Uma utopia ou uma ideia brilhante? Óbidos vai ser uma Vila Literária

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A Livraria Santiago, com espaço para 40 mil livros, abrirá ao público a 19 de Maio na antiga Igreja de Óbidos, que foi recuperadaJosé Pinho na Igreja de Santiago, agora livraria, e Mafalda Milhões na livraria Histórias com BichoLegenda Em delit am, conullum zzril illa aut alis nit adigna corting Fotos: Rui Gaudêncio

Hoje cumpre-se a primeira etapa da afirmação de Óbidos como Vila Literária, com a abertura de uma livraria numa antiga igreja. Uma rede de livrarias, festivais e o catálogo total dos livros disponíveis em Portugal fazem parte do projecto

Abrir uma livraria por estes dias, quando a maior parte das notícias se foca no seu encerramento ou na crise do sector, já parece arriscado.

Agora imagine-se abrir várias numa pequena vila com pouco mais de 3000 habitantes, a 45 minutos de carro de Lisboa. "A primeira reacção quando falo do projecto é sempre: "O quê?! Vais fazer o quê?!"", diz-nos José Pinho, administrador da livraria Ler Devagar em Lisboa, o impulsionador da ideia de transformar Óbidos em Vila Literária.

Num primeiro instante, quase todos acham a ideia exótica, um pouco louca mesmo, reagindo com estupefacção. Num segundo momento, depois de explicitado o propósito, acabam por se render, "embora mantenham a convicção que será um fiasco económico", diz Pinho.

E qual é a ideia? Criar uma rede de livrarias na vila, produzir vários festivais ligados ao livro durante o ano, contaminar vários espaços com livros, dinamizar as bibliotecas municipais e escolares, ter espaços de residência com escritores e conseguir até 2016 o catálogo total dos livros disponíveis em Portugal. Ou seja, criar uma envolvência tal que permita que quem vá a Óbidos respire livros por todos os recantos.

Hoje cumpre-se a primeira etapa do projecto e é feita a sua comunicação, pelas 18h30, quando for inaugurada a grande livraria Santiago - embora só a 19 Maio abra ao público - situada na antiga igreja do mesmo nome, através do lançamento do livro Óbidos: de vila-museu a vila cultural, de Clara Moura Soares e Maria João Neto.

A parceira na iniciativa é a Câmara Municipal de Óbidos, e a Óbidos Criativa, entidade empresarial municipal. Para o presidente da câmara, Telmo Faria, a iniciativa faz parte da estratégia de apostar na criatividade como factor de crescimento económico. "Ter aqui a Fnac ou a Bertrand não funcionaria, mas esse não é o único conceito de venda de livros. Temos uma economia de turismo, e um contexto histórico e patrimonial, e é a partir daí que a diferença pode ser criada", afirma.

Há três anos, a câmara imaginou uma livraria, numa igreja, que poderia acolher 40 mil livros. Depois surgiu a Ler Devagar com a proposta de criar uma rede de livrarias. "Era um aprofundamento da ideia inicial. A partir daí, começámos a trabalhar na adaptação de espaços municipais em livrarias", conta Faria, que revela que nos próximos dias será formalizado um acordo com a Associação Vila Literária (membros da Ler Devagar), contemplando a utilização de espaços no centro da vila.

Para José Pinho, a aventura começou no ar. Foi em Outubro de 2011, quando regressava de Zagred, que falou com a ilustradora Mafalda Milhões - agora uma das suas aliadas - responsável pela livraria Histórias Com Bicho, situada no meio do campo, perto de Óbidos.

Durante a conversa, Milhões disse a Pinho que iria abrir em Óbidos um concurso público para uma livraria no espaço de uma antiga igreja e que ele deveria ir ver o local. "Disse-lhe que não me interessava, porque era uma vila com poucos habitantes e sabia que a única livraria que existia por ali, a 107, da Isabel Castanheira, tinha acabado de fechar."

Mas na companhia dos administradores da Ler Devagar acabou por se deslocar à localidade. "Mostraram-nos galerias, museus e edifícios afins que tinham sido recuperados ou em vias de o ser e também nos falaram da mudança de paradigma, no sentido de privilegiar as artes e a criatividade", recorda. E no regresso a Lisboa começou a desenhar-se uma ideia ambiciosa.

"Já tinha estado numa "cidade do livro" no País de Gales, em Hay-On-Wye, e também tinha estado [na FLIP] em Paraty, no Brasil, e comecei a pensar que fazer aqui qualquer coisa de semelhante poderia ser interessante." Ele próprio já havia participado em encontros tendentes a implantar projectos com as mesmas características em Portugal, "mas nunca tinha encontrado nenhum sítio com as infra-estruturas consolidadas", diz.

Convencer os editores

A Ler Devagar acabou por concorrer ao concurso público da livraria na igreja e em simultâneo propôs a criação de uma vila literária. "O projecto era abrir uma quantidade de livrarias que permitisse que aqui instalássemos o catálogo nacional de livros disponíveis", afirma Pinho.

A resposta da câmara foi entusiasta e o projecto foi ganhando corpo. "Uma das entidades que contactámos foram as Produções Fictícias, que vão colaborar connosco na programação dos festivais, que se iniciarão no próximo ano", revela. O plano é ter um grande festival literário anual e dois ou três temáticos de menor dimensão. Já se sabe que um deles será de literatura infantil. Um outro poderá vir a ser sobre literatura gótica.

O concurso público foi em Julho do ano passado. Desde então, tem sido necessário convencer os editores. "Quando digo que o objectivo é ter uma espécie de base de dados viva com todos os livros disponíveis, reagem com surpresa", afirma Pinho, realçando que, quando são convidados a visitar a vila, a atitude inverte-se. "Envolvem-se e chegam mesmo a dizer que se tem de fazer ainda mais do que já está previsto."

Até 2016, a Ler Devagar quer ter em Óbidos o catálogo total dos livros disponíveis em Portugal. O que é que isso significa? É uma espécie de banco vivo editorial. "Se contabilizarmos todas as áreas - e estamos a retirar livros escolares e técnicos -, estamos a falar entre 150 a 200 mil títulos, para além dos alfarrabistas, ou seja, os usados. É isso que fará com que qualquer pessoa venha aqui e compre um livro a baixo preço."

Para já, o que está previsto é a abertura da livraria generalista na Igreja de Santiago e uma série de outras, a partir de 19 de Maio, de caracter temático: a galeria Nova Ogiva vai integrar obras de arte contemporânea. No mercado biológico, vão ser instalados os alfarrabistas. Vai haver uma livraria infanto-juvenil num local por designar e outra, de poesia, no espaço Vertical. No Chocolate Lounge, estarão livros de gastronomia e vinhos. Alguns destes lugares terão apenas livros. Noutros casos, está previsto que os livros contaminem espaços existentes como o Museu e Casa de Abílio, que vai ter livros de artes performativas, ou o centro de design Maria José Salavisa, que irá acolher livros de design gráfico, enquanto o museu municipal irá abrigar uma biblioteca para consulta e livros de pintura e arte sacra.

Tudo isto, garante Telmo Faria, com custos mínimos. "Não gosto de megalomanias, por isso o projecto terá várias fases, com intervenções nos espaços a baixo custo, com os recursos humanos existentes e utilizando conceitos de reutilização. As estantes do mercado biológico, por exemplo, são feitas com velhas caixas de fruta dos agricultores locais. A ideia é mostrar que se pode fazer arquitectura de interiores para livrarias de forma original e de forma sustentada."

Uma igreja cheia de livros

Entra-se na antiga igreja construída no século XVIII, agora livraria, situada na Cerca Velha, junto à entrada do castelo, e sente-se que o espaço não foi desvirtuado. Pode-se percorrer toda a igreja em altura. A livraria tem uma disposição vertical, assentando em vários patamares e existiu o cuidado dos armários e estantes não tocarem nas paredes.

A obra beneficiou de um projecto de recuperação e restauro orçado em mais de 186 mil euros, comparticipados por fundos comunitários. A igreja deixou de ser usada para a prática do culto há muito tempo e tem sido utilizada nas duas últimas décadas como espaço multiusos. O ano passado a maioria PSD da assembleia municipal aprovou a instalação, mas o PS opôs-se, alegando que o projecto punha em causa o protocolo com o patriarcado, considerando que o "carácter economicista" do projecto violava o protocolo com a paróquia. Hoje a polémica parece quase esquecida, mas mesmo assim o assunto ainda gera algumas divisões.

"É estranho ver aquilo transformado noutra coisa qualquer que não uma igreja, apesar de tudo", confessa Gertrudes Antero, enquanto vende artigos regionais. Fala-se com as pessoas na rua e sente-se que existe cautela na abordagem ao assunto. A maior parte dúvida do êxito da operação dos livros. "A informação que têm ainda não é suficiente para saberem o que pensar", diz Milhões. Uma coisa é certa: "Temos que respeitar as pessoas que aqui vivem. Não se quer mudança, mas sim integração."

Anda-se pelas ruas estreitas da vila, fala-se com os comerciantes, e mesmo havendo desconhecimento, todos têm a sua opinião. "Livros? Aqui? Não acredito que venha a funcionar, com o custo de vida que para aí vai", diz-nos José Andrade. Por sua vez, Joaquim Saldanha, com uma pequena loja mesmo ao pé da futura livraria Santiago, também revela descrença. "Não acredito que isso vá dar, mas pelo menos ainda bem que se recuperou o espaço da igreja em vez de estar para ali esquecido."

Óbidos só será uma vila literária se sentirmos a presença dos livros. Se eles estiverem integrados nas infra-estruturas. Para isso acontecer são necessários os espaços recuperados ou em vias de o serem, reutilizar os existentes e fazer a população participar na dinâmica. Mas com calma.

"O ideal seria integrar os comerciantes no projecto", diz-nos Mafalda Milhões, dentro das muralhas. Às tantas, passamos por um dos locais que vendem licor de ginja e diz-nos: "O dono do espaço não é livreiro, mas por que não ter ali livros de vinicultura, porque ele, melhor do que ninguém, saberá apreciá-los", afirma. "A ideia não é transformar as pessoas em livreiros, mas integrar o livro na vida prática das pessoas. Chegar aqui e vermos os livros na rua, como a fruta a granel, isso é que seria."

Pode ser utopia para a maior parte das pessoas. Mas Milhões está habituada a desafios. Ela é responsável pela Histórias Com Bicho, livraria singular, no meio do campo, na estrada dos Casais Brancos, a dois quilómetros do centro. É especializada em literatura infantil, já ganhou vários prémios (da revista Ler e da Booktailors) e, entre outras coisas, desenvolveu o projecto Os Contos do Caminho em colaboração com o museu espanhol Thyssen-Bornemisza. Quando nos aproximamos do local, percebemos que a livraria e atelier funcionam numa antiga escola primária. Nas traseiras, pastam ovelhas e cabras. No interior, um mundo de magia para pequenos e graúdos. Ela chama-lhe "horta literária", um projecto que "tem como missão formar uma comunidade de leitores."

Quando ali chegou, era apenas uma livraria no campo numa antiga escola abandonada e toda a gente se interrogava o que fazia no meio do nada. "Agora, com a chegada da Vila Literária, sinto-me integrada e isto atribui ainda mais sentido ao que aqui tem sido realizado. Trata-se de pôr a literatura e a leitura no mapa, para além dos grandes centros."

Óbidos já está no mapa. É atracção turística. Nos últimos anos, para ali confluem milhares de pessoas por causa de acontecimentos como o Festival do Chocolate, a Feira Medieval, a Semana do Piano ou a Vila Natal.

Agora são os livros. Uma das vertentes do projecto serão os festivais literários, com uma duração que pode variar entre dois fins-de-semana, ou uma e duas semanas. "Queremos trazer autores, organizar conferências, fazer lançamento de livros, trazer pessoas que normalmente não vêm cá, para além do milhão e meio de visitantes anuais que a vila já tem", afirma Pinho.

E no fim de contas o que poderá ser considerado um sucesso para Óbidos Vila Literária? Para Joaquim Saldanha, a operação só será bem-sucedida se "ajudar o comércio local." Para Mafalda Milhões, interessa "pôr os livros no caminho das pessoas." Para Telmo Faria, interessa "criar mais-valias para que as pessoas permaneçam mais tempo em Óbidos." Para José Pinho, ter o envolvimento do município, dos editores e dos livreiros e, no futuro próximo, dos autores, e todos sentirem-se bem nas actividades propostas, já será um sucesso. "A parte comercial não é uma grande preocupação", afirma.

"É certo que tudo isto tem de ser sustentável senão não fazemos nada a seguir, mas não me parece que, a existir prejuízo, ele venha a ser grande, com as sinergias e os recursos que existem. Claro, é sempre um risco. Mas até a componente comercial corre o risco de ser bem-sucedida."

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