CDS e PSD vivem novo pico de tensão no Governo depois de remodelação mínima

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Paulo Portas tem feito propostas para o Ministério da Economia Enric Vives-Rubio

Depois de uma remodelação governamental que foi pouco mais do que uma substituição de um ministro, o CDS não consegue esconder o desânimo por concluir que não contou para este refrescamento. Não ficou com nenhum papel na coordenação ou na comunicação política - que tem passado pelo novo ministro adjunto Miguel Poiares Maduro - nem com a tutela das pastas económicas. E estas tornaram-se a âncora do discurso do CDS. Paulo Portas já faz propostas concretas para o Ministério da Economia.

Nos últimos dias, os democratas-cristãos assumiram uma divergência do discurso oficial. O eurodeputado Diogo Feio defendeu uma revisão das metas do défice no Parlamento Europeu, uma flexibilidade "amiga da economia". A proposta está mais próxima do discurso do PS, partido a que o CDS não se tem cansado de apelar ao consenso e que tem procurado não hostilizar. O "namoro" à UGT também já foi assumido. No congresso da central sindical neste fim-de-semana, a delegação do CDS tem peso institucional: inclui o líder parlamentar, o porta-voz e o secretário-geral.

Por outro lado, é cada vez mais assumido que os resultados das opções do Governo não são os esperados, sobretudo quando o CDS se atravessou por um "enorme aumento de impostos". Isso mesmo reconheceu o porta-voz do partido, João Almeida, numa declaração política no Parlamento. Em contraponto com o discurso do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, que não reconhece qualquer falha no programa de ajuda externa, João Almeida concluiu que "o ajustamento é mais difícil do que o previsto, a consolidação orçamental é mais lenta do que o previsto, os números do desemprego são assustadores e a recessão é mais profunda do que o esperado". Ficou exposta a diferenciação do CDS, uma divergência que o partido deverá acentuar até ao congresso marcado para 6 e 7 de Julho.

O ponto central da agenda do partido de Paulo Portas é a valorização das políticas da Economia e um emagrecimento do poder das Finanças.

Isso mesmo foi dito de forma clara pelo presidente do Conselho Nacional do CDS, António Pires de Lima, que defendeu a promoção da pasta da Economia a Ministério de Estado. Portas, que é ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, avançou dois dias antes com a proposta do Simplex II (nome de uma das bandeiras do Governo socialista de José Sócrates), que é uma espécie de visto governamental virado para a captação de investimento estrangeiro e de combate à burocracia.

A medida foi proposta por Portas, mas está na fronteira do Ministério da Economia, de Álvaro Santos Pereira. Aliás, no início deste mês, foi o próprio ministro da Economia quem declarou a intenção de combater a burocracia para facilitar a competitividade, durante a apresentação de um investimento do Ikea e da Vista Alegre. Na mesma ocasião estava Paulo Portas, que prometeu a apresentação "para breve" da reforma do IRC.

Esta e outras medidas de cariz económico foram defendidas por Portas no discurso que fez aos conselheiros nacionais no domingo. Foi o caso da reforma da Autoridade da Concorrência e a atribuição de uma missão de financiamento à Caixa Geral de Depósitos.

É a agenda do líder do CDS para um ministério que tem vindo a ser esvaziado nos últimos meses, que agora perdeu o QREN e poderá perder outras pastas importantes (ver pág. 16).

Do lado do PSD, também não foi fácil gerir o pedido público do CDS para uma remodelação no Governo. Há três semanas, Pires de Lima apontou baterias à coordenação política (que estava a cargo do agora ex-ministro adjunto Miguel Relvas) e à Economia, defendendo que esperava uma maior valorização da pasta. Relvas acabou por sair, mas o CDS não ganhou nada na pasta da coordenação política nem na Economia.

No PSD, a escolha de Miguel Poiares Maduro, o novo ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional, não é pacífica. Poiares Maduro, que ficou com a tutela do poder local, é militante do PSD mas não vem das estruturas do partido. E há quem se questione como é que se fará a articulação com os autarcas em ano de eleições.