Isto é Bollywo... perdão, Tollywood a filmar em Lisboa, Algarve e Cascais

Shruti Haasan faz parte da realeza de BollywoodRavi Teja e quatro bailarinos no Castelo de São Jorge, em Lisboa, nas filmagens de Balupu
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Shruti Haasan faz parte da realeza de BollywoodRavi Teja e quatro bailarinos no Castelo de São Jorge, em Lisboa, nas filmagens de Balupu Daniel Rocha

São apenas duas cenas musicais de Balupu, a primeira de várias rodagens em Portugal de cinema indiano. O Turismo quer ganhar, a produção portuguesa já está a ter algum trabalho e em Maio há mais

Os quatro bailarinos podiam ser turistas indianos no miradouro da Senhora do Monte, na Graça, Lisboa atrás das costas enquanto dançam com a ginga inconfundível que vai da cintura com trejeitos mecânicos para os ombros e pescoço. Óculos escuros e T-shirts com o Galo de Barcelos versão Angry Birds - o Angry Rooster -, cachecol de Portugal amarrado num poste. Mas no centro deles está Ravi Teja, um dos mais importantes actores da Índia, e o playback denuncia-os: o que o casal de turistas vê de uma varanda próxima é Portugal à moda de Bollywood. E em Maio e Junho há mais.

Balupu é uma comédia romântica e também um filme de acção e duas das suas músicas, ingrediente essencial na alquimia do gigantesco cinema indiano, estão a ser filmadas em Portugal. "Muitas vezes as partes musicais são filmadas fora da Índia, para mostrar ao público imagens de sonho", diz ao PÚBLICO Shruti Haasan, actriz que faz parte da realeza de Bollywood. É a atarefada filha de 27 anos do famoso actor Kamal Haasan, a rodar cinco filmes em simultâneo, entre os quais Balupu, em que é alvo da cobiça apaixonada de Ravi Teja, de 47 anos. Meneia-se quando dança frente à câmara, para depois se fotografar frente aos graffiti das escadinhas da Travessa das Terras do Monte, a sua versão do exotismo português.

O Google, como nota o secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, já sabe disto tudo e a Índia está alerta: "Ravi Teja romancing Shruti Haasan in Portugal", escreve o Times of India. E a ideia parece ser essa: trazer mais turistas indianos a Portugal. Pelo caminho, traz-se trabalho à produção de cinema portuguesa. O Turismo de Portugal e a Secretaria de Estado do Turismo estão desde Novembro de 2012, quando a então secretária de Estado Cecília Meireles chefiou uma missão de empresários do sector à Índia, a seduzir agentes de Bollywood. Para "tornar Portugal um destino e cenário preferencial para filmes de Bollywood e incrementar a chegada de turistas indianos", explica ao PÚBLICO Adolfo Mesquita Nunes.

Passaram 34 anos sobre a última rodagem de cenas de um filme indiano em Portugal, O Grande Jogador, mas os tempos são outros. "Os cenários das produções de Bollywood têm sido um importante factor de decisão e influência nas férias dos turistas indianos, porque estas produções dão uma enorme relevância à paisagem", explica o secretário de Estado do Turismo, citando o caso de Espanha. Zindagi Na Milegi Dobara (Só se vive uma vez, 2011) levou a "um crescimento significativo dos turistas indianos" no país de Almodóvar. E, como diz sem pruridos o goês Rengarajan Jaiprakash - o line producer que liga locais a produtores e que fez Balupu acontecer em Portugal -, "há muito dinheiro na Índia agora".

Há quatro dias em filmagens intensas em Lisboa com a portuguesa Cinemate, empresa de material de cinema e de produção, a equipa de Tollywood é uma máquina de rodar cenas em inúmeros locais em tempo recorde. Tollywood, isso mesmo, e não Bollywood - o país, com 1,2 mil milhões de habitantes, todo um subcontinente, tem uma indústria de cinema que lança perto de 800 filmes/ano com centro negocial em Bombaim (que põe o "B" em Bollywood), mas cada região tem a sua fatia da produção. Neste caso, Tollywood é o Sul, onde se fala telugu.

Esta curta visita, dez dias de trabalho para 22 pessoas da Cinemate e freelancers, são cerca de 60 mil euros para a equipa portuguesa. Com o aluguer do equipamento - uma vantagem que os indianos valorizam e tem os preços praticados na Índia -, e logística assegurada pela Cinemate, além da vinda de um grupo bastante mais pequeno em Fevereiro para pré-produção, a quantia ascende aos 300 mil euros, diz ao PÚBLICO a produtora Ana Costa. "É óptimo termos equipas a funcionar", diz, referindo-se à quase paralisação do cinema em 2012 por falta de apoios estatais. "Tomáramos nós ter todos os meses uma produção indiana." "Objectivos coincidentes" das secretarias de Estado do Turismo e da Cultura, "com cenários diferentes", diz Adolfo Mesquita Nunes.

O Turismo de Portugal contabiliza 150 mil euros de investimento (dos 6,5 milhões do orçamento total de Balupu) dos indianos só nesta primeira rodagem, além da geração de cerca de 200 dormidas pela equipa. A entidade, através de parcerias, organiza as viagens para os agentes e é "um facilitador" que põe cinema e instituições, embaixadas, câmaras e film commissions incluídas, em contacto, explica Mesquita Nunes.

"O investimento público que fizemos até agora foi... nenhum", diz o secretário de Estado do Turismo. Não revela mais sobre novas filmagens indianas - mas Rengarajan Jaiprakash, um dos mais importantes gestores de logística internacional do cinema indiano através da sua AA Globe Services, volta já em Maio para mais duas.

O equipamento oficial do Benfica que no fim-de-semana foi trazido para os actores não foi visto no Castelo de São Jorge, onde desde a vista-postal sobre o Tejo até às escadas de São Lourenço se continuava a dançar ao início da tarde de ontem. Jaiprakash fala-nos da rodagem de doze dias que virá em Maio, também com a Cinemate, que agora é representada pela AA Globe na Índia, e de um projecto de quatro semanas para Junho.

Quanto a Balupu, que hoje viaja para Lagos e terminará filmagens em Cascais, contém agora um aglomerado da Lisboa turística. Coreografias na Torre de Belém, no Cristo-Rei e no Elevador de Santa Justa com os visitantes a aplaudir o espectáculo dado pelos 38 indianos, muitos dos quais bailarinos (há também dez bailarinos portugueses). Com a rapidez de Bolly... aliás Tollywood, o filme realizado por Gopichand Malineni estreia já no fim de Maio na Índia.