foi João Monge que as escreveu para aquele que para muitos é o fado dos fados, o Menor: “Pus um escrito no destino/ Ninguém o quer habitar/ Só o fado é inquilino/ E paga a renda a chorar”. Que dizer, depois disto?

Talvez esperança, ou festa. Porque o fado, do outro lado da tristeza é também vida. E Helder Moutinho, que já recordara o seu pai, Manuel Paiva (que morreu em Agosto de 2012, precisamente quando ele se encontrava a masterizar este disco), homenageou ainda no encore Alfredo Marceneiro, cantando o Fado bailado (que gravara em Luz de Lisboa, de 2004), e Beatriz da Conceição, no Fado da Bia, escrito por Fernando Tordo e que surge no disco como tema extra-histórias, a título de post-scriptum.

Se para Helder este 1987 ao vivo foi uma noite de fados com F grande (a austeridade, do lado de fora, escreve-se com outras letras), para o público foi também o memorável momento em que o “irmão do meio” do clã Moutinho se fez maior no palco do fado.