Ricardo Salgado: “A austeridade é violenta e está a chegar ao limite”

Presidente do BES diz que na União Europeia e Monetária “há países que estão a ser altamente penalizados pelas taxas de juro, nomeadamente, Portugal”.

Salgado acredita que Espanha não precisa de ser resgatada
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Salgado acredita que Espanha não precisa de ser resgatada Enric Vives-Rubio

O presidente do Banco Espírito Santo (BES), Ricardo Salgado, considerou nesta quarta-feira que a austeridade "está a chegar ao limite", e defendeu que a troika deve mostrar algum "pragmatismo" para ajudar a economia portuguesa.

Comentando o necessário ajustamento ao Orçamento do Estado para este ano devido ao chumbo de quatro medidas pelo Tribunal Constitucional, o banqueiro alertou que o país não aguenta muito mais austeridade.

“A austeridade é violenta e está a chegar ao limite. Vai haver certamente algum complemento [às medidas de austeridade após o chumbo do Tribunal Constitucional a alguns pontos apresentados pelo Governo], porque é preciso que o Orçamento [do Estado para 2013] feche”, afirmou o banqueiro, sem querer arriscar quais serão as medidas adoptadas pelo executivo de Passos Coelho.

“Neste momento, com a decisão do Tribunal Constitucional, o Orçamento não fecha. Portanto, alguma coisa vai ter que ser feita”, reforçou Salgado, que falava à margem de uma conferência promovida pela Comissão Bancária da Câmara de Comércio Internacional (ICC, na sigla em inglês), que junta em Lisboa responsáveis da banca de vários países. “Mas espero que haja algum pragmatismo do lado da troika [Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional] para ajudar a economia portuguesa”, disse o presidente do BES.

Projectos de investimento escasseiam

Em relação às declarações do primeiro-ministro, Passos Coelho, sobre a falta de apoio dos bancos às empresas e às famílias, Ricardo Salgado contrapôs que actualmente há pouca procura de crédito em Portugal. “Os projectos de investimento contam-se pelos dedos de uma mão”, disse. “Os bancos portugueses têm ajudado o que podem, mas a preocupação do primeiro-ministro é legítima. Porém, os bancos portugueses enfrentam muitos constrangimentos, alguns deles impostos pela
troika [Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional], pelo que têm que ter especial atenção à qualidade do crédito”, sublinhou.

Salgado realçou que os bancos gerem os recursos dos seus clientes, pelo que “têm que tomar muito cuidado na concessão de crédito”, mas revelou que, desde o início do ano, o BES já cresceu 3% no crédito, ainda que haja uma variação negativa em termos anuais, o que, na prática, significa que o banco concedeu menos crédito em Abril de 2013 do que em Abril do ano passado.

“Hoje em dia, há mais liquidez em Portugal. Por um lado, o país está a neutralizar o seu défice externo, depois há mais poupança das famílias, das que podem. Há também um aumento das reservas enviadas para o país pelos emigrantes, há o encaixe das privatizações e os recursos injectados pela troika”, realçou. Consequentemente, as taxas de juro estão a baixar.

Em termos europeus, entende que “não há risco de inflação”, apontando para a queda dos preços das matérias-primas, como o ouro, que ajuda a reforçar esta ideia. Por isso, na sua opinião, “a economia pode ser reactivada se for essa a política da Europa central e do Banco Central Europeu”.

Questionado sobre se este pode ser o ponto de mudança em termos do ciclo económico, Salgado mostrou-se cauteloso. “Podemos estar a chegar a um ponto de viragem”, afirmou, explicando que a recuperação económica só será possível através do incremento do investimento. “As empresas estão ainda com medo e a travar o investimento. Mas é por aí que a economia vai crescer”, considerou.

E apontou para a importância de serem conhecidas as perspectivas do Governo quanto à redução da taxa de IRC, que, segundo o banqueiro, em Portugal está acima de 50% da média europeia. “Não há investidores que venham apostar em Portugal nestas condições”, alertou, admitindo que esta medida só venha a ser implementada dentro de dois, três ou quatro anos.

Acordo com BPI e FEI

Com o objectivo de tentar potenciar o investimento

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o BES e o BPI assinaram nesta quarta-feira acordos com o Fundo Europeu de Investimento (FEI) que vão permitir disponibilizar mais crédito para projectos de empreendedorismo e inovação. A parceria entre o BPI e o FEI permite financiar PME inovadoras até 60 milhões de euros nos próximos dois anos, enquanto o contrato de crédito do BES visa disponibilizar uma linha de 8,75 milhões de euros para projectos de microcrédito e empreendedorismo.

O acordo assinado pelo BPI permite às empresas acederem ao crédito em condições mais favoráveis devido ao facto de ser suportado por uma garantia de 50% oferecida pelo FEI, ao abrigo do Instrumento Financeiro de Partilha de Risco (RSI), uma iniciativa do Grupo Banco Europeu de Investimento e da Comissão Europeia. Trata-se do primeiro acordo RSI em Portugal e do décimo a nível europeu, correspondendo a um financiamento total disponível para empresas inovadoras de cerca de mil milhões de euros.

Já o contrato de crédito celebrado entre o FEI e o BES tem como principal objetivo potenciar o incremento do microcrédito por parte de microempresas, trabalhadores por conta própria ou desempregados. Os créditos a disponibilizar nesta linha limitam-se a 25 mil euros por entidade/promotor.

Caso de Chipre é “inexplicável”

Questionado sobre a forma como os responsáveis europeus, sobretudo, o presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem, lidaram com a crise em Chipre, Ricardo Salgado não poupou críticas. E disse concordar com Angela Merkel que, na segunda-feira, afirmou em Berlim que as elevadas taxas de juro praticadas na economia real em países como Portugal criam o risco de uma crise de crédito, atrasando a sua recuperação económica. “Merkel tem toda a razão”, sublinhou o líder do BES, acrescentando que “a descoordenação na Europa contribui para isso [aumento do risco de uma crise de crédito nos países mais fragilizados da zona euro]”.

E apontou para o caso de Chipre. “Vejam o que aconteceu em Chipre: é inexplicável, totalmente inexplicável, e criou uma instabilidade enorme nos países da Europa do Sul. Portanto, os spreads de crédito em relação aos países da Europa do Sul, Portugal inclusive, voltaram a subir, por causa de uma descoordenação”, frisou. “O presidente do Eurogrupo disse uma coisa e o presidente do Banco Central Europeu (BCE), felizmente, atacou o problema”, afastando a possibilidade de a medida negociada no resgate a Chipre de taxar os depósitos ser aplicada noutros países intervencionados, salientou o banqueiro.

“Agora, a senhora Merkel também sabe muito bem que tem uma solução na manga que pode resolver essa equação, que são as eurobonds [títulos de dívida europeus]”, lançou Salgado. “No dia em que houver eurobonds, sabendo que é preciso avançar mais dentro da consolidação europeia, e haver um compromisso mais forte e mais firme dos países europeus com o cumprimento das regras do défice e do endividamento, mas, logo que isso for possível, vamos ter umas taxas de juro que condizem com uma União Europeia e Monetária”, considerou, acrescentando que, neste momento, na União Europeia e Monetária, “há países que estão a ser altamente penalizados pelas taxas de juro, nomeadamente, Portugal”.

Em Berlim, numa intervenção na Associação Alemã de Bancos (BdB, na sigla em alemão), Angela Merkel apontou para as diferenças existentes nos mercados de crédito entre os vários países europeus que aderiram à moeda única, quer ao nível das dívidas soberanas, quer em termos dos empréstimos comerciais, numa fase de fraco crescimento na zona euro. E disse, citada pela agência Bloomberg, que as altas taxas de juro cobradas junto da economia real em países como Portugal criam o risco de uma crise de crédito, que colocará entraves à recuperação económica dos países mais afectados pela crise na zona euro.

Salientando que o euro é do "interesse fundamental" da Alemanha, Merkel sublinhou que a solidez das finanças públicas e as medidas de incentivo ao crescimento económico devem andar de mãos dadas nos países da zona euro.