O genoma descodificado do celacanto mostra um peixe a evoluir lentamente

Celacanto com 1,75 metros e 77 quilos, que foi apanhado em 2001 por pescadores quenianos
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Celacanto com 1,75 metros e 77 quilos, que foi apanhado em 2001 por pescadores quenianos SIMON MAINA/AFP

Passaram-se quase 75 anos desde a sua descoberta em África. Agora uma equipa internacional sequenciou o seu genoma, que abre uma janela até ao passado.

Há um novo capítulo na história extraordinária de um peixe extraordinário. O genoma de uma das duas espécies vivas de celacantos foi sequenciado e mostra que este peixe com uma longa história continua a evoluir, mas muito lentamente, revela um artigo hoje na revista Nature.

"Descobrimos que os genes estão a evoluir bastante mais lentamente do que em qualquer outra espécie de vertebrado", diz Jessica Alföldi, investigadora do Instituto Broad, nos Estados Unidos. A cientista foi uma das autoras do artigo que reuniu o trabalho de 40 institutos em 12 países. Mas as conclusões dizem também respeito à própria evolução dos vertebrados que passaram da água para terra firme.

Os celacantos existem há cerca de 400 milhões de anos. Testemunharam a conquista da terra pelos vertebrados, viram a ascensão dos anfíbios e répteis, e já eram velhos quando os dinossauros surgiram há cerca de 230 milhões de anos.

Neste peixe, as barbatanas têm osso e carne, e fazem lembrar os membros dos tetrápodes - os vertebrados terrestres, que incluem os humanos. Uma das características essenciais na passagem dos vertebrados aquáticos para os terrestres foi o desenvolvimento de membros capazes de os sustentar em terra firme. Por isso, as barbatanas especiais dos celacantos fizeram deles um potencial antepassado dos tetrápodes, que surgiram há mais de 365 milhões de anos.

O primeiro fóssil de um celacanto foi descoberto em 1838. Nos cem anos seguintes, e depois de muitos mais encontrados, fez-se a história de um peixe que teria desaparecido com os dinossauros, há 65 milhões de anos - o fóssil mais recente tinha 70 milhões de anos.

Mas, em Dezembro de 1938, numa lota de East London, na África do Sul, encontrou-se um celacanto acabado de pescar. Afinal, não estava extinto. A espécie recebeu o nome Latimeria chalumnae, em homenagem a Marjorie Courtenay-Latimer, do museu daquela cidade sul-africana, que o encontrou na lota. A espécie tornou-se o arquétipo do "fóssil vivo", um termo definido pelo pai da teoria da evolução. Charles Darwin entendia os fósseis vivos como os sobreviventes de um grupo de espécies que, numa dada altura da história da Terra, tinha sido abundante.

O aspecto ancestral do celacanto tornou a ideia de fóssil vivo ainda mais visual. Nas décadas seguintes, com a descoberta de cerca de 200 indivíduos, ficou-se a saber que este peixe vivia a algumas centenas de metros de profundidade na região Oeste do Índico, entre Madagáscar e Moçambique. Na década de 1990, outra espécie de celacanto foi encontrada perto da Indonésia.

Só agora, passados quase 75 anos, é que os 3000 milhões de letras de ADN dos 48 cromossomas do genoma da Latimeria chalumnae foram sequenciados. O resultado mostrou a evolução lenta. Sabe-se que para os genes Hox, que definem o desenvolvimento do corpo dos vertebrados, as duas espécies de celacanto, separadas há mais de seis milhões de anos, estão a divergir 11 vezes mais devagar do que os genes Hox nos humanos e chimpanzés.

"Fala-se muitas vezes de como as espécies mudam ao longo do tempo", diz Kerstin Lindblad-Toh, também do Instituto Broad. "Mas ainda há alguns locais na Terra onde os organismos não têm de mudar. É provável que o celacanto esteja muito especializado neste ambiente extremo, específico e imutável."

No entanto, Jessica Alföldi considera que as mudanças, ainda que lentas, põem em causa o estatuto de fóssil vivo. "Não é um fóssil vivo, é um organismo vivo. [O celacanto] não vive numa bolha temporal, vive no nosso mundo e isso torna fascinante descobrir que os seus genes estão a evoluir mais lentamente do que os nossos."

Ainda assim, o seu genoma revelou novos dados sobre o nosso próprio passado. A equipa comparou porções de material genético das duas espécies de celacanto com o dos peixes com pulmões, o que os torna potenciais antepassados dos tetrápodes. Os cientistas queriam identificar o grupo mais próximo do animal que veio da água para a terra. Apesar de os celacantos estarem próximos desse antepassado, os peixes pulmonados estão ainda mais perto.

O genoma do celacanto serviu ainda para procurar genes que surgiram ou que foram alterados na transição para a terra. A equipa verificou que os tetrápodes ganharam genes que os ajudaram a desenvolver o olfacto. Já em relação aos genes Hox, a comparação com o celacanto permitiu verificar que foram mudando durante a passagem para terra, permitindo a adaptação ao novo ambiente.

Chris Amemiya, outro dos autores, do Instituto de Investigação Benaroya, em Seattle, diz que as novidades não acabam aqui: "É o início de muitas análises, em que o celacanto pode ensinar-nos sobre a emergência dos vertebrados terrestres."