O jardim do ser imaginante Alberto Carneiro em Serralves

Alberto Carneiro junto à Árvore da vida, a peça que abre o percurso da exposição
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Alberto Carneiro junto à Árvore da vida, a peça que abre o percurso da exposição fotos: NÉLSON GARRIDO

O escultor que privilegia a natureza como matéria da sua arte regressa a Serralves com a exposição Arte Vida/Vida Arte.

No hall do Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS) há uma obra de Alberto Carneiro, Os 4 elementos (1969-70), pertencente à colecção do museu, que é uma boa metáfora da nova exposição que o artista aí apresenta ao público. Uma laranjeira - cercada por uma estrutura em ferro e transparente e uma sequência de fotografias - tem a raiz imersa na terra mas liberta do vaso que a conteve. Está, pois, livre para crescer para outros espaços e outros significados.

Alberto Carneiro (n. São Mamede do Coronado, Trofa, 1937) sempre considerou a obra de arte como "uma metáfora que leva à consideração poética do ser" - repetiu-o, anteontem, na apresentação aos jornalistas da sua nova exposição no MACS, Arte Vida/Vida Arte - Revelações de energias e movimentos da matéria, que abre hoje ao público e aí ficará até 24 de Junho.

E os 21 momentos em que decidiu subdividir esta nova visita à sua obra são bem a expressão da energia que sempre se liberta da matéria, mais ainda quando a matéria de que falamos é a natureza que nos envolve.

O percurso da exposição abre, depois, com A árvore da vida com imagens do teu ser imaginante (1998-2000/13), inicialmente apresentada em Santiago de Compostela: um tronco de laranjeira em pose invertida, depois de libertado da sua ligação à terra surge-nos como que vindo do céu. E encerra com Metamorfose das laranjeiras, que o criador disse ter admitido chamar Abraço, e que entrelaça, de facto, os ramos de uma vida que se prolonga para além da morte orgânica da árvore.

"Cada obra de Alberto Carneiro pressupõe o facto de uma nova forma de arte ser também uma nova forma de vida (...). Os materiais da [sua] escultura provêm da natureza e será na natureza que se reencontram com a sua condição de arquétipos", escreve no catálogo da exposição João Fernandes, ex-director do MACS e ainda responsável pela programação desta nova mostra de Carneiro em Serralves (depois da Antológica de 1991).

A nova directora de Serralves, Suzanne Cotter, apresentou agora a exposição como "uma revelação" - para si, que não conhecia a obra de Carneiro -, que "materializa a claridade". A luz é, de resto, uma constante no percurso expositivo de Arte Vida/Vida Arte, já que o escultor, explicou a curadora da exposição, Isabel Sousa Braga, fez questão de aproveitar ao máximo a iluminação proporcionada pelo edifício do arquitecto Álvaro Siza. E acrescentou que Carneiro estabeleceu este "diálogo" com o espaço do Museu de Serralves a partir do seu próprio jardim na casa que habita no campo.

Artefactos, não esculturas

O próprio artista ia explicando aos jornalistas a origem dos "artefactos" - "isto não são esculturas": as cinco raízes a que deu formas escultóricas, mas sem introduzir grandes alterações na matéria de base, são de laranjeiras que um seu vizinho e amigo teve de cortar do seu laranjal; as vinhas que transformou em inesperados ninhos foram plantadas pelo seu pai. "A matéria é uma coisa poderosa", salientou Carneiro, referindo-se à sua permanência e à sua riqueza de significados, sempre mais próxima da essência do ser.

A ligar este percurso fluido de matéria e luz, o artista inscreveu (e escreveu) uma minúscula mas extensa linha de horizonte (de 90 metros), como uma espécie de gráfico entre a terra e o céu, com pequenos espelhos e inscrições - "Eu sou rio", "Eu sou amanhecer"... -, que permanentemente convocam o espectador. "Para mim, a obra de arte é um compromisso entre criador e espectador; e é preciso estar sempre a chamá-lo para dentro da obra", notou.

No final da visita guiada, olhando para as suas obras, e com uma energia anímica que contrastava com a debilidade física de alguém - em cadeira de rodas - que tem vindo, desde há muito, a lutar com a doença, Alberto Carneiro exclamou: "Isto é um sortilégio. Eu vibro mais com isto do que com a Mona Lisa - e considero-me uma pessoa culta em relação à arte. Mas não a mitifico. A essência da beleza da Mona Lisa e do Moisés, encontrámo-la também aqui".

Vida Arte - Revelações de energias e movimentos da matéria prolonga-se na biblioteca do MACS com Arquivo. Alberto Carneiro, mostra documental que transporta o visitante até aos trabalhos que o artista realizou nos anos 70. Vai ter visitas guiadas (dias 11 e 23 de Maio) pela comissária Isabel Sousa Braga, e, a 4 de Maio, uma conversa de Carneiro com Isabel Carlos, directora do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, seguida da exibição do filme Dificilmente o que habita perto da origem abandona o lugar, de Catarina Rosendo (que também escreve no catálogo) e Olga Ramos.

Hoje mesmo, começa um ciclo de artes performativas associado à obra de Carneiro. Chama-se Matérias vitais, vai até Outubro, em "defesa da importância da energia intrínseca da vida não-orgânica, sublinhada na emergência de novos materialismos", diz o programa. A primeira performance realiza-se na biblioteca, às 11h, 14h, 16h e 18h, onde o coreógrafo Trajal Harrel e a escultura Sarah Sze apresentam The untitled still life collection.