Enrico Letta: A mudança que a Itália esperava?

O novo primeiro-ministro italiano está entre os que pensam que Itália não tem futuro fora da União Europeia. Porém contesta o caminho europeu, para ele, demasiado centrado na austeridade.

Enrico Letta foi a escolha do Presidente Giorgio Napolitano para sair do impasse de dois meses desde as eleições de Fevereiro em Itália
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Enrico Letta foi a escolha do Presidente Giorgio Napolitano para sair do impasse de dois meses desde as eleições de Fevereiro em Itália Vincenzo Pinto/AFP

Conciliador, moderado, europeísta; “o nome da convergência”, segundo a imprensa italiana, “o rosto da mudança”. A mudança que a Itália esperava? Enrico Letta, primeiro-ministro escolhido pelo Presidente Giorgio Napolitano, é o número dois do Partido Democrático (PD). O percurso político e estilo sóbrio não dão azo a simples catalogações. Depois da resposta tranquila dos mercados à sua nomeação, recebe o voto de confiança na Câmara dos Deputados esta segunda-feira.

Considerado jovem no contexto político italiano, Enrico Letta tem um longo percurso político. Católico, liberal de esquerda, começou na entretanto desaparecida Democracia Cristã, foi vice-presidente do Partido Popular Italiano e, nessa linha, esteve na coligação Margarida, que reunia os católicos de esquerda, socialistas e liberais, e depois na Oliveira, de Romano Prodi, que venceu as eleições em 1996. Foi então chamado a presidir o comité do Tesouro para preparar o lançamento do Euro e dois anos depois, entrou no Governo, como ministro das Políticas Comunitárias, durante a presidência de Massimo d’Alema.

Esteve à frente das pastas da Indústria e, por duas vezes, do Comércio. Em 2004, foi eleito deputado europeu, pela coligação Oliveira. Em 2007, foi um dos fundadores do Partido Democrático. Chegou a candidatar-se à liderança do partido mas perdeu para Walter Veltroni. Em 2011, apoiou o Governo não eleito de Mario Monti, que assumiu funções depois da saída de Silvio Berlusconi.

Não é próximo de Berlusconi – cujo Partido da Liberdade viabilizou a sua nomeação e escolheu cinco ministros do novo Executivo para sair do impasse resultante das eleições de Fevereiro – a não ser através de laços familiares. Gianni Letta, seu tio, é o braço-direito de Berlusconi, foi o seu subsecretário de Estado da Presidência do Conselho, antes e depois de também Enrico Letta ter ocupado esse importante cargo na era de Romano Prodi.

Essa ligação a uma figura do núcleo mais próximo da direita de Berlusconi é tida como um elemento a favor do novo primeiro-ministro, à luz dos desafios políticos para os quais serão precisos consensos. Para reformar as instituições, credibilizar o sistema política e atenuar os efeitos de uma pobreza resultante do elevado desemprego.

O novo chefe do Governo italiano tem qualidades de “diplomata”, é uma pessoa capaz de reunir consensos, construir pontes a ligar opostos, dizem dele amigos e ex-colegas ouvidos pelo New York Times. Está entre os que pensam que “a Itália não tem futuro fora da União Europeia”, diz ao New York Times Lucio Caracciolo, director da revista de geopolítica Limes e co-autor de dois livros com Enrico Letta. “É a pessoa que a Itália precisava agora”, considera Masimo Bergani, amigo e decano da escola de gestão da Universidade de Bolonha.

Com 46 anos, Letta é um dos mais jovens primeiros-ministros em Itália desde a II Guerra Mundial e o segundo mais jovem da União Europeia, apenas dois meses mais velho do que o primeiro-ministro britânico David Cameron. “Sendo jovem, já acumulou muita experiência no Parlamento e no Governo”, disse o Presidente Giorgio Napolitano.

Infância passada em Estrasburgo
Enrico Letta nasceu em Pisa, Itália, em 1966. Mas foi em Estrasburgo, coração do projecto europeu, que viveu grande parte da infância. Licenciou-se em Ciência Política e doutorou-se em Direito Comunitário. No seu percurso, o foco foi sempre a Europa, lembra a Reuters.

A idade joga igualmente a seu favor num país onde a maioria não se revê na classe política e exige renovação. Tem sólida experiência governativa e ganhou prestígio e influência enquanto membro da Trilateral e na ligação a vários fóruns internacionais, como o Aspen Institute, dos Estados Unidos. Criou, em moldes semelhantes, a Vedrò em Itália.

Surge com essa aura de político discreto, influente e conciliador, não disposto a formar um Governo “a qualquer preço”, como disse antes de anunciar os seus 21 ministros, e decidido a convencer a União Europeia a mudar a direcção tomada “demasiado focada na austeridade” e a restaurar no seu país a confiança nas instituições.

A revista britânica Economist aponta pelo menos dois de uma longa lista de atributos –  “inteligente e bem relacionado” – mas também duas razões para que o novo primeiro-ministro, com o seu “promissor Governo”, não chegue a cumprir cinco anos de mandato: Letta não era “o” candidato a primeiro-ministro; e a sua nomeação não reflecte o desejo de mudança do eleitorado.

Pode estar aí a sua força e a garantia de que mesmo que o Governo caia, o futuro político de Letta não será beliscado. “Ele é um diplomata, e por isso é difícil queimá-lo”, diz o académico italiano e amigo de Letta, Carnevale Maffè que conclui: “É por isso que ele é a melhor escolha.”

 
 

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