Caco a caco, os vestígios romanos da Praça D. Luís I vão ganhando forma

Numa das bancadas de trabalho erguem-se três ânforas, com várias origens e idades, reconstruídas como se de um puzzle se tratasse. "Arqueologia não é cavar", diz o coordenador dos trabalhos

Os longos meses de escavações na Praça D. Luís I, em Lisboa, terminaram. As botas de borracha antes cobertas de lama e os capacetes poeirentos já foram arrumados num canto longe da vista, mas o trabalho dos arqueólogos está longe de chegar ao fim. Agora é em laboratório, entre caixas e tabuleiros repletos de cacos, que se procura escrever mais um capítulo da história da cidade.

A construção de um parque de estacionamento subterrâneo na praça vizinha do Mercado da Ribeira revelou um fundeadouro romano, utilizado para a ancoragem de embarcações pelo menos entre os séculos I a.C e V d.C. Aí, cobertos por uma estrutura de madeira do século XVII que permitiu a sua conservação, jaziam quase meia centena de ânforas e várias peças de cerâmica.

Depois de registados um a um no local, os achados foram transportados para as instalações da empresa ERA- Arqueologia, em Algés. É aí que os arqueólogos se dedicam agora a tarefas que, embora porventura menos dignas de um filme de Hollywood, garantem serem tão apaixonantes como a descoberta dos vestígios seculares: a sua identificação e, sempre que possível, a sua reconstituição.

"A primeira tarefa é lavar os materiais", diz a arqueóloga Marta Macedo, mostrando o lavatório num canto da sala e vários tabuleiros de rede, onde secam os cacos trazidos da Praça D. Luís I. Os pedaços de ânfora e de cerâmica foram já, depois de uma primeira triagem facilitada pelas diferenças ao nível da cor e da textura, divididos "por tipos e formas".

"Cada tipologia corresponde a um centro de produção e a um determinado intervalo de tempo", explica o coordenador dos trabalhos arqueológicos, Alexandre Sarrazola. No caso da cerâmica, concentrada numa das bancadas de trabalho, há peças "comuns" e outras consideradas "finas", de proveniências e épocas distintas, como exemplares hispânicos e itálicos do século I a.C. e norte-africanos dos séculos II a IV d.C.

Nas cerâmicas "comuns", observa Jorge Parreira, a identificação é complicada pela multiplicidade de centros produtores e porque a passagem do tempo nem sempre trouxe consigo alterações significativas nas formas das peças.

Já nas cerâmicas "finas", a que só tinham acesso pessoas de um determinado nível económico, o reconhecimento é mais fácil. "Há coisas muito mais características, as pessoas queriam acompanhar as modas", diz o arqueólogo.

Nalgumas das peças de barro trazidas da Praça D. Luís I é visível o selo com o qual eram cunhadas pelo seu produtor, forma de identificação que levou a que recebessem a designação de terrasigillata. Há também um fragmento com uma inscrição (porventura o nome do seu dono) e outros de cerâmica "comum" mas que procuram imitar a "fina". "A contrafacção já vem desde há muito tempo", ironiza Jorge Parreira.

Numa segunda bancada de trabalho repousam três ânforas, reconstruídas com um vulgar tubo de cola e depois de muitas horas de um trabalho minucioso. "As fracturas são de há muito tempo e há sítios que não têm um encaixe perfeito. Tem de se ir fazendo a montagem por níveis", explica o arqueólogo, apontando para uma das três peças, uma Dressel 14, produzida na Lusitânia no século I a II d.C.

Assente sobre um pedaço de uma outra ânfora, a esguia Dressel 14 (que ainda tem tampa) impressiona pelo facto de se encontrar praticamente toda reconstituída. Ao lado, na mesma mesa, estão uma ânfora designada como Almagro 51 C e uma Pellicer D. A primeira é da Lusitânia, dos séculos III a IV d.C., e a segunda da Bética (da zona do rio Guadalquivir), dos séculos II a I a.C. A identificação dos exemplares é feita com a ajuda de um extenso catálogo com imagens, criado a partir de escavações anteriores.

Nos trabalhos na zona ribeirinha de Lisboa foram também descobertos vestígios orgânicos como resina, quer no interior de ânforas (onde era aplicada como isolante), quer no de peças de cerâmica. De um alguidar com vários sacos de plástico transparente, Marta Macedo retira um caroço e uma pinha, aparentemente intactos.

"Em meios secos dificilmente se encontram todos estes restos orgânicos", constata Alexandre Sarrazola, sublinhando que a sua preservação até aos dias de hoje foi possível porque estavam "em meio húmido". Estes vestígios e outros do mesmo género, acrescenta o coordenador dos trabalhos arqueológicos, serão também importantes para ajudar a perceber os "hábitos alimentares" das populações romanas.

Cada peça retirada da Praça D. Luís I tem uma ficha com a sua descrição e com as coordenadas do local exacto onde se encontrava, o que vai permitir, explica o arqueólogo Alexandre Sarrazola, a elaboração de um mapa, tarefa que já está, aliás, em curso. Nesse mapa será visível a forma como os vestígios estavam dispersos, permitindo uma apresentação gráfica com "manchas de tempo".

"O trabalho de campo é só o início", constata Marta Macedo, lembrando ainda que toda a informação que venha a resultar destas escavações arqueológicas será apenas parte de um todo, a cruzar com outros dados já existentes sobre a cidade de Olisipo. "Arqueologia não é cavar", anui Alexandre Sarrazola. Esta disciplina, conclui, "não serve para nada se não contar uma história", mesmo que esse seja um trabalho sem fim à vista.