Cartas à directora

Vítor Bento responde a Vasco Pulido Valente

Vasco Pulido Valente (VPV) dedicou-me, e ao meu recente livro Euro Forte, Euro Fraco, a sua crónica de domingo passado, no seu habitual estilo iconoclasta. Tivesse ficado apenas pelas suas opiniões, por muito demolidoras que fossem, e tal não teria importância de maior. Mas ao fazer-me a acusação de "vasta ignorância do passado", ofende-me e tal não pode passar sem o devido reparo. Tal acusação decorre aparentemente de VPV considerar que eu não saberia o que ele tem como certeza provada sobre o menor desenvolvimento dos "países do sul", da Europa ou seja, que o mesmo se deveria à falta de matérias-primas (carvão e ferro) e à sua posição geográfica, periférica face ao centro da Europa e às grandes vias comerciais.

Não tendo eu pretensões de omnisciência, também não tenho por hábito escrever sobre o que não sei ou fazer afirmações infundadas. Ora, sobre a temática onde VPV se tem por versado, existe hoje uma extensa literatura que desacredita as teses que pretendem explicar o diferenciado desenvolvimento dos países baseando-se nos recursos naturais ou na geografia e que sustenta a maior plausibilidade de teses baseadas na cultura (em sentido vasto) dominante e na qualidade das instituições postas em prática para organizar a vida social.

Bastará a VPV, por exemplo, ler o capítulo 2 - Theories that don"t work - do recente (2012) livro de D. Acemoglu e J. Robinson, Why Nations Fail, para ver a desmontagem das suas teses. E sobre o caso específico dos países do sul da Europa, David Landes (The Wealth and Poverty of Nations, 1998), por exemplo, atribui a sua atrasada industrialização principalmente à intolerância religiosa, à instabilidade política e à tardia alfabetização. Aliás, para explicar os diferentes graus de alfabetização alcançados antes do século XX, e que apresentam uma enorme correlação com os níveis actuais de PIB per capita, é hoje também reconhecida a importância da religião então prevalecente em cada país. Isto, entre muitos outros exemplos que poderia acrescentar, mas que o espaço não permite, de autores com académico reconhecimento internacional.

De qualquer forma, não é sobre isso que versa o meu livro. O livro apenas invoca diferentes preferências sociais, e a sua fundamentação cultural, para justificar comportamentos inconsistentes com o funcionamento de um único regime monetário.

Vítor Bento, Lisboa

[ver resposta de Vasco Pulido Valente na última página]