Uma maioria, uma convenção e um programa

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Desta vez, quiseram ficar quase todos na fotografia com António José Seguro nélson garrido

Com a união confirmada no dia anterior, o reeleito líder do PS traçou a sua estratégia para chegar ao poder no encerramento do XIX Congresso

Foi no momento em que deu o passo em frente no seu projecto de chegada ao poder que António José Seguro conseguiu levantar o Congresso e empolgar os cerca de 1700 delegados que ontem compareceram ao encerramento do XIX Conclave do PS. Depois de um compasso de espera de algumas semanas - período em que evitou falar de eleições antecipadas -, o secretário-geral socialista meteu prego a fundo no seu discurso. Descarregou uma bateria de propostas governativas, anunciou os seus "Estados Gerais" e rematou com um pedido aos eleitores para uma maioria absoluta que admitiu vir a temperar com uma coligação alargada.

O apelo rematava a estratégia política para os próximos meses, ontem apresentada por Seguro, depois de ver os congressistas aprovar por larga maioria a sua Comissão Nacional e um dia antes a sua moção de estratégia global.

Os socialistas não mais se sentaram ou deixaram de gritar "PS!" assim que ouviram o líder reeleito pedir a maioria absoluta para o partido. "Vamos pedir com clareza aos portugueses uma maioria absoluta para governar, uma maioria absoluta não para nós, mas para Portugal", gritava Seguro depois de invocar a grave "situação" em que o país se encontrava. "Tem de haver condições de estabilidade política legitimadas pelo povo português para cumprir o novo rumo que propomos para Portugal", insistia o socialista.

E nem mesmo quando defendeu uma "nova cultura governativa", que de forma velada criticava a decisão de José Sócrates avançar com um governo minoritário, o entusiasmo esmoreceu.

Seguro sustentou que o "estado de emergência" do país obrigava a um governo abrangente: "Mesmo com uma maioria absoluta, não descartarei coligações governamentais e não desistirei de acordos de incidência parlamentar e tudo farei para procurar o contributo das organizações mais representativas em Portugal, dos novos movimentos sociais e dos parceiros sociais."

Desta vez, já não falou em democratas-cristãos ou social-democratas, preferindo manter o espectro mais alargado e centrado na sociedade, apresentando o PS como o "pólo agregador das energias dos portugueses" ou o "elo de coesão e mobilização da vontade de mudança". Porventura, uma medida cautelar, tendo em conta o conjunto de intervenções que se digladiaram durante o Congresso sobre se um acordo governamental deveria ser feito com a esquerda ou com a direita.

Novos "Estados Gerais"

E para atingir esse objectivo de abrangência, anunciou a recuperação de um instrumento de António Guterres para alargar a área de influência social do PS. O actual líder prometeu uma "Convenção Novo Rumo aberta a todos" para preparar o programa eleitoral que os socialistas vão apresentar nas próximas eleições legislativas, levantando pela primeira vez os congressistas.

A iniciativa vem na linha dos "Estados Gerais" de Guterres, com que Seguro contrapôs aos apelos de consenso feitos ao PS. "O consenso só vale a pena se for em torno de uma verdadeira solução", avisou o secretário-geral, antes de fechar a porta a entendimentos com o actual Governo. "Aqui recusamos casamentos de conveniência, aqui recusamos falar de falsos entendimentos ou falsos consensos só para acenar para a galeria", disse, perante o entusiasmo dos delegados ao Congresso.

Código de ética

Mas a estratégia implicou ainda a apresentação de uma espécie de código de ética de um hipotético Governo Seguro. Lembrando não vir a ser esse um caminho "fácil", o secretário-geral avisou que a "primeira condição" para o sucesso era ter "os pés bem assentes na terra".

Para que depois não o viessem a acusar de esconder os seus propósitos, assumiu que, com ele, "os sacrifícios e a contenção orçamental não desaparecerão do vocabulário socialista". "Podemos perder votos, mas não vendemos ilusões", atirou para as câmaras das estações televisivas.

E para dentro do partido, mais especificamente para os promotores da carta aberta que defendiam primárias e outras medidas para enfrentar o problema de confiança dos portugueses, avisou que "o melhor contributo para aumentar a confiança" nos políticos era "honrar as promessas feitas". "O problema está mais na atitude dos políticos do que nas regras do sistema político", rematou.

Seguro ladrilhou o caminho para a apoteose no Congresso com uma longa sucessão de "propostas concretas" (ver caixa), algumas delas novas, mas também recuperando as bandeiras empunhadas nos últimos meses no Parlamento. Em parte para mostrar que estava preparado para governar o país, mas também em parte para definir o Congresso como o momento "da união", "do pluralismo de ideias" e das "propostas concretas".

Este último argumento foi já uma hipérbole, uma vez que foram escassas as situações em que em Santa Maria da Feira se debateram realmente propostas ou medidas entre os delegados.

E para o fim, quando os delegados empunhavam o mar de centenas de bandeiras portuguesas - no meio do qual apenas se vislumbravam duas do PS - ficou mais uma bofetada de luva branca a Cavaco Silva.

À inevitabilidade de Portugal ter de cumprir o acordado com os credores, independentemente da realização de novas eleições, tal como Cavaco defendera no discurso do 25 de Abril, Seguro respondeu com a imagem histórica de que os portugueses se haviam sempre transcendido ao insurgirem-se contra o incontornável.

"Vencemos sempre que houve novos horizontes, um rumo claro e uma liderança inspiradora. Vencemos no passado quando fundámos este país. Vencemos no passado quando lutámos pela nossa independência, vencemos no passado quando demos novos mundos ao mundo, vencemos no passado quando reconquistámos a nossa liberdade."