Ao fazer 50 anos, a Árvore ganha cara nova e mais razões para ser visitada

A cooperativa do Porto inaugura esta terça-feira o projecto Árvore XXI, que lhe renovou o edifício e criou um bar-restaurante sobre o Douro.

Pedro Gil trabalha na oficina de cerâmica da Árvore com um sorriso. A luz entra pelas amplas janelas, inundando o espaço de uma claridade que não existia há pouco tempo.

"Estava tudo a cair", conta o membro da cooperativa enquanto pinta um dos equipamentos da oficina, entre peças de artistas como Graça Morais, Júlio Pomar e Nadir Afonso.

A oficina de cerâmica - onde "não havia janelas", frisa ao PÚBLICO o presidente, Amândio Secca - é um dos vários espaços da Cooperativa Árvore, no Porto, que têm cara lavada, graças ao projecto Árvore XXI. Com um investimento de 1,5 milhões de euros, dos quais um milhão é proveniente do programa operacional ON.2 - O Novo Norte, a obra é inaugurada hoje, a partir das 21h30, com um espectáculo multimédia, dança contemporânea, um concerto de jazz e um DJ set.

A noite de inauguração, o primeiro grande momento do programa de celebração dos 50 anos de vida da Árvore (fundada a 9 de Abril de 1963 por um grupo de artistas plásticos), já aproveita a esplanada com vista para o Douro e o vizinho Jardim das Virtudes. É nesta esplanada que está a ser montada uma estrutura envidraçada onde funcionará um bar-restaurante, também pensado para receber tertúlias. O projecto de restauração será escolhido entre seis concorrentes para ser inaugurado no final de Junho, prevê Amândio Secca. Ao lado, vai nascer um jardim de esculturas - e já lá está uma.

A abertura do bar-restaurante é uma das estratégias da Árvore para "criar novos públicos" e chegar aos muitos portuenses e turistas que nunca lá entraram. E as vias de entrada na instituição da Rua de Azevedo de Albuquerque vão ser mais. Um exemplo: em Maio, abre uma oficina multimédia, que vai alargar a oferta de cursos livres para áreas como a fotografia digital e o vídeo. Objectivo: actualizar a oferta formativa da Árvore, que foi fundamental para renovar o ensino das artes em Portugal, sendo pioneira em áreas como o desenho e a educação artística para crianças.

O Árvore XXI criou novos espaços e renovou outros. O armazém onde são guardados quadros do acervo da instituição é agora "do mais moderno" que há, orgulha-se Amândio Secca, o sócio número 17 da cooperativa (entrou em 1964). O armazém ocupa o espaço do antigo Horto das Virtudes, fundado em 1849 (a data está inscrita no tecto) por José Marques Loureiro, "o grande jardineiro do Porto".

"Porque era proibido"

A "nova" Árvore foi desenhada pelo atelier de arquitectura SJGS, que apostou num "trabalho de recuperação com grande contenção de custos", explica ao PÚBLICO o arquitecto Sérgio Secca, filho de Amândio Secca e sócio da cooperativa há 27 anos.

O arquitecto procurou "explorar a relação" da instituição cultural com o Jardim das Virtudes, um espaço municipal que também será acessível a partir da Árvore. Sinal disso mesmo é o simpósio de escultura que deve acontecer em Junho: durante 20 dias, naquele jardim, à vista de todos, os escultores Paulo Neves, Vítor Ribeiro e Isaque Pinheiro vão transformar blocos de pedra em esculturas.

Sérgio Secca encontrou um edifício que, "em termos estruturais, estava em bom estado", mas cujos acabamentos estavam em muito más condições. Algo natural para um edifício cujas últimas obras tinham acontecido depois do ataque bombista que sofreu no ano quente de 1976 - a Árvore era um dos pontos da efervescência política e cultural do período pós-revolucionário.

Já antes da revolução, quando a palavra "moderno" assustava o regime, a Árvore congregara artistas e intelectuais. Era um espaço de "liberdade", conta ao PÚBLICO José Rodrigues, escultor e fundador da cooperativa (será alvo de uma exposição, a inaugurar a 10 de Maio). "Porque era proibido, fizemos. Só o que é proibido dá luta", diz o autor do Cubo da Ribeira do Porto, que, com Arnaldo Saraiva, é o único sobrevivente da primeira direcção da cooperativa. "[Na Árvore,] podíamos falar à vontade. Queríamos participar na cidade".

Cinquenta anos depois, num contexto cultural e político diferente, José Rodrigues, que viu a Árvore com 223 sócios no final de 1964 (hoje tem 1400), acredita que o projecto "valeu a pena". Aplaude a maior ligação da cooperativa ao Jardim das Virtudes, um local "único", e as outras linhas do projecto de renovação. "A Árvore é um daqueles projectos que nunca pára. É como as árvores: cresce todos os dias."