Portugal foi o país periférico onde as previsões do défice mais falharam

Na Grécia e na Irlanda, as previsões feitas pela troika há um ano estão para já a cumprir-se, tanto para o défice como para a dívida. No caso português, a troika tem vindo a admitir mais derrapagens.

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Portugal foi, durante o último ano, o país entre os que estão sujeitos a um programa de ajustamento da troika que mais falhou as suas projecções para o défice público e a dívida.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) – que faz actualmente as suas estimativas para as finanças públicas portuguesas no âmbito das negociações do programa de ajustamento entre a troika e o Governo – aponta na sua publicação semestral Fiscal Monitor, publicada esta terça-feira, para um défice público em Portugal de 5,5% este ano. Este é o valor acordado precisamente na sétima avaliação do programa concluída em Fevereiro.

Há seis meses, o valor previsto na mesma publicação do FMI era de 4,5% e há um ano de 3%. Revisões muito significativas das metas do défice que têm vindo a ser acordadas entre o Governo e troika à medida que vão sendo evidentes as dificuldades para atingir os objectivos traçados inicialmente.

No entanto, fazendo a mesma análise para os outros países sujeitos a um programa de ajustamento, os resultados não são os mesmos. Na Irlanda, a previsão para o défice deste ano é, no relatório publicado ontem, de 7,5%. A previsão apresentada pelo FMI há seis meses era exactamente a mesma, enquanto há um ano se apontava para 7,4%.

No caso grego, com Atenas a ser várias vezes criticada por não cumprir as medidas do programa, as metas para o défice deste ano parecem estar a ser cumpridas. A previsão é neste momento de um défice de 4,6%, exactamente a mesma que era feita há um ano.

Para Chipre, que também está a gora sob um programa de ajustamento, o FMI não apresentou previsões "devido à actual crise".

Em 2012, o falhanço de Portugal nos objectivos do défice também foi maior do que o dos seus parceiros da periferia. O valor final calculado pelo INE e Eurostat foi de 6,4%, após diversas correcções aos dados inicialmente reportados pelas Finanças. Há um ano, a troika apontava para 4,5%.

Na Irlanda, o valor final do défice foi de 7,7%, contra uma previsão de 8,5% um ano antes. E na Grécia foi de 6,4%, um resultado melhor do que os 7,2% iniciais. Para a dívida pública, os resultados são semelhantes. O valor registado por Portugal - de 123% do PIB - ficou 3,9 pontos percentuais acima do previsto um ano antes. Uma diferença bastante maior do que a dos outros países.

Em Espanha e Itália, dois outros países que já estiveram sob forte pressão para pedirem um resgate, as previsões feitas pelo FMI há um ano para o défice em 2013 não foram também alvo de uma revisão tão profunda neste último relatório.

Analisados todos os 30 países classificados como avançados pelo FMI no seu relatório, só a Eslovénia - que tem registado problemas graves nos últimos meses que podem forçar o país a pedir um resgate - levou o FMI a uma correcção mais profunda da meta do défice de 2013, de 4,2% para 6,9%.

Além do Fiscal Monitor, o FMI apresentou também ontem o World Economic Outlook, onde dá a conhecer as suas projecções económicas para o planeta.

Para os países onde a troika está presente, a capacidade do FMI para antever a evolução da economia tem sido, no último ano, nula. Há um ano, estava a apontar para 2013 como o início da recuperação. A Grécia conseguiria uma variação nula do PIB, Portugal cresceria 0,3% e a Irlanda 2%. Os resultados são, decorridos três meses e meio do ano, bastante decepcionantes. Afinal, a Grécia terá o seu PIB a recuar mais 4,2%, a economia portuguesa cairá 2,3% e a Irlanda crescerá, mas apenas 1,1%.

Recentemente, o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, reconheceu a existência de erros nas previsões, especialmente no cálculo do impacto da austeridade na economia.

Agora, o FMI volta a apostar numa retoma relativamente breve, a começar em 2014 nestes três países. Portugal e Grécia crescerão em 2014 a uma taxa igual, de 0,6%, diz o FMI, que mostra pouca confiança na capacidade portuguesa para crescer no médio prazo. Para 2018, projecta um crescimento anual de 1,8%, menos do que os 2,7% da Irlanda e os 3,3% da Grécia.