O país onde a maledicência é melhor que o silêncio

Neste país, o ímpeto para a crítica é francamente mais válido do que o elogio; para além disso, a maioria de quem comenta fá-lo com intuito negativo, raramente construtivo

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Ole C Eid/Flickr

Na internet toda a gente tem uma voz. Sabemos que por trás de cada voz existe uma cabeça pensante, com defeitos e virtudes, com quem certamente partilhamos algumas vicissitudes da vida: um país em crise, os preços da gasolina, orgulhos, fracassos, aspirações e ressentimentos.

Denominadores comuns em doses razoáveis para termos as nossas quezílias mas estarmos, para o bem e para o mal, em sintonia enquanto povo. Ou assim achava eu.

Também não é novidade que em Portugal existe um enorme prazer em criticar. Mas o que me assusta, ao navegar em fóruns, notícias, posts de Facebook ou artigos de opinião como este, é o crescendo de ódio, escárnio e maledicência com que se reage aos outros.

Basta fazermos uma análise estatística simples: num conteúdo passível de debate — um ponto de vista, a uma notícia de futebol, um "sketch" humorístico — contem-se os comentários. Do total, separem-se os positivos dos negativos. Depois, os construtivos dos desconstrutivos. Nos desconstrutivos, contem-se os que são pura violência gratuita, só porque sim.

Depois, repliquem esta análise a vários artigos e concluam o mesmo que eu: neste país, o ímpeto para a crítica é francamente mais válido do que o elogio; para além disso, a maioria de quem comenta fá-lo com intuito negativo, raramente construtivo. Mas só é assim porque a outra metade não comenta. No gostar, é-se passivo. O espaço para o apreço é do tamanho do botão "like".

Ora, todo o conteúdo é passível de debate — certo — e toda a opinião tem o seu contra — certo — e valha-nos a democracia e a possibilidade de discordar — certo. Mas uma coisa é a retórica informada e com fundamento, outra coisa é oferecer becos sem saída, uma oposição vazia sem planos B, como aquela que tem assento na Assembleia e que, pasme-se, tanto criticamos.

No outro dia li um comentário que versava assim: "dá-me asco viver num país onde o bota-abaixismo, a inveja, a crítica fácil, e por aí fora são o desporto nacional número 1." Depois de escândalos como o da Pepa, não posso deixar de concordar que existe esta presença online mesquinha, discreta mas expectante, à espreita minuciosa daquele errinho ortográfico, aquela falha de "raccord" na referência biográfica, aquele defeito físico digno de comiseração.

O álibi perfeito para atacar com malícia mas alegar “frontalidade”, “coragem” ou “não ter papas na língua”. A ausência de papas dura até surgir um comentário em defesa, a formação de equipas pró e contra, e depois a troca de insultos, os juízos de valor sobre os juízos de valor, e em pleno apedrejamento virtual já ninguém sabe dizer o que que originou o celeuma.

Se transpuséssemos estes confrontos online para verdadeiros “tête-à-têtes” em carne e osso, o que teríamos? Um motim em cada esplanada? Navalhadas em cada esquina? A avaliar pelos fóruns de desporto, uma guerra civil. Eu própria vejo-me na ironia de estar a criticar os que criticam e sem ser vidente consigo adivinhar o teor dos comentários que se avizinham.

Será o online verdadeiramente revelador do “lado negro da força” ou é apenas o pseudónimo para exorcizar hormonas e frustrações? É que se cada voz cultivar o seu demagogo em potência, essa vai ser a nova normalidade. E um dia começamos mesmo a acreditar que tudo o que produzimos é mau.