Auteur terrible

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Aos 19 anos escreveu - segundo o mito urbano, em três semanas - o argumento de Kids, sobre miúdos que mergulham na falta de objectivos e na droga, depois de o realizador Larry Clark o ter visto a andar de skate

O mundo (e a pop) desmorona-se. Celebremo-lo. Em câmara lenta, meneando as ancas, snifando, lambendo gelados. Meditação moral sobre uma América trash hedonista, Viagem de Finalistas traz de volta Harmony Korine e os seus kids

"Quem é aquele homenzinho de pijama?", perguntava um curioso quando, em Setembro, um grupo de jornalistas se reuniu, durante o Festival de Cinema de Veneza, para se encontrar com o realizador de Spring Breakers/Viagem de Finalistas. Com efeito, Harmony Korine não se dera (mais uma vez) a muito trabalho para dar a ideia de que encontra algo de glamoroso no cinema. De calças largas, camisa aberta e cabelos em desalinho, parecia ter sido alguém que as "estrelas" do seu filme, Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Ashley Benton, Rachel Korine (a sua mulher) e James Franco, tivessem acabado de encontrar lá fora, por acaso. Mas quem conhece o trabalho de Korine sabe que o seu visual diz tudo.

O grande talento de Korine é descobrir as facetas mais odiosas da juventude norte-americana. Aos 19 anos, escreveu - segundo o mito urbano, em apenas três semanas - o argumento do filme Kids, sobre miúdos da Grande Nova Iorque que mergulham na falta de objectivos e na droga, depois de o próprio Larry Clark o ter visto a andar de skate e de o ter convidado. O trabalho foi recebido pelos críticos, em 1995, com sentimentos contraditórios: tanto sexo entre menores e, ainda por cima, encenado de forma aparentemente tão casual, chocou a maior parte. Mas constituiu definitivamente o início da carreira de Korine como auteur terrible - na altura, mais um enfant provocador que outra coisa. Korine voltou a colaborar com Clark (e Edward Lachman) no filme Ken Park (2002), mas os seus caminhos separaram-se desde então.

Digno de nota foi o primeiro filme que escreveu e realizou, Gummo (1997), que retratava a mesma geração de Kids mas, desta vez, em Xenia, cidade do interior. Korine, entretanto com 23 anos, exibia nesse filme uma galeria de terror impiedosa e sem comentários: jovens abusados pelo pai que disparam sobre gatos, que cheiram cola, que oferecem os serviços sexuais da irmã, que vagueiam sem rumo, pequenos monstros deixados à sua sorte, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos.

Muitas destas cenas parecem vídeos do YouTube, e esse foi também o conceito do filme, diz Korine: "Para fazer o filme, pus uma câmara nas mãos do maior número de pessoas possível: dei uma Super-8 à minha irmã, uma Polaroid a um amigo, etc. A ideia era irem para a rua e capturarem momentos que eu depois deveria juntar, como numa colagem ou num álbum de fotografias - que também são feitos de instantâneos aparentemente aleatórios mas, não obstante, possuem uma estrutura narrativa que se revela quando ligamos esses momentos por meio de memórias ou experiências próprias."

O seu filme Mister Lonely, sobre um imitador de Michael Jackson que se apaixona por uma falsa Marilyn Monroe, foi filmado em super-35 mm, mas o realizador "filmaria também com um telemóvel, caso isso se adequasse ao tema ou ao objecto" do filme. "Além disso, acho muitos vídeos do YouTube melhores que 99 por cento dos filmes que são feitos por aí." E, de qualquer forma, não acredita em narrativas lineares: "Quando era pequeno, as coisas pareciam andar como comboios numa linha. E, de repente, vi os irmãos Marx, o que modificou completamente a minha percepção das regras. Compreendi que não tinha de haver um princípio e um fim, que os filmes podiam ser feitos só de momentos."

Atrás da fachada

Em Gummo, um jovem endireita um retrato de família que poderia estar num álbum de fotografias e descobre, por trás, um ninho de vermes - metáfora perfeita, para Korine, da mais sagrada instituição americana: apenas fachada e, por trás, completamente podre. Como será quando esta geração crescer? Gummo é a expressão extrema da sensação de que o mundo se desmoronou e também da forma de sentir de alguém que ainda está a crescer artisticamente, que procura possibilidades adequadas de articular o que acontece dentro e à volta dele.

Também Korine, como um destes jovens (e como alguém que, segundo declarações do próprio, fugiu do colégio privado que frequentava por se masturbar com um cachorro quente), cresceu entretanto e, ainda que Spring Breakers volte a pegar na percepção da vida de Gummo, a maturidade que adquiriu como cineasta permite aqui uma certa perversidade: este filme poderá agradar exactamente àqueles cujos costumes ele subverte. Em concreto, as spring breakers são, no filme, quatro estudantes com vontade de se divertir que assaltam um restaurante para financiarem uma viagem de férias à Florida. Aí mergulham no excesso, com muito álcool, sexo e drogas duras, e encontram aquele que será, por algum tempo, o seu mestre no colorido gangster Alien (James "Eu não sou deste mundo" Franco), cheio de pose - "Look at my shiiiiiit!" - e que faz chover notas à sua volta como se fossem papelinhos.

O rapper RIFF RAFF reivindicou para si o crédito de inspirador desta personagem, mas disse-se depois que ela se baseava no rapper Dangeruss. "Alien não pode ser associado a uma única pessoa", diz o próprio Korine. "É uma amálgama de várias figuras, de pessoas que conheci durante a minha infância no Tennessee, que encontrava no autocarro da escola, miúdos brancos de cabelo entrançado que faziam rap. Sou amigo do RIFF RAFF e não há dúvida de que o seu estilo também está presente em Alien. Mas foi realmente com o Dangeruss que Franco passou mais tempo na preparação para a rodagem, e o personagem tem muitos dos seus maneirismos."

Korine adopta virtuosamente a estética dos clipes de rap e dos reality shows, que celebram um estilo de vida como o que é aqui encarnado por Alien: em câmara lenta, os extáticos sempre-em-festa meneiam as ancas, snifam coca em seios de silicone e lambem gelados com olhares lascivos. E o prestigiado câmara Benoît Debie faz deste mundo de biquínis fluorescentes e dentes de ouro cintilantes uma orgia de imagens em cores de rebuçado. "Eu queria imagens que caíssem do céu", diz Korine, "que ferissem a vista, que fossem agressivas, como nos videojogos ou na música electrónica. O Benoît é muito criativo e teve uma intuição fantástica para as cores e os movimentos que eu imaginei."

Pelo contrário, o documentário Trash Humpers (2011), sobre punks geriátricos que têm, digamos assim, um vincado gosto pelo lixo, foi filmado em cassete VHS usadas, "porque o filme devia fazer lembrar lixo reciclado". "O material, as câmaras e a técnica são como instrumentos musicais. Não me sinto obrigado a uma forma, reajo a um determinado instinto ou conceito."

No caso de Spring Breakers, trata-se da cultura pop como ideia esgotada - com os seus ícones actuais: "Ao escrever o argumento, ouvi muita música pop, que os jovens no filme também ouvem", conta Korine. "Pensei que seria interessante que esses papéis fossem interpretados por actrizes que são estrelas dessa mesma cultura pop e brincar com a mitologia que existe à sua volta. Agradou-me a ideia de elas desempenharem papéis completamente contrários à sua imagem."

A partir do laboratório do Disney Club multiplicam-se ideias ocas sobre sexo e ideais na forma de Selena Gomez & C.ª, telas de projecção perfeitas para necessidades exacerbadas: "Estas jovens alimentam um fanatismo extremo nos seus fãs, como eu nunca vi nas maiores estrelas de Hollywood", comenta Korine. Portanto, as filmagens eram sempre acompanhadas por multidões. "Aproveitei então essa energia e filmei pequenas cenas no menor tempo possível. Foram quase filmagens de guerrilha. E isso deu-me a ideia de criar uma estrutura como a da música trance, com loops, samples e repetições" - o filme como uma espécie de banda sonora pop, "com uma narração fluida e em que o tempo, no fundo, é irrelevante. Trata-se mais de energia e de ritmo."

Na verdade, a música - de Skrillex e Cliff Martinez, entre outros - surge no filme como um forte personagem autónoma: "Para mim, a música foi imensamente importante. Fui criado em Nashville, num bom bairro de classe média, mas sempre me puxou para as casas de tráfico. Quando era pequeno, via passar os manos nos seus carros, com a música a bombar das colunas. Sentia a batida no meu estômago como se fossem pequenas explosões. O Skrillex foi quem mais me impressionou, de uma forma física, gutural... uma loucura. Eu queria transpor isso para o filme, para que a sala tremesse também. O filme devia ter algo claramente físico, como uma experiência com droga que nos faz tripar, que nos faz entrar em transe, que permite uma transcendência... e depois acaba."

Britney, a maior

Korine também fala hoje do tempo em que consumiu com um distanciamento descontraído: "Para mim, era como se não houvesse amanhã. Não tinha nenhuma relação com o que me rodeava e era tudo muito rápido. E procurei formas de tornar as coisas mais lentas. Mas não eram formas recomendáveis", conta o realizador, agora pai de uma menina.

O segredo da ironia de Spring Breakers é que Korine actua como se se deixasse levar outra vez pela máquina do entretenimento, pelos excessos, pelas tentações - embora, na verdade, entoe um adeus ao hedonismo alimentado pelos media. Isso é mais claro na personagem de Selena Gomez, Faith. Como o seu nome indica, ela tem fé e é moralmente forte, mas quer participar nos excessos profanos das amigas e entende o conflito resultante como enriquecimento espiritual. Korine diverte-se nitidamente a manchar a imagem "Disney" de Gomez e, ao mesmo tempo, a expor a religiosidade que predomina nos EUA como uma encenação.

Pelo contrário, as outras jovens não levantam objecções semelhantes. "O dinheiro põe-me húmida", confessa uma delas, reconhecendo assim a atracção que sobre ela exerce Alien. O próprio gangster caracteriza o seu ostensivo estilo de vida como o sonho americano tornado realidade. E Korine dessacraliza assim um mito central da América: o milagre não acontece com o lavador de pratos, mas com o bandido. E, com efeito, quando as jovens aterram nos sedutores braços de Alien, o foco do filme desloca-se cada vez mais para a subcultura criminal povoada por negros e hispânicos e pseudonegros como Alien, que perseguem à sua maneira, à sombra da classe média predominantemente branca, os ideais do sonho americano.

Aqui torna-se também claro que Korine não quis falar de spring [Primavera], mas sim de break - o quebrar de ideologias, tanto a nível ético como étnico. "Não foi de modo nenhum minha intenção fazer um filme sobre umas férias de estudantes. Trata-se de uma reinterpretação impressionista destas coisas, como um poema pop. O mundo de Alien interessou-me. É nesse ponto que o filme vai mais no sentido da morbidez, espero eu, com as casas de tráfico, os iates vazios, muito distantes do ambiente das festas, como uma espécie de praia de areia negra." É muito fácil ver neste quadro alguém como Britney Spears, ou melhor, ela destaca-se dele como a sua rainha, que aqui é eternizada com uma das suas canções numa cena que já é lendária: "Britney foi a precursora da loucura pop, um maremoto que, desde então, engoliu tudo", descreve Korine. "Isto pode soar disparatado, mas ela é a maior. Efectivamente, a sua música é muito mais complexa do que parece. À superfície, é pop e ar quente, mas bem lá no fundo é patologia pura."

Há uma coerência notável nos temas de Korine: os seus filmes procuram trazer para o primeiro plano um certo tipo de pessoas: indivíduos peculiares, talvez mesmo "bizarros", que geralmente se enquadram no conceito de subcultura - e, no seu desespero profundo, uma Britney Spears pertence também, paradoxalmente, à subcamada literal de um sonho resplandecente.

O pai do realizador, Sol, artista e documentarista, levava o pequeno Harmony para as rodagens da sua série documental sobre os chamados moonshiners, pessoas que viviam isoladas e ganhavam basicamente a vida trabalhando em circos e feiras. "Para mim, isso foi a entrada no mundo real", diz Korine.

Korine já fora convidado para a 54.ª Bienal de Veneza em 2011, com um filme para a instalação de James Franco Rebel, uma colaboração que agora se pode ver como um prólogo de Spring Breakers. Korine realizou para esse trabalho uma nova versão da decisiva cena de luta do clássico de Nicholas Ray Rebelde sem Causa, com Franco como sósia de James Dean e um gangue de raparigas de Los Angeles. Em resumo, os rivais dão-se a conhecer, por meio das suas T-shirts, como fãs dos rappers antagonizados Tupac Shakur e Notorious B.I.G.Todos os intervenientes usam bicicletas BMX e as raparigas, a dado momento, despem-se, ficando apenas com a cara tapada.

Estabelecer uma relação entre esta cena e os gorros de esqui (cor-de-rosa) que as protagonistas usam em Spring Breakers não fez parte das intenções de Korine: "As pessoas perdem qualquer ligação com o filme quando tentam descobrir qual a minha "lógica", porque é que eu faço isto ou aquilo, ou que metáforas pretendo utilizar. Na realidade, não me interesso muito pelo plano intelectual quando estou a trabalhar. Interessam-me muito mais as emoções e que as pessoas saiam do cinema com um qualquer sentimento. Se um filme consegue deixar-nos uma imagem que fica na nossa memória, conseguiu alguma coisa." É inegável que Spring Breakers tem imagens assim.

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