"Quem fez isto não pode vencer"

Foto
A reacção popular foi imediata na ajuda aos feridos Ken McGagh/reuters

No dia seguinte ao atentado, a zona da meta da maratona conservava os sinais de destruição da véspera. O trauma dos que viveram de perto a tragédia permanecia vivo. Entre a dor e a revolta revelou-se a solidariedade dos habitantes de Boston.

Como qualquer local onde acaba de ser cometido um crime, tudo em Boylston Street permanecia ontem de manhã no mesmo lugar onde tinha sido deixado no momento em que duas explosões interromperam a maratona de Boston. As grades metálicas continuavam no mesmo lugar, a separar a estrada do passeio. Pela rua fora havia um longo rasto de garrafas de água, sacos de plástico, peças de roupa e finos cobertores de alumínio que são oferecidos aos maratonistas no fim da prova para não terem frio. A polícia estadual e a Guarda Nacional (reservistas que são mobilizados quando há um desastre natural ou uma calamidade pública) tinham vedado o acesso ao local e ninguém podia aproximar-se. A três quarteirões de distância, as pessoas olhavam para a meta da maratona como se estivessem em Pompeia.


Não é difícil imaginar o mesmo lugar na véspera à tarde, momentos antes das explosões, porque todas as metas de maratonas são iguais. Homens com crianças aos ombros tiram fotografias às suas mulheres no momento antes de estas alcançarem a linha de chegada. Raparigas esticam o pescoço para beijarem os namorados que acabam de completar a prova. Há sempre alguém a tentar certificar-se de que não perde a chegada da amiga ou do familiar: "É ela?" E mesmo espectadores que não conhecem ninguém na prova aplaudem a resistência dos corredores. Talvez um dia também eles consigam correr uma maratona.

"Só esta manhã, quando liguei as notícias, é que o peso dos acontecimentos me atingiu", diz Dave Beckman, 45 anos, que correu a maratona de Boston pela primeira vez. A sua mulher e irmã esperavam por ele junto à meta quando ele terminou a prova. Felizmente, Dave é um corredor mais rápido do que a média e completou os quase 42 quilómetros em pouco mais de três horas. "Mas se eu fosse um maratonista de quatro horas e dez, quatro horas e quinze, elas teriam estado lá [no momento das explosões]."

Muitos maratonistas estavam concentrados nos átrios dos seus hotéis ontem de manhã cedo, olhando ansiosamente para os ecrãs de televisão com os horários dos voos de partida ou esperando um táxi para o aeroporto.

Era fácil identificá-los porque vestiam as oficiais parkas azuis com riscas amarelas da maratona de Boston. "Mal posso esperar para chegar ao aeroporto. Já chega. As minhas filhas precisam de ir para casa. Foi tudo muito traumático", diz Ken Clasby, 60 anos, de Vancôver, no Canadá.

Leslie Buller, 55, de Richmond, Virgínia, tinha atravessado a meta cinco minutos antes das explosões e ainda estava perto do local quando ouviu o que descreve como "um boom estrondoso". Como muitos outros maratonistas, julgou tratar-se do som de um canhão, marcando a quarta hora da prova, mas ao voltar-se viu uma imensa nuvem de fumo envolver o local.

Barbara Burnette estava entre o público, junto à meta, aguardando a chegada do marido, Jack, que participava na prova, quando a primeira explosão aconteceu à sua frente, do outro lado da rua. O segundo explosivo detonou segundos depois, um quarteirão abaixo. "E aí soube que era um ataque terrorista. Não havia qualquer dúvida."

As explosões em Boston avivaram memórias dos ataques de 11 de Setembro em Nova Iorque. Dave Beckman, de Cedar Rapids, no Iowa, estava determinado em voltar a correr no próximo ano. "Não vou deixar a pessoa que fez isto vencer", explicou. As demonstrações de solidariedade choveram de todos os lados: o site da Cruz Vermelha Americana deixou de funcionar por causa do grande volume de donativos. A primeira página da secção de desporto do Chicago Tribune prestou tributo a Boston, pondo de lado a rivalidade desportiva entre Chicago e Boston com um jogo de palavras em que os nomes das equipas de uma cidade eram atribuídos à outra cidade. Os residentes de Boston mobilizaram-se desde o primeiro momento para ajudar os maratonistas.

"A maratona foi tudo o que esperava que fosse", diz Terry Huddleston, 53 anos, que estava a menos de um quilómetro da meta quando as explosões aconteceram e a prova foi suspensa. "Vi pessoas virem das suas casas trazendo água. Uma rapariga deu a sua camisola a uma participante que estava ao meu lado porque ela só tinha uma T-shirt de alças e tinha imenso frio, e a seguir ofereceu-me o seu cachecol, que eu não tive coragem de aceitar. Vi uma outra mulher que carregava uma pilha de toalhas para distribuir." Terry emociona-se. E isto acontece uma e outra vez, com quase todos os maratonistas ouvidos pelo PÚBLICO: brotam lágrimas quando falam do apoio dos habitantes da cidade.

"Adorava poder escrever uma carta a Boston a agradecer", diz Leslie Buller. Milhares de pessoas voluntariaram-se para acolher visitantes nas suas casas. Foi criada uma lista no Google intitulada "Tenho um lugar para oferecer" (I have a place to offer), onde residentes deixaram os seus contactos para quem precisasse de um lugar onde ficar. As primeiras entradas surgiram cerca de hora e meia após as explosões.

Ken Clasby foi acolhido por uma família de Boston juntamente com a sua mulher e duas filhas, porque o hotel onde estavam alojados, o Lenox, situado no local das explosões, foi encerrado. "Eles acolheram a minha mulher e filhas, que não sabiam nada de mim porque eu não conseguia ligar para a minha mulher, e disseram: "Fiquem aqui, que nós vamos ajudá-la a encontrar o seu marido." Foram extraordinários. Digo-lhe uma coisa, esta cidade é incrível."

Barbara Nazarewiecz, uma arquitecta paisagista de 30 anos, foi uma das residentes que se ofereceram para receber pessoas em sua casa. Ela deixou o seu contacto na lista do Google, juntamente com a mensagem: "Espaço para uma pessoa num sofá-cama. Ofereço-me para cozinhar uma bela refeição também!"

Ela tinha sido voluntária na maratona e tinha estado na zona da meta uma hora antes das explosões, mas foi embora porque tinha de regressar ao trabalho. Só quando chegou ao escritório é que soube das explosões. "E senti arrepios." Ninguém pediu para ficar na sua casa, talvez porque tenha havido "uma abundância de ajuda". Mas Barbara recebeu emails de outras pessoas congratulando-a pela sua generosidade. "Qualquer pessoa teria feito o mesmo. Situações difíceis trazem o melhor das pessoas ao de cima", diz. Mesmo quando as autoridades locais estavam a recomendar às pessoas que ficassem em casa porque não podiam garantir que não houvesse outros explosivos noutros pontos da cidade, Barbara e o namorado saíram para a rua e levaram várias pessoas para o aeroporto, quando os transportes públicos não estavam a funcionar e não havia táxis.

Jack Burnette, 56 anos, recebeu a sua medalha ontem de manhã e abraçou a mulher que estava a entregá-las como se precisasse mesmo disso. Ele estava a cerca de uma milha de distância da meta quando as explosões aconteceram e não pôde terminar a prova. A mulher, Barbara, explica que ele acha que ninguém deve obter uma medalha se não completar a maratona, "se não a tiver merecido".

"Mas eu também sinto que a mereci desta vez", diz Jack. "As minhas pernas hoje estão a dizer-me isso."