Eles eram os Meninos de Palhavã

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A estátua de uma mulher com um véu branco que a cobre da cabeça aos pés - a pátria - foi esculpida nos anos 30 do século XX por Francisco Franco Mónica Cid

É lugar de homenagem aos últimos reis de Portugal e lá estão também os túmulos dos filhos ilegítimos (mas legitimados) de D. João V.

Chamavam-lhes os Meninos de Palhavã porque viviam no Palácio da Palhavã, onde hoje é a embaixada espanhola, junto à Praça de Espanha. Eram três os meninos, todos filhos ilegítimos do rei D. João V de Portugal (1689-1750). Foi já depois da morte do rei que, por um documento assinado por ele ainda em vida, foram oficialmente legitimados e reconhecidos como "filhos de mulheres limpas de todo o sangue infecto".

Na verdade tinham mães diferentes. D. António era filho de Luísa Inês Antónia Machado Monteiro, D. Gaspar de Madalena Máxima da Silva de Miranda Henriques e D. José de Bragança, que chegou ao cargo de inquisidor-mor do reino, filho de Madre Paula, freira de Odivelas, de quem se dizia que terá vivido com grande luxo (sem deixar o convento), por consideração do rei. Se o Palácio de Palhavã foi a primeira morada dos "meninos", a última foi o claustro do Mosteiro de São Vicente de Fora. E é por isso que falamos deles.

Quem leu crónicas anteriores terá notado um certo gosto por túmulos e cemitérios. Foi isso que me levou, numa manhã de sábado, a São Vicente de Fora. Ia visitar o panteão da Casa de Bragança - é aí que se encontram os túmulos (da autoria do arquitecto Raul Lino) de D. Carlos e do seu filho, o príncipe herdeiro Luís Filipe, assassinados no Terreiro do Paço em 1908. E ainda de D. Manuel II, o último rei, e da mãe, D. Amélia de Orleães, "rainha no trono, na caridade e na dor" - ambos mortos no exílio, ele em Inglaterra, ela em França, mais exactamente em Chesnay.

Lá está também o túmulo de D. Pedro V de Portugal, D. Pedro I, imperador do Brasil, mas vazio, já que o corpo foi trasladado para o Monumento do Ipiranga em São Paulo, no Brasil, tendo o coração ficado no Porto.

O que me atrai nesse antigo refeitório dos cónegos, agora transformado em lugar de homenagem aos últimos reis de Portugal é a estátua esculpida nos anos 30 do século XX por Francisco Franco: uma figura de mulher com um longo véu branco, que a cobre da cabeça aos pés, e que, de rosto escondido entre as mãos, chora os "mártires" que "morreram pela pátria". A primeira vez que aqui entrei sobressaltei-me ao avistar a estátua - a pátria - ajoelhada junto aos túmulos. E, no entanto, sem ela o espaço seria frio e impessoal, com os seus monumentos de pedra de linhas direitas. Assim, a sala acaba por rodar toda em torno da mulher que chora.

Quando percorremos os claustros de São Vicente, andamos sempre entre túmulos ou sobre túmulos. A igreja de São Vicente de Fora começou a ser construída no final do século XVI no local onde D. Afonso Henriques terá mandado erguer um templo dedicado a São Vicente. Daí que no chão do mosteiro se possam ainda ver os túmulos antropomórficos, do século XII, de soldados que lutaram ao lado do primeiro rei de Portugal na conquista de Lisboa. Também no chão da Capela dos Meninos de Palhavã se vêem discretos sinais indicando que ali foram enterrados os "corações e vísceras" de vários reis.

Dizia eu que era para o panteão que me dirigia, atravessando os dois claustros do mosteiro. Mas acabei por me deter à porta da Capela dos Meninos de Palhavã. Aqui estão D. António (1714-1800) e D. José (1720-1801), para sempre um em frente ao outro. Cada túmulo é guardado por uma caveira, e exibe um medalhão com um epitáfio. Diz o de D. José que foi "filho legitimado do senhor rey D. João V, viveu sempre com o seu irmão, senhor D. António, imitando em tudo as suas relevantes virtudes". Em frente, o medalhão de D. António proclama que "passou toda a carreira da sua vida no exercício das mais heróicas virtudes".

Sabe-se que no exercício do cargo de inquisidor-geral, D. José terá sido insolente com o marquês de Pombal. Este queixou-se ao rei D. José, que mandou desterrar os dois irmãos para as matas da serra do Buçaco, onde viveram até à morte do monarca e ao desaparecimento de cena do marquês.

Mas, independentemente das vidas que tiveram, ficaram para sempre conhecidos - até na morte, como se vê - como os Meninos de Palhavã, do nome desse casarão onde viveram, três irmãos não legítimos mas legitimados, filhos de um rei e das suas amantes.