Crítica

Viagem contra o silêncio

O novo romance de Patrícia Reis é uma viagem para gerir o medo da perda entre uma mãe e um filho que estão a deixar de se conhecer

Há uma mulher e o seu filho. Os dois em silêncios não partilhados. Ela, viúva, mãe de outro filho. Ele, órfão, irmão mais velho de um rapaz. A mulher chama-se Maria. O filho chama-se Pedro. No silêncio de cada um, e que cada um gere como pode, os dois confrontam-se na violência do não dito. Este é o ambiente de Contracorpo, o sétimo romance de Patrícia Reis (Lisboa, 1970). Aqui, como em livros anteriores, a escritora opta pela narrativa a mais do que uma voz. No caso duas. Maria e Pedro. Ela, uma mulher de 40 anos, ele um rapaz de 15. E ela fala dele na terceira pessoa, como se o contasse e com isso se contasse a ela nessa relação que quer aprender a gerir. Ela fala de si com distanciamento. Não é um eu. Há uma identidade mais complexa. A de alguém na dependência do outro. Ela é sempre em relação a alguém. Em relação a Pedro, a Simão, o filho mais novo, à mãe, ao pai, aos dois irmãos, Rodrigo e Miguel, ao marido, Francisco, que morreu antes de tempo. “Há momentos do dia em que não pensa nele. Está escudada por tarefas minúsculas que não são invejáveis. Ocupam espaço. Mantêm o cérebro ligado a outra realidade. Pessoas que falam, problemas por resolver, papéis, reuniões. As reuniões não são boas, consegue distrair-se com facilidade e, de repente, há uma SMS que a alerta para a existência dele. Ele, lá fora no mundo. De que tem medo? De o perder. (…) “Dói-lhe a falta de paz interior de o ver perdido, alheio a ela.”

Apresenta-se Maria, depois de uma epígrafe que, lido o livro, funciona como uma boa súmula de tudo o que vai por estas pouco mais de 200 páginas de um livro rápido, leitura ritmada num suspense bem trabalhado. Marguerite Duras terá resumido esta trama em 1994 e Patrícia Reis chamou-a aqui, antes de tudo o que escreveu. “Sou a única a amar o meu filho, a compreendê-lo verdadeiramente, e mesmo através das cenas, dos gritos, continua sempre a ser amor. Se eu morrer, ele será muito infeliz. Com ele, partilho a mesma loucura, a mesma violência, o mesmo amor.” É assim, mas é como se nem Maria nem Pedro o soubessem. Ela sabe pouco dele, “ele também não sabe quem eu sou, pensa ela”. E aqui uma nuance. Os diálogos, os pensamentos, são intermediados por um narrador que tudo sabe.

Pedro é um eu. Tem uma identidade própria. Ele conta: “A mulher está morta e eu, mesmo dentro do sono, sei que ela está morta. A morte não se diz, sente-se e eu sei que, apesar de tudo, é evidente que o coração dela parou e que os seus olhos não me vêem. Não se apercebe da minha presença. Mas estou ali. Tal como ela. Um corpo. A mulher é apenas um corpo.” A mulher é a mãe num sonho mau. E tanto a mãe como Pedro andam a lidar com o mesmo medo sem que um saiba do medo do outro. A perda. Eles que já perderam e se fecharam depois dessa dor. O marido dela, o pai dele. Ele fechou-se no quarto, ouve música, está no computador, desenha, esqueceu a escola, perdeu o ano. Ela trabalha, desespera ao telefone em desabafos com a mãe, culpa-se de um casamento que até pensou que foi bom, enquanto durou não o questionou. Ri com o filho mais novo. Suporta a chefe e quer resgatar o filho. Reconstruir-se. Planeia uma viagem em conjunto sem um destino determinado. Sabe que têm de conversar, ou pelo menos de tentar, e ela ainda tem autoridade sobre ele e usa-a quando o manda pôr roupa numa mala, esquecer o iPod, o telefone, o computador. Serão só eles num carro velho a medirem-se mutuamente num cálculo que tem tudo para dar errado. As idas ao psicanalista, de um e do outro, nunca resolveram o que esta viagem haverá de ser capaz. “Para que serve esta viagem?”, pergunta Pedro a Maria. “Para negociarmos”, responde-lhe ela. Negociar o espaço comum que terão de partilhar, sozinhos, para já num carro em silêncio.

O que se segue é a aprendizagem do outro. E nenhum é piegas nesse processo onde o primeiro nó se desata na neve, em Andorra. Os dois são capazes de rir da mesma coisa. Será um sinal? Nunca se adivinha. Patrícia Reis movimenta as suas personagens com pinças num trabalho de escrita rigoroso onde nunca há emoção a mais ou lá se iria a emoção. Esse é um dos grandes méritos deste romance. A calma e a suavidade da exposição dos afectos. A angústia gerada no leitor deve-se a essa enorme contenção. São muitos os espaços em brancos, os parêntesis que se abrem e que cada dos que lêem preenche como sabe ou pode, como os que narram. O silêncio deles também é o de cada um que lê e nunca chega a ser insuportável. Apenas incómodo. Contracorpo é essa luta, a maior e a mais violenta: a de dois corpos, da mãe e do seu filho, que desaprenderam de se conhecer. Contracorpo é também o melhor dos livros de Patrícia Reis.