Baldessari ainda não desistiu de transformar um cadáver em arte

Ideia dos anos 1970 esteve perto de concretizar-se em 2011, mas em vez de um corpo inspirado numa pintura de Mantegna foi exposta a odisseia burocrática por trás da tentativa de obter um cadáver e de o expor num museu.

A pintura de Mantegna, de 1480
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A pintura de Mantegna, de 1480 DR

A história começa há 40 anos e pareceu perto de um final feliz em 2011, quando tudo estava quase a postos para enviar dos EUA para o Reino Unido um cadáver que seria transformado em peça de arte para concretizar na exposição 11 Rooms o conceito do artista John Baldessari. Mas o tempo esgotou-se e a peça não chegou a sê-lo no Festival Internacional de Manchester. Agora que 11 Rooms chegou à Austrália, um dos comissários revelou que Baldessari ainda não desistiu do “projecto do cadáver”.

O artista conceptual norte-americano John Baldessari “ficaria feliz se concretizássemos [o projecto]”, disse Hans Ulrich Obrist em Sydney ao Art Newspaper, com a certeza de que "não está fora de questão que um dia aconteça". "É necessária a autorização da pessoa, obviamente antes de morrer. Ao mesmo tempo, precisamos do consentimento da família e de autorização legal”.

Hans Ulrich Obrist, co-director da Serpentine Gallery, de Londres, tentou em 2011 com Klaus Biesenbach, director da extensão PS1 do Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque, que o projecto fosse concretizado e exibido no festival de Manchester. Mas aquilo que o público viu foi a expressão em papel da odisseia kafkiana pela qual passou a produção da exposição para tentar dar corpo à ideia de Baldessari.

Unrealised Proposal for Cadaver Piece é uma colecção de documentos, cartas e mensagens trocadas com profissionais tão variados como patologistas, peritos em ética e técnicas de conservação de cadáveres, passando por cirurgiões e, claro, advogados que foram centrais em todo o processo. “Mostrar um cadáver num museu nas circunstâncias erradas é altamente ilegal”, diz Obrist ao Art Newspaper, citando a experiência que tiveram em 2011 em Manchester.

Inicialmente desenvolvido em 1970, o conceito de Baldessari tem como objectivo mostrar um corpo deitado com os pés próximos do orifício por onde o público o espreitaria, evocando a pintura de 1480 de Andrea Mantegna Lamentação sobre o Cristo Morto. “Tal como foi imaginada por Baldessari, é uma peça profunda, elegíaca e de luto, que também faz perguntas difíceis”, comenta o director do festival de Manchester, Alex Poots, que gostaria de ver a peça concretizada – ou, se não, que ela “encontre uma certa presença no mundo em virtude da sua ausência”.

Contudo, o labirinto legal e as dificuldades práticas do processo, que esteve de facto próximo de resultar na obra idealizada pelo artista que em 2009 recebeu o Leão de Ouro de carreira na Bienal de Arte de Veneza, acabou por resultar apenas numa peça meta-conceptual, no sentido em que explica o conceito e o processo árduo para o tentar tornar numa realidade. Foi uma ideia do próprio Baldessari, que gostaria agora de o tornar num livro.

“Algumas das conversas que tive ao longo de 18 meses foram bastante extraordinárias. Chegámos muito perto de obter um cadáver” mas os prazos não se coadunaram com a data de inauguração da exposição, diz a responsável pela produção de 11 Rooms, Pollyana Clayton-Stamm. O comissário Hans Ulrich Obrist recorda que “as pessoas não conseguiam sair da sala” de Unrealised Proposal for Cadaver Piece, fascinadas e mergulhadas na reflexão que ali se produzia sobre a morte e a burocracia.  

O Art Newspaper adianta ainda que a itinerância de 11 Rooms até Sydney não transportou consigo Unrealised Proposal for Cadaver Piece, mas sim uma nova peça de Baldessari. Thirteen Colorful Inside Jobs é uma sala que a cada dia é pintada de uma cor diferente por um performer. Aliás, a exposição chega a Sydney já com mais duas salas – 13 Rooms, cada uma ocupada por peças de um artista ou colectivo artístico, como Marina Abramovic, Damien Hirst ou Joan Jonas.

Baldessari nasceu em 1931 e vive em Los Angeles tem o seu trabalho representado nas colecções dos mais importantes museus do mundo, como o MoMA. Em Portugal, integra as colecções do Museu de Arte Contemporânea de Serralves e do Museu Berardo, com peças como o vídeo I Will Not Make Any More Boring Art (1971).

 
 
 
 
 

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