No dia dos cravos, pontaria à ferradura

Cavaco Silva não deixou dúvidas quanto ao seu apoio ao Governo, optando por afrontar a esquerda

No dia dos cravos, Cavaco Silva fez pontaria à ferradura. E desferiu-lhe tal golpe que fez rebentar nas esquerdas uma indignação maior do que a que ressoou nas ruas, nas manifestações comemorativas do 25 de Abril. O que fez Cavaco? Falou das "consequências gravosas" da execução do programa assinado com a troika ("que se fazem sentir duramente no dia-a-dia dos portugueses, em especial daqueles que não têm emprego") mas contrapôs-lhes "objectivos alcançados", tais como "o equilíbrio das contas externas", renovando assim a confiança no Governo e na sua política. Onde a oposição queria um cartão vermelho, pôs Cavaco um sinal verde. Onde a oposição ambicionava uma porta aberta a novas eleições, deixou claro o Presidente que o Governo deve seguir o seu rumo, para que não se perca o que até aqui presumivelmente se conquistou. Claro que tais "conquistas" têm um preço, por ele reconhecido no "problema mais dramático que Portugal enfrenta: o agravamento do desemprego e o aumento do risco de pobreza, em resultado de uma recessão económica cuja dimensão ultrapassa, em muito, as previsões iniciais". Culpa? Talvez das más previsões: "Alguns dos pressupostos do programa não se revelaram ajustados à evolução da realidade, o que suscita a interrogação sobre se a troika não os deveria ter tido em conta mais cedo." Ou, noutra passagem do discurso: "As metas iniciais do défice público revelaram-se uma impossibilidade e acabaram por ser revistas. Agora, prevê-se que apenas em 2015 Portugal deixará de se encontrar numa situação de défice excessivo."

A isto, entendeu o Presidente somar uma curiosa argumentação. Disse que, "do mesmo modo que não se pode negar o facto de os portugueses estarem cansados de austeridade, não se deve explorar politicamente a ansiedade e a inquietação dos nossos concidadãos". Porque "se prevalecer uma lógica de crispação política em torno de questões que pouco dizem aos portugueses, de nada valerá ganhar ou perder eleições, de nada valerá integrar o Governo ou estar na oposição". Mas como quererá Cavaco Silva que tal crispação desapareça sem um esforço real, não fictício, de aproximar objectivos e estratégias no plano político? Dizer que "de nada valerá ganhar ou perder eleições" é, nesta perspectiva, uma depreciação (mesmo que involuntária) dos mecanismos da democracia representativa. Porque o voto, mesmo que se julgue totalmente inadequada a convocação de eleições agora, corresponde precisamente à escolha de uma política, não à submissão a caminhos já traçados por terceiros. A ser assim, as eleições passariam a ser dispensáveis, com os funestos resultados que se imaginam.

Mas Cavaco Silva não deve ter querido dizer isto, até porque, no final do seu discurso, afirmou que neste 2013, "Ano Europeu dos Cidadãos", "é tempo de as instituições e os líderes europeus ouvirem a voz da cidadania". Ora se isto é válido para a Europa, há-de sê-lo para Portugal. Onde, como se sabe, os cidadãos têm cada vez menos coisas agradáveis para dizer.