Provedor da RTP contra comentário de José Sócrates

Prestes a deixar a RTP, José Carlos Abrantes foi muito crítico com a decisão da direcção de Informação.

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José Sócrates comenta a actualidade política ao domingo PAULO PIMENTA

O provedor do telespectador da RTP discorda da contratação de José Sócrates como comentador residente da estação e diz que não percebe os critérios de pluralismo da direcção de Informação.

José Carlos Abrantes, que termina o seu primeiro mandato no final do mês - por não ser renovado, como a lei permite -, dedicou o seu último programa ao comentário que o ex-primeiro-ministro tem na RTP1, ao domingo à noite.

Apesar de o director de Informação Paulo Ferreira desvalorizar as críticas e garantir que usou apenas critérios editoriais na escolha de Sócrates para principal figura do comentário da estação, o provedor considera que se tratou de um "critério político" e questiona por que não se deu lugar às outras forças políticas, "fugindo ao bloco central". "O comentário para ser credível deve ser feito por pessoas independentes e não por quem tem interesses directos ou indirectos na matéria que comenta", afirma o provedor, considerando, sobre Sócrates, que "é reveladora a força da imagem televisiva que transformou, em tempo acelerado, um vencido na luta política num vencedor nos ecrãs da RTP". A estação pública deveria "criar espaços verdadeiramente democráticos pelos assuntos e pelos protagonistas, funcionando o serviço público como padrão de exigência e não como imitação apressada das outras televisões."

No programa ouve-se a opinião de cidadãos contra e a favor da matéria discutida. Entre outros, José Carlos Abrantes ouviu o ex-ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho, muito crítico sobre a escolha de Sócrates e para quem os protestos se "compreendem bem". Carrilho diz ser "surpreendente e um caso inédito na Europa um antigo primeiro-ministro transformar-se em comentador residente de uma estação". Para este militante socialista, é "totalmente injustificável que isso aconteça no serviço público de TV, que tem duas obrigações fundamentais: a isenção e o pluralismo". Carrilho classifica a invasão dos ecrãs de TV por políticos como um "desfile de máscaras" e integra-a no domínio do "info-entretenimento". Pluralismo, diz, é "ouvir os vários pontos de vista que o país tem" e não apenas os dois principais partidos.

Sebastião Lima Rego, membro do Conselho de Opinião, defende que o comentário político "tem que ser feito por especialistas, jornalistas, politólogos e académicos, que sejam independentes do objecto que esteja a ser comentado". "Não faz o mínimo sentido pedir a políticos que comentem sobre qualquer coisa em que eles têm interesse."

Já o politólogo André Freire alerta para o problema da "transparência e diversidade". Mesmo que um político já não esteja no activo, "levanta-se a dúvida sobre qual é o seu interesse, em sentido lato, nas tomadas de posição". O académico, que considera positivo que além do socialista a RTP tenha também contratado o social-democrata Nuno Morais Sarmento, realça que ninguém critica o facto de a TVI manter apenas o ex-líder do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa, "sem contraponto".

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