Prémio Mies van der Rohe para arquitecturas que resistem à crise

A imponente sala de concertos Harpa, símbolo da recuperação da crise leva prémio principal à Islândia. Menção honrosa para a "arquitectura da crise" da Nave de Música do Matadero de Madrid

Anguloso, translúcido, rendilhado, palco de um jogo de luz e sombras e dominado pelos elementos - ar e água, no espírito e tradição do quotidiano islandês. A sala de concertos e centro de conferências Harpa, em Reiquejavique, foi ontem premiada pela Fundação Mies van der Rohe e pela Comissão Europeia. Reflecte o mar do porto da capital islandesa e o céu do Atlântico Norte e do Ártico e é um sinal: o Harpa "passou de ser um símbolo da crise para ser um símbolo da recuperação face à crise", diz o arquitecto português Pedro Gadanho, membro do júri que deu o Prémio Mies van der Rohe aos ateliers Henning Larsen Architects e Batteríið Architects, em colaboração com o estúdio do artista plástico Olafur Eliasson.

O júri do prémio de arquitectura contemporânea procurava projectos "símbolo da união da Europa", que estabeleçam "a arquitectura como activo para a projecção cultural" do velho continente, explica Pedro Gadanho ao PÚBLICO. Na semana passada, os membros do júri andaram pela Europa a visitar os cinco projectos finalistas em busca de um vencedor, que encontraram na Islândia. À mistura, ingredientes como a colaboração, o espaço público, sonho e economia.

O Harpa, implantado numa zona da cidade islandesa que se quer reinventar, foi premiado por ter "captado o mito de uma nação - a Islândia - que agiu conscientemente em defesa de um edifício cultural híbrido a meio da Grande Recessão em curso", explica em comunicado Wiel Arets, presidente do júri. O trabalho interdisciplinar dos Henning Larsen Architects e Batteríið Architects e do artista Olafur Eliasson (que vão receber 60 mil euros), conhecido pelo seu trabalho com a luz, envia "uma importante mensagem ao mundo e ao povo islandês, ao cumprir o seu sonho há muito aguardado", diz Arets. Para Peer Teglgaard Jeppesen, da Henning Larsen Architects, o Harpa é hoje "um símbolo do renovado dinamismo da Islândia".

Ao telefone do seu gabinete em Nova Iorque, onde é curador de Arquitectura Contemporânea do Departamento de Arquitectura e Design do Museum of Modern Art (MoMA), Pedro Gadanho não mergulha tanto na tradição islandesa que esteve na base do projecto, mas sim no facto de "ser um edifício feito com bastantes dificuldades e num contexto bastante adverso". Lehman Brothers, final de 2008, o princípio da recessão e "a Islândia foi o primeiro país a sofrer os efeitos da crise", recorda o arquitecto. Essa crise "apanhou o projecto em plena construção e convulsão". O Harpa "passou de ser um símbolo da crise para ser um símbolo da recuperação face à crise", postula o único português de um júri de nove elementos.

Mas o Harpa não é só um símbolo económico: é também testemunho vibrante de "uma arquitectura nova, com novas referências e com um programa muito desejado pelos islandeses - ter uma sala de concertos". Gadanho destaca a colaboração dos arquitectos com Olafur Eliasson na "construção da fachada", as "salas de concertos de uma escala e espacialidade muito importantes", os "jogos de luz e a colocação junto ao mar" numa estratégia de "crescimento da cidade", que se está a reinventar na zona portuária.

Transição ou indecisão

A fundação e a Comissão Europeia - que destaca a importância do sector da arquitectura nas indústrias criativas europeias, empregadora de mais de 500 mil pessoas e que contribui com 4,5% para o PIB da União Europeia - não premiaram só uma casa cultural numa nova artéria do coração islandês. Atribuíram também uma menção honrosa para arquitectos emergentes (prémio de 20 mil euros) à dupla espanhola María Langarita e Víctor Navarro, pela transformação de um pavilhão de antigo matadouro na Nave de Música Matadero em Madrid. A instalação no matadouro da Red Bull Music Academy, um evento itinerante patrocinado pela marca de bebidas e que ao longo dos anos ocupa espaços nas cidades para juntar músicos e produtores conceituados e jovens valores para sessões criativas, é um projecto erguido em apenas dois meses.

Esta dúplice aliança entre consagrados e jovens arquitectos faz o crítico de arquitectura do PÚBLICO Jorge Figueira identificar duas frentes neste prémio Mies van der Rohe 2013: "O prémio principal para a sala de concertos Harpa remete ainda para a ordem da arquitectura iconográfica e tecnológica que marcou a viragem do século e a primeira década do século XXI; a menção honrosa à Nave da Música investe na ideia da arquitectura como processo de instalação, neste caso no Matadero de Madrid, que tem estado muito presente nos últimos anos no debate arquitectónico."

O universo do Mies 2013 faz-se também dos quatro finalistas que ficaram pelo caminho, da shortlist em que estavam os portugueses Aires Mateus com o seu Lar de Idosos de Alcácer do Sal. Projectos que Pedro Gadanho diz terem sido seleccionados por dizerem algo desta Europa e da arquitectura hoje. Espaços para um continente envelhecido, por um lado, renovadamente multicultural - veja-se outro dos finalistas, o projecto para um parque urbano intercultural em Copenhaga, dos BIG Bjarke Ingels Group -, por outro.

Para Jorge Figueira, que participou no painel de peritos que ajudou a coligir a lista de 355 obras de 27 países da União Europeia de onde saíram os premiados, o Mies 2013 "capta a transição - ou, visto de outro modo, revela uma indecisão - entre prosseguir o elogio a obras "redentoras", marcadas pela escala de grande impacto, o uso de tecnologias avançadas, a oportuna colaboração com artistas... e a ênfase na reabilitação de estruturas existentes, com meios limitados, e com uma plasticidade criada pelo uso ao modo informal".

Assim, podemos olhar para Harpa como "uma obra do antigo regime iconográfico", "a vitória da imagem "transparente" e do objecto icónico", e para a Nave de Música de Madrid como um espaço que "revela, como arquitectura da crise, uma poética do processual, decorrendo directamente da programação do espaço" ou mesmo uma "vitória da não-imagem, e do processo irónico", diz o crítico. E remata frisando que, "interessantemente, a arquitectura portuguesa tem sido, por várias razões, estranha aos dois registos premiados este ano".

A primeira edição deste prémio bienal foi ganha pelo arquitecto português Álvaro Siza com o projecto do Banco Borges & Irmão, em Vila do Conde. Atribuído de dois em dois anos, a cerimónia de entrega do 13.º prémio está agendada para 7 de Junho, no Pavilhão Mies van der Rohe, em Barcelona, onde se assinalará o 25.º aniversário do galardão.