João Proença deixa UGT em clima de alta tensão com o Governo

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O acordo que assinou na concertação social com o actual Governo valeu muitas críticas a João Proença ENRIC VIVES-RUBIO

A mudança de cadeiras na UGT ocorre numa altura em que se avizinham mais medidas de austeridade. O congresso onde será eleito o novo secretário-geral inicia-se hoje sob o lema "Recuperar a Esperança".

Depois de 18 anos à frente da UGT, João Proença abandona o cargo de secretário-geral numa altura em que se agrava a crispação com o Governo. Para o seu lugar será eleito Carlos Silva, uma escolha feita há cerca de um ano e que será confirmada no XII Congresso da UGT, que decorre este fim-de-semana em Lisboa.

Nos próximos seis meses, João Proença vai passar o testemunho a Carlos Silva e dar algum apoio nas pastas que estão pendentes na concertação social. E depois? "Logo se verá", responde.

No último congresso, João Proença, engenheiro químico de 66 anos, já tinha manifestado vontade de deixar o lugar, mas acabou por assumir mais um mandato. Agora, sai "com o espírito de dever cumprido", diz ao PÚBLICO. Mas, reconhece, os tempos são de dificuldades.

A resolução programática que amanhã será analisada e aprovada pelos congressistas não deixa margem para dúvidas: "Portugal atravessa um dos períodos mais difíceis da sua história recente, com um risco de espiral recessiva, com um nível insustentável de desemprego, com fortes pressões para uma cada vez maior desregulação das relações laborais, com o agravamento da pobreza".

Perante este cenário, realça João Proença, "o diálogo político e social é fundamental". Porém, nos últimos meses, esse diálogo entre Governo e parceiros sociais praticamente não tem existido. Embora haja promessas de que a resposta ao acórdão do Tribunal Constitucional será discutida com patrões e sindicatos.

Proença não tem poupado nas críticas ao Governo. Na última reunião da Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS) em que participou enquanto líder da UGT, acusou o executivo de "estar a destruir a concertação social" e de não apresentar propostas. "Se a CPCS é o palco para os parceiros apenas exporem as suas posições, então não vale a pena. A concertação é um diálogo e o Governo sabe que soluções concertadas são valiosas para o país", defende.

Ontem, na abertura de uma conferência organizada pela UGT, o líder da central disse que "não há empenhamento do Governo para enfrentar a troika". Em causa, está a defesa da negociação colectiva e o aumento do salário mínimo nacional, duas das reivindicações da UGT que serão discutidas no congresso.

Na resolução programática, a UGT defende que o combate à crise exige políticas de crescimento e emprego, o combate às desigualdades sociais e uma resposta à pobreza e à exclusão social. "É fundamental criar condições para que os portugueses possam recuperar a esperança no futuro, para o que são indispensáveis mudanças profundas nas políticas", afirma a central sindical no documento que define as orientações a seguir nos próximos quatro anos.

O diálogo e a concertação - áreas em que o ainda líder da UGT se destacou - também serão objectivos para o futuro. Carlos Silva, o senhor que se segue, já disse que continuará aberto ao diálogo, mas ao mesmo tempo quer dar mais visibilidade à acção da central na rua e nas empresas.

Essa visibilidade é um ponto que terá falhado na liderança de Proença, que assinou acordos com todos os Governos. Mas depois, como disseram vários sindicalistas ao PÚBLICO, nem sempre os conseguiu explicar. O mais recente foi o Compromisso para o Crescimento e o Emprego, assinado em Janeiro do ano passado e que lhe valeu críticas dentro da central por parte de alguns sindicatos. Também a outra central sindical portuguesa, a CGTP, não poupou nas críticas, tendo os últimos tempos sido marcados por estarem de costas voltadas.

Já a sua apetência para o diálogo é unânime, os seus companheiros de concertação do lado patronal também o reconhecem. Proença, dizem, é um "negociador duro", pouco tolerante à "asneira" e à "incompetência", mas sempre com o objectivo de chegar a um compromisso.

Além de eleger o novo secretário-geral, o congresso vai também votar o nome de Lucinda Dâmaso, vice- presidente da Federação Nacional da Educação, que irá substituir João de Deus na função de presidente da central sindical. Por tradição, na central, o secretariado fica nas mãos de um socialista e a presidência nas de um social-democrata.