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Sociedade Portuguesa de Matemática critica "agitação" criada nas escolas

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A autonomia dada aos professores também provoca desacordo Daniel Rocha

Com a revogação do programa de Matemática, o Ministério da Educação e Ciência conseguiu surpreender e desagradar até àqueles que apoiaram a introdução das metas curriculares

O Ministério da Educação e Ciência (MEC) parece não ter agradado a ninguém ao revogar o programa de Matemática do ensino básico, substituindo-o por outro, que só será conhecido na próxima semana. Lurdes Figueiral, da Associação de Professores de Matemática (APM), considera que, a pretexto de "fazer uns pequenos ajustes", o MEC "vai fazer retroceder 40 anos o ensino da disciplina". O presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), Miguel Abreu, pensa que a medida vai provocar "uma agitação desnecessária" nas escolas.

No centro da polémica entre os matemáticos, investigadores e professores estão as chamadas metas curriculares, constituídas por mais de 900 descritores que indicam quais as capacidades e competências que os alunos deverão ter adquirido no final de cada ano. A direcção da APM contestou-as - afirmou que elas contrariavam o programa em vigor, que foi homologado em 2007, e anunciou que considerava apresentar uma providência cautelar para impedir a sua prevista aplicação progressiva, a partir do próximo ano lectivo, nos 1.º, 3.º, 5.º e 7.º anos de escolaridade. A direcção da SPM apoiou-as e contrapôs, como ontem, mais uma vez, que tanto não existe contradição que "não seria necessário fazer um novo programa", mas apenas proceder "a alguns ajustes", em sala de aula.

Em comum, a APM e a SPM têm o facto de terem sido apanhadas de surpresa, na noite de anteontem, com o despacho que revoga o programa que só este ano foi generalizado a todos os alunos do 9.º ano. "A cinco meses do início do ano lectivo, isso só se justifica se tiver sido detectada alguma impossibilidade legal de aplicar as metas curriculares", comentou o dirigente da SPM Miguel Abreu, em declarações ao PÚBLICO. Lurdes Figueiral, da APM, diz que, "apesar de surpreendida", "não fica espantada": "O ministro chega aonde queria: a mudança é enorme e tremenda, é toda uma concepção do ensino da disciplina que muda", prevê.

Um dos autores das metas e do novo programa, Filipe Oliveira, assegura que o novo programa resulta de "pequenos ajustes" ao que está ainda em vigor nas escolas. Em resposta por escrito a perguntas do PÚBLICO, especifica que "os conteúdos são exactamente os elencados nos descritores das metas curriculares" e que estes, "com escassas excepções, são os conteúdos do Programa de 2007", mas "sequencializados e estruturados de forma coerente e rigorosa".

Tanto Lurdes Figueiral como o autor do programa de 2007, João Pedro da Ponte, rejeitam que seja possível chamar "pequenos ajustes" à integração das metas no programa. Este último diz que o MEC está a recuperar "uma matemática muito abstracta e muito formalizada que não serve a escola e os alunos de hoje". Lurdes Figueiral aposta nos exemplos.

"De acordo com o programa de 2007, a introdução à geometria faz-se, no primeiro ano, a partir de objectos tridimensionais que as crianças conhecem, como o cubo ou a esfera; as metas indicam que os meninos de seis anos devem partir do "ponto", uma noção completamente abstracta, para a recta...", compara a professora. Refere, também, que "enquanto o actual programa valoriza a tentativa, o erro e a descoberta no processo de aprendizagem, os autores das metas defendem uma abordagem directiva, "para evitar erros decorrentes da descoberta dos alunos""; e que se agora "se procuram pontos de contacto com a realidade e com a vida quotidiana das crianças, as metas definem que os alunos devem aprender os conceitos, teóricos, abstractos".

A questão da autonomia dada aos professores também provoca desacordo. Filipe Oliveira considera que é uma conquista do novo programa, que deixa cair a indicação das metodologias. João Pedro da Ponte indigna-se: "O que dizer dos cadernos de apoio às metas, que até indicam o que os professores devem dizer a cada momento?", contrapõe. Lurdes Figueiral é da mesma opinião: "As metas são tão descritivas, tão descritivas, que ainda estou para descobrir que liberdade nos sobra".

O programa será conhecido na próxima semana, altura em que entrará em discussão pública. Prevê-se que seja aplicado ao ritmo previsto para as metas, de forma faseada, a partir de 2013/2014.

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