A Terra vista do espaço: até quando será Planeta Azul?

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A primeira imagem da Terra vista do espaço chegou há cerca de 45 anos, em resultado da missão Apollo 8. Foi esta viagem que trouxe a consciencialização do nosso planeta, diferente de todos os outros, pela cor azul de entre os negros e cinzentos de tudo à volta. Não foi, por isso, estranho que em 1970, o senador norte-americano Gaylord Nelson tenha proposto o 22 de Abril como Dia do Planeta Terra, para levar o Homem a uma reflexão profunda sobre o planeta que habitamos. Foi igualmente em 1970 que James Lovelock, seguido mais tarde por Lynn Margulius, lançou a teoria de Gaia, explicando que a Terra é um sistema complexo e auto-regulador, propício à vida, desde que se estabeleça uma relação sustentável e evolutiva entre os organismos vivos e o meio que os rodeia. Apesar de todas as críticas que possam ser lançadas a esta teoria, e são muitas, é bom não esquecer o significado de Gaia na mitologia grega: "Gaia é a personificação da Grande Mãe Terra, que dá e tira. É a força elementar que dá sustento e possibilita a ordem do mundo."

Hoje, o significado deste dia passa ao lado. A ordem económica está a ruir e a instabilidade política a nível global teima em continuar. Apenas algumas alterações climáticas ou catástrofes ambientais teimam em surgir alterando a paisagem e trazendo somente a preocupação da segurança das populações. As causas e consequências de todos estes fenómenos para o ecossistema e sua sustentabilidade são ignorados e pouco explorados pela opinião pública. Esquecemos que sem equilíbrio ecológico nada nos vale procurar uma economia sustentável.

A última brecha na política ambiental europeia verificou-se ainda esta semana quando o Parlamento Europeu não aprovou a proposta de adiar parte dos leilões de licença de emissões de CO2 (ver R. Garcia, PÚBLICO, 19 de Abril). Esta era apenas uma medida emblemática que pretendia limitar o mercado europeu do carbono. O problema está em que apenas se fale no mercado de carbono e nas alterações climáticas. Ignoram-se os trabalhos de Röckstrom de 2009, discutidos o ano passado na conferência do Rio, que mostram a alteração dramática do ciclo do azoto com consequências mais gravosas que as alterações climáticas. Os benefícios do azoto podem ser vistos pela capacidade que actualmente o homem possui de produzir azoto na forma de fertilizantes e assim sustentar a população mundial. Mas os prejuízos são inúmeros, originando desequilíbrios numa vegetação que cresce em solos pobres em azoto, diminuição de produtividade e alteração da biodiversidade e, consequentemente, das funções e serviços desempenhados pelo ecossistema.

Em Portugal, a política do dia seguinte continua a imperar, sem o mínimo respeito pela terra e pelo que ela nos dá. As políticas ambientais têm vindo a ser negligenciadas, os programas de gestão florestal não têm sido pensados de forma global, não há protecção dos solos e até a precária rede de monitorização do ar tem vindo a ser reduzida. Tem-se assistido a incentivos e investimentos à agricultura. Felizmente, estabeleceram-se já algumas ligações entre empresas de fertilizantes, tecido empresarial e sociedade científica. Mas todas estas redes terão de ser incentivadas, promovidas, divulgadas, mas também reguladas. O país rural tem de crescer de forma inovadora, sustentável e rentável. A quantidade de azoto não deve apenas ser monitorizada nos alimentos que vão para o mercado. Interessa regular o que se deita à terra. Em particular, sensibilizar estes novos agricultores que 50% dos fertilizantes aplicados vão para os aquíferos ou ribeiras, arrastados pelas enxurradas e afectando a qualidade da água e a saúde pública. Há pois que aumentar a eficiência do uso do azoto pelas plantas e isso só se consegue com investigação agrária. Quando o clima está seco, o azoto volatiliza-se para a atmosfera e a deposição, sob a forma de amónia e óxidos de azoto, tem vindo a alterar a estrutura e o funcionamento dos ecossistemas, o padrão da biodiversidade e a afectar a saúde pública das zonas urbanas. As perdas económicas e ecológicas são demasiado elevadas e completamente ignoradas.

As pequenas hortas citadinas que desde sempre o arquitecto Ribeiro Telles tem defendido têm vindo a espalhar-se em diferentes áreas de Lisboa, provavelmente com sucesso, já que a cidade está implantada numa das melhores zonas produtivas do país. Também aqui estes conhecimentos deviam ser difundidos e regulados para não aumentar a poluição atmosférica. A preocupação não deve estar apenas na regulação do tráfico automóvel e novamente no mercado do carbono. Para além dos talhões regulados, parecem existir outros que abundam nos taludes das circulares, onde se cava, planta e produz alimento. E que hortas frescas e verdejantes se podem ver ao redor das estradas que circundam Lisboa. Seria interessante avaliar a quem serve essa agricultura de subsistência carregada de poluentes, quiçá com base numa fertilização orgânica.

É tempo de voltar ao espaço e avaliar o que tem sido alterado nestes últimos 45 anos. Até quando poderemos manter o Planeta Azul? O importante é perceber que é tempo de aplicar medidas simples, mas eficazes para terem impacto regional e consequente expressão a nível global.

Professora catedrática, Universidade de Lisboa

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