O desperdício

A indignação não tem limites quando se observa as autoridades políticas na UE agirem com absoluta indiferença, sob a influência de uma doutrina económica estreita e obsoleta, permitindo que existam cerca de 26 milhões de desesperados à procura de trabalho. A gritante pobreza é de tal dimensão que só a cegueira ideológica permite que estes ignaros consigam dormir tranquilos. Trata-se de uma situação absolutamente insustentável que está a conduzir à miséria económica generalizada e que resultará na radicalização política dos mais vulneráveis, ressuscitando, assim, os fantasmas europeus. Contudo, Mario Draghi está contente porque tem conseguido adiar a ruptura inevitável e Merkel está feliz porque tem as próximas eleições ganhas em resultado da falsa propaganda germânica culpabilizadora dos preguiçosos vizinhos periféricos que merecem ser castigados. She is the one for the task.

Todavia, que imenso desperdício representa o desemprego para a sociedade! Já imaginaram a explosão económica que representaria colocar estes milhões de pessoas a trabalhar? É precisamente com estas pessoas e com estas empresas sem ocupação que se deve procurar a solução para a saída da crise. Se há trabalho para fazer e pessoas para o fazer, porque não juntá-los? É absolutamente ridículo afirmar que não se poderá pagar estes novos investimentos. Todavia, é com estes milhões de desempregados que seremos capazes de os pagar. Quando existem milhões de pessoas sem trabalho e empresas paradas sem encomendas e, simultaneamente, existe mais poupança do que aquela que se está a ser utilizada, então é uma imbecilidade afirmar que não existe dinheiro. A implementação de um audacioso programa de criação de emprego sairá muito mais barato do que os recursos desperdiçados em subsídios de desemprego, devido ao efeito multiplicador. Ou seja, os novos empregos custariam muito pouco, pois, para além de melhorarem a confiança dos empresários, dado que aumentariam os seus investimentos em função da nova procura e do novo poder de compra, seriam também potenciadores de novos empregos que gerarão mais receitas fiscais para o Estado e, por aí adiante. A grande actividade económica gerará mais actividade económica. Acresce que se trata de um espantoso desperdício de recursos gastar biliões de euros em ociosos subsídios de desemprego, quando estes poderiam ser canalizados para investimentos que produzissem emprego e crescimento económico. Não! Não se trata de negar subsídios de desemprego, trata-se, isso sim, de uma questão de maior eficiência na consecução da criação de emprego.

Por outro lado, a situação de desemprego representa um incomensurável desperdício na perda de ânimo, identificação e auto-estima. Lamentavelmente, esta depressão tem sido provocada pela extraordinária ignorância e estreiteza de horizontes dos dirigentes políticos, nomeadamente, na teimosa fixação da taxa de câmbio que se traduz, sobretudo, no valor insustentável do euro, o que torna as empresas europeias (em particular as portuguesas) cada vez menos competitivas face às empresas dos BRIC. A teimosa obstinação alemã de manutenção de um euro forte é cada vez menos defensável no actual contexto de globalização face à constante desvalorização do dólar (quantitative easing) e do hiperdesvalorizado yuan. Desta maneira, a imposição desta ortodoxia fundamentalista durante os últimos oito anos resultou na devastação económica e perda de milhões de postos de trabalho na UE. O BCE deverá adoptar uma estratégia mais flexível relativamente à paridade do euro com aquelas moedas, permitindo mesmo que a inflação possa subir até aos 4%. "Obviamente nada poderá repor o emprego que não comece por repor os lucros das empresas. Contudo, em minha opinião, nada pode repor os lucros das empresas que não comece por repor o volume de investimento" afirmava Keynes.

Assim, é necessário que a UE aumente o investimento em simultâneo com uma redução das taxas de juro de longo prazo. Nesta fase da depressão, não só será melhor viver com o défice (do que tentar resgatá-lo cortando rapidamente na despesa), como a cura está no BCE, pois este tem o remédio para impedir a paragem e consequente falência maciça de empresas. Neste sentido, acrescenta Keynes, ainda "há hoje muitos que acreditam que a coisa mais útil que podem fazer é poupar mais do que o costume. Porém, nas actuais circunstâncias isso é errado. Se todos pararmos de gastar os nossos rendimentos, acabamos todos sem trabalho, pouco tempo depois não teremos rendimento e no final morreremos todos de fome".

Professor universitário