Napolitano escolhe Enrico Letta para formar o Governo italiano

O primeiro-ministro indigitado é jovem, pelas normas italianas, mas tem mais de 20 anos de experiência política. E três prioridades: o emprego, a credibilidade da política e as reformas institucionais.

Enrico Letta
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Enrico Letta ALBERTO PIZZOLI/afp

O Presidente Giorgio Napolitano encarregou nesta quarta-feira Enrico Letta, “número dois” do Partido Democrático (PD), de formar o próximo Governo italiano. “A única perspectiva possível é uma ampla coligação”, esclareceu o Presidente. Leia-se: deverá incluir o Povo da Liberdade (PdL), de Silvio Berlusconi. Letta prometeu “um Governo de serviço” e disse que “não nascerá a qualquer preço, nascerá se forem reunidas as condições.”

Apontou três prioridades: combater o desemprego, sobretudo o dos jovens, restaurar a credibilidade da política e fazer as reformas institucionais. Quer também mudar as políticas europeias: “Na Europa, as políticas de austeridade deixaram de ser suficientes.” Concluiu: “Os italianos já não suportam os jogos e joguinhos da política, querem respostas. Apresento-me perante eles com grande humildade, com o sentido dos meus limites e com uma responsabilidade que me honra.”

A escolha de Letta é natural, na medida em ele passou a dirigir interinamente o partido mais votado nas eleições de Fevereiro. Era um dos três nomes citados nos meios políticos após a reeleição de Napolitano — ao lado do antigo primeiro-ministro Giuliano Amato e do presidente de Florença, Matteo Renzi. Os matutinos desta quarta-feira apostavam em Amato. Nos bastidores, diz-se que Amato desagradava ao PD e Renzi a Berlusconi. A decisão do Presidente marca uma mudança geracional na política italiana.

Jovem e veterano

Com 46 anos, doutorado em Direito Comunitário, Enrico Letta é um dos mais jovens chefes de Governo da República. Tem, no entanto, uma já longa carreira. Está na política desde 1990, ano em que conheceu o seu mentor, Nino Andreatta, ministro democrata-cristão que o levou para o seu gabinete no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Trabalhou depois com o antigo Presidente Ciampi na Comissão para o Euro.

Vice-presidente do Partido Popular, que sucedeu à democracia cristã, integrou o primeiro Governo de centro-esquerda de Massimo D’Alema, em 1998, como ministro das Políticas Comunitárias. Será depois ministro da Indústria e do Comércio. Em 2006, é escolhido por Romano Prodi para o vital lugar de subsecretário de Estado da Presidência do Conselho, sucedendo a seu tio, Gianni Letta, o “braço direito” de Berlusconi. Devolverá o lugar ao tio dois anos depois, na sequência da derrota do centro-esquerda e do regresso do Cavaliere. Foi a seguir deputado europeu pela coligação Oliveira (centro-esquerda).

Em 2007, é um dos fundadores do Partido Democrático, que reúne três famílias políticas: pós-comunistas, democratas cristãos e centristas liberais, sendo eleito para o secretariado. Em 2009, foi eleito vice-secretário nacional, o “número dois” do partido, a seguir a Pierluigi Bersani.

Letta é descrito como um político discreto e pragmático, “pós-ideológico”, que sabe negociar e unir. É um homem de redes e think tanks, com boas relações com os rivais no PD ou com Berlusconi, com o Vaticano e com o mundo empresarial, com as instâncias europeias e com os Estados Unidos.

Na “piscina dos tubarões”

O primeiro-ministro indigitado conhece os bastidores da política, sabe discutir na televisão e “a piscina dos tubarões” de Roma não lhe mete medo, sintetiza o Handelsblatt, o diário económico alemão.

Os obstáculos são imensos. Letta apoiou fielmente a linha de Bersani que recusava liminarmente a possibilidade de um acordo governamental que incluísse Berlusconi. Cabe-lhe agora convencer o PD da inevitabilidade desse acordo. Roberto Speranza, líder parlamentar do PD, já avisou os deputados: “O voto de confiança não é um voto de consciência, mas um voto que determina a pertença ao partido.”

A relação com Berlusconi será ainda mais crítica. Após a dramática semana que culminou na eleição de Napolitano e no seu duro discurso de crítica aos políticos, os partidos têm interesse em parecer virtuosos. O verniz poderá estalar nos debates sobre as reformas institucionais. O PD aceita “o roteiro” desenhado pelos “sábios”, nomeados pelo Presidente. Mas o PdL tem um “roteiro” diferente e Berlusconi insiste numa reivindicação que o PD recusa: a imediata abolição do IMI imposto pelo Governo Monti.

Mas, por trás do primeiro-ministro, estará sempre a figura tutelar de Napolitano. “O Quirinal estará vigilante”, diz um analista.