Ofensa

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Tenho muita pena de ter ofendido o dr. Vítor Bento, personagem que de resto estimo e com quem concordo a maior parte das vezes. Nunca pensei que uma referência à sua "vasta ignorância" histórica o perturbasse, como não me perturbaria se ele por acaso me acusasse de uma "vasta ignorância" financeira. Cada um sabe o que sabe e a mais não é obrigado. Pela sua carta [ver pág. 44], o dr. Vítor Bento não gostou sobretudo que esta coluna atribuísse o subdesenvolvimento dos chamados "países do Sul" à falta de carvão e de ferro e à sua distância das grandes rotas comerciais da Europa. E paternalmente até me aconselhou alguma bibliografia básica, imagino que para exibir a sua enciclopédica cabeça e me orientar no mundo; coisa que agradeço, penhoradíssimo. Mas não me parece que esta conversa leve a parte alguma.

O facto persiste que nos "países do Sul" não havia (e não há) reservas de carvão e ferro que permitissem uma industrialização a sério e que, mesmo com os transportes modernos, as grandes rotas comerciais da Europa não mudaram. Basta olhar para um mapa do fim do século ou do princípio do século XX para perceber este ponto relativamente simples. Apesar disso, Vítor Bento considera esta visão "desacreditada" e prefere valorizar a "cultura": nomeadamente "a intolerância religiosa, a instabilidade política e [uma] tardia alfabetização". Três causas que à superfície parecem pertinentes. Só que, como ele decerto não ignora, nenhum país do Sul ou do Norte promoveu (quando promoveu) a alfabetização por razões que não fossem nacionais, religiosas, sectárias e mesmo militares. A economia não meteu para ali prego, nem estopa.

Por dois motivos de peso. Primeiro, por horror à revolução (em 1789, a taxa de analfabetismo era mais baixa em Paris do que hoje em Nova Iorque). Segundo, porque nem na indústria primitiva (que usava por sistema o trabalho infantil), nem em geral na agricultura, o "ler, escrever e contar" da tradição servia para nada. O esforço de Estados, como por exemplo o português, para "instruir" a massa da população tropeçava sempre num irremovível obstáculo: os pais tiravam os filhos da escola para os porem a ganhar dinheiro para a família o mais depressa possível. O "abandono escolar" não é um fenómeno moderno, como não é um fenómeno moderno a figura do bacharel (licenciado) sem emprego. Quanto à instabilidade política (nos sítios onde, de facto, existia) não chegava ou raramente chegava à plebe que vivia no campo: em França, em Itália, em Espanha ou em Portugal. E quanto à "intolerância religiosa" seria difícil comparar o que se passou a norte e a sul a partir de meados do século XVIII, como Vítor Bento decerto não desconhece. De qualquer maneira, peço desculpa pela horrível ofensa que lhe fiz.