Está o PS condenado a ser Governo? E nós a ser governados pelo PS?

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Portugal, para o bem e para o mal, é o Estado, e o Estado que temos confunde-se com o PS que temos. É tão socialista como ele

Os gaulistas foram, durante muito tempo, uma espécie de "donos" da V República francesa. A democracia cristã italiana comportou-se, durante décadas, como se a Itália lhe pertencesse. Esses partidos, que se confundiam com o regime, criavam a ideia da impossível alternância. Mesmo quando momentaneamente eram afastados do poder, havia a percepção de que isso era apenas um acidente de percurso.

Em Portugal é o PS que tem esse estatuto. Em parte por mérito próprio - pelo que fez em 1974/75 -, muito por demérito alheio, mas sobretudo porque o país parece ser o PS. Até hoje, até com António José Seguro, até neste tempo em que o PS é cada vez mais - como se viu em todo o processo que levou ao congresso deste fim-de-semana - um corpus aparelhístico, calculista e ressentido, Portugal não deixou de se sentir a si mesmo como o PS o imagina e moldou.

Houve um tempo em que se disse que o PSD era o "partido mais português de Portugal", mas mesmo que essa definição fosse em si mesma uma tristeza, era sobretudo fruto de uma ilusão. Correspondeu a esse período, curto, de optimismo pequeno-burguês e novo-rico que foi o do cavaquismo, quando se acreditou que o "empreendedorismo" chico-esperto nos tiraria do atraso secular, nos devolveria à Europa e traria amanhãs que cantam. Foi logro que ainda durou menos que o cavaquismo e morreu às mãos doces da "paixão pela educação".

O PS nunca tentou ser o partido do portuguezinho miúdo e desenrascado, sempre assumiu sem complexos a sua vocação de partido dos funcionários médios e medianos, da classe média "trabalhadora por contra de outrem", sendo esse "outrem", de preferência, o Estado. Boa parte do seu sucesso reside precisamente neste ponto. O PS é o partido do Estado e dos seus funcionários, é o partido das funções públicas e de todos os que se encostam ou dependem do Estado, e isto só por si é garantia de sucesso, ou não fosse o "partido Estado", tal como tem vindo a definir Medina Carreira, o maior partido português. É uma base eleitoral imensa.

A hegemonia socialista não deriva apenas da sua liderança na resistência à ofensiva comunista no período revolucionário - começou também na forma como redigiu a Constituição, aliando-se umas vezes à direita, outras vezes à esquerda, e tendo, nos últimos 36 anos, posto e disposto em todas as revisões constitucionais. O PS situou-se assim numa espécie de centro de gravidade do país político e institucional, razão por que nunca foi um partido reformista, apenas um partido situacionista, quando muito incremental.

Estar no centro de gravidade do país permite-lhe beneficiar de um estatuto único: o de, em última análise, ser ele, ou o que ele representa, que diz o que é ou não é aceitável na democracia portuguesa. Ao ponto de não o incomodar, pelo contrário, não conseguir formar alianças à esquerda, pois sabe que essa esquerda lhe dará força quando está na oposição, ao mesmo tempo que a direita lhe fará mimos quando estiver no poder.

O seu domínio é tão forte que é difícil imaginar um debate que não se realize nos seus termos e com a sua linguagem. Com um Governo PS a austeridade chama-se "rigor orçamental", os défices têm a virtude de serem "investimento", recentemente até se conseguiu que as mentiras passassem a ser designadas por inverdades. As dúvidas, mesmo as mais legítimas, sobre a honestidade dos seus dirigentes são "ataques de carácter", o jornalismo de investigação é um "jogo de lama" e os cortes no Estado social nunca passam de um esforço empenhado de "racionalização". Até o autoritarismo puro e duro passa a chamar-se "autoridade democrática".

Orwell explicou-nos, como nenhum outro, que dominar a linguagem é dominar a descrição da realidade, e que fazê-lo é controlar as mentes e os termos do debate político. As modernas "narrativas", que tanto gostam de invocar alguns dos mestres dos jogos de sombra do PS, não são mais do que a versão contemporânea e palatável do "newspeak" do romance 1984. Com uma novidade bem portuguesa: o PS nem precisa de se esforçar muito, pois o "newspeak" nacional, o "newspeak" dos debates na televisão, o "newspeak" do eterno "Prós e Prós" das nossas elites, é o "newspeak" socialista. E as excepções, mesmo quando episodicamente afloram à tona de água, apenas confirmam a regra. Os últimos dois anos são disso prova cabal - basta ver a forma como, este fim-de-semana, o país socialista entronizará um António José Seguro que, malgrado uma inabilidade homérica, conseguiu fazer dos seus temas os temas dessa coisa mole a que chamam "consenso".

Já o disse muitas vezes e volto a repeti-lo: por muito que se elogie o pragmatismo e a arte do equilíbrio, a política não faz sentido sem ideias. E a actual maioria começou a perder no momento em que não percebeu que não lhe chegava utilizar o estado de necessidade para reformar o país, tinha de apresentar outra ideia para o país. O mal começou a ser feito na campanha eleitoral, na qual o PSD, que se esperava estivesse ao ataque, esteve quase sempre à defesa por medo de se achar que era "liberal" - sendo que em Portugal nunca se é apenas liberal, é-se antes "neoliberal" ou "hiperliberal" - e que acabaria com o mitificado "Estado social". O mal continuou a ser feito quando, ingenuamente, Passos aceitou as pressões de Barroso e de Cavaco para não fazer um levantamento exaustivo do estado das contas públicas. Mas o principal mal foi feito por não se assumir que não bastava gerir bem e "cortar gorduras", antes que era necessário repensar as funções do Estado e a sua relação com os cidadãos. E o problema não foi apenas o da falta de coragem e de clarividência para assumir um discurso reformista - o problema foi que, para boa parte do Governo e da maioria, esse discurso nem fazia sentido. De uma forma ou outra, boa parte da actual maioria também adere à narrativa dominante, ao "newspeak" do nosso intocável regime.

Em condições normais, num país menos dominado pelo "pensamento único" estatista e socializante, a emergência económica teria, no mínimo, levado as elites a questionarem a bondade, até a justiça, dos actuais sistemas de protecção social, de saúde ou de educação. Foi isso que sucedeu há vinte anos nos países nórdicos e que levou a profundas alterações do seu modelo social e a uma redução do peso do Estado que permitiu à economia voltar a respirar e a crescer. Não foi isso que sucedeu em Portugal, onde o país e as elites se colocaram, sem hesitação, do lado do PS e da sua recusa de discutir o que quer que fosse mesmo perante a urgência dos quatro mil milhões.

É por tudo isso que o PS tem razões para festejar este fim-de-semana. Este país não vive sem o PS, este país não suporta a ideia de que tem de mudar, este país aceita placidamente que tudo pode continuar como está se se cortarem as PPP e se se diminuir o parque automóvel dos ministérios. No resto não se pode tocar. Ou, para ser mais exacto, só o PS pode tocar.

O grande triunfo do PS - e de Seguro - é que, ao fim de dois anos, o país continua a achar que não é necessário cortar nas funções do Estado e que basta "estimular a economia" para voltar a crescer e, assim, deixarmos de falar de "cortes". Como país pobre podíamos acreditar que era necessário mais esforço e mais sacrifício para sermos um pouco mais ricos, mas não. Preferimos acreditar que se gastarmos dinheiro emprestado nos tornamos, por milagre, mais ricos. É um sinal dos tempos. O tempo áureo das ideias socialistas foi quando se defendia que indo buscar aos ricos se enriqueciam os pobres; agora, quando os nossos "ricos" mal emergem da classe média, o grande projecto socialista é contrair e manter dívidas pois, como um dia disse Mário Soares, o dinheiro "aparece sempre". Já não nos apareceu por três vezes, mas ainda não aprendemos. Há razões para festejar em Santa Maria da Feira.

Jornalista. Escreve à sexta-feira [email protected]