Inscrição das editoras rende 200 mil euros mas isso não chega para uma feira do livro

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A 83.ª edição da Feira do Livro do Porto não se realizará este ano PAULO PIMENTA

Editor questiona necessidade de apoio suplementar de 75 mil euros, mas APEL alega que custos são elevados.

O editor portuense Cruz Santos, responsável pela Modo de Ler, questiona a necessidade do apoio de 75 mil euros, pedido pela Associação de Editores e Livreiros e recusado pela Câmara do Porto, e que está na origem do cancelamento da Feira do Livro deste ano, na cidade. O editor considera que os cerca de 200 mil euros que a APEL consegue com as inscrições no evento de editoras e livreiros deveriam ser suficientes para a realizar. A organização garante que não chegam.

A APEL confirma as contas do editor de Eugénio de Andrade, que há alguns anos não vai à feira. Cruz Santos tentou, no ano passado, mas desistiu, porque a sua era considerada uma primeira inscrição, pelo que até teria de pagar o dobro do preço normal de um stand. Que, segundo a organização, anda entre os 1500 e os 1600 euros mais IVA. Valores que multiplicados pelos cerca de 120 participantes de 2012 dá uma quantia a rondar os 200 mil euros, que, para o editor e livreiro, deveriam chegar para pôr de pé uma feira.

Perante este entendimento, Santos, um crítico de Rui Rio - a quem chegou a acusar de ter destruído a Avenida dos Aliados, com a intervenção urbanística feita na praça -, considera que o autarca tem razão ao recusar prolongar por mais um ano o protocolo que dava à APEL 75 mil euros para a edição de 2013 da Feira. "Acho que neste caso estão a aproveitar-se da má imagem que Rui Rio tem na área da cultura - na qual, de facto, cometeu muitos erros - para o responsabilizar pela não realização do evento", acusa Cruz Santos, que considera que de há alguns anos para cá a Feira do Livro é dominada por dois grupos e que, pelos preços praticados, tornou inviável a participação de pequenos livreiros.

Pedro Pereira da Silva, vice-presidente da APEL e responsável pela organização de feiras na associação, refuta as críticas deste editor. E até garante que a realizar-se o evento deste ano, sem o apoio de 75 mil euros da Câmara do Porto, este valor teria de ser repercutido nas inscrições, dificultando ainda mais a participação de editoras mais pequenas. Segundo este responsável da APEL, todos os custos associados à logística de montagem e desmontagem de uma feira num espaço a céu aberto, realizada em condições que encarecem a própria manutenção dos stands, justificam boa parte dos custos do evento. E a isto, assinalou, junta-se todo o programa de animação que a associação organiza. "É preciso não esquecer que, da nossa parte, este é um evento "chave-na-mão"", vincou.

Depois do anúncio, anteontem à noite, do cancelamento da feira deste ano no Porto, o presidente da Associação Portuguesa de Escritores afirmou que a ausência do evento "não faz o menor sentido". Em declarações à Lusa, José Manuel Mendes classificou o cancelamento da Feira de 2013 como "doloroso e intolerável" e salientou que, "num tempo em que tanto se faz imperiosa a presença do livro na cidade, na vida de todos, a não existência da feira contribui para o avolumar de todas as densidades trágicas que atravessam a vida pública portuguesa".

"Gostaria que, de alguma forma, escritores e livreiros pudessem encontrar, juntamente com editores e outras instituições, um espaço de fazer existir no ano em curso algo que pudesse recuperar a tradição da feira do livro, ainda que em condições transitórias", acrescentou o presidente da APE. Com maior ou menor apoio quer da Câmara do Porto, quer do Estado, quer das instituições locais, o presidente da APE desafia os livreiros e editores a terem um "sentido de risco e de ousadia".

A CDU vê na não realização da feira mais um episódio "da permanente hostilização que a coligação PSD/CDS tem feito a diversos agentes do Porto". Criticando a decisão "profundamente negativa", os comunistas lembram que "o Porto precisa de uma outra visão da cultura para cidade e apagar a herança de Rui Rio". "Para actual maioria PSD/CDS há sucessivamente verbas para sustentar os 700 mil euros de prejuízo do Circuito da Boavista, houve dinheiro para sustentar a empresa de Filipe La Féria em igual montante durante a sua polémica passagem pelo Teatro Rivoli, num negócio que saiu caro à cidade, aos seus artistas e aos agentes culturais. Como se demonstra, trata-se simplesmente de fazer escolhas diferentes daquelas que têm vindo a ser feitas", atiram.

Já o candidato independente à Câmara do Porto, Rui Moreira, aproximou-se dos argumentos utilizados pela autarquia para a não renovação do apoio de 75 mil euros. Moreira gostaria que a Feira do Livro se continuasse a realizar na cidade, mas sublinhou a necessidade de "ter a certeza de que o interesse público está acautelado". Sendo esta "uma actividade comercial", na sua opinião "é preciso que seja um negócio bom para ambas as partes: para o interesse público e para as associações".