CP quer pôr na Linha do Vouga automotoras consideradas inseguras por peritos

Relatório de técnicos suíços que investigaram o acidente de 2008 na Linha do Tua apontam falhas de segurança aos Light Rail Vehicles.

A Cp quer reduzir custos de operação na Linha do Vouga
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A Cp quer reduzir custos de operação na Linha do Vouga Adriano Miranda
As automotoras que circulavam no Tua estiveram envolvidas em vários acidentes graves
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As automotoras que circulavam no Tua estiveram envolvidas em vários acidentes graves Nelson Garrido

A CP pretende afectar à Linha do Vouga os Light Rail Vehicles (LRV) que circulavam nas linhas do Tua, Tâmega e Corgo. Mas foram precisamente os LRV que estiveram envolvidos nos acidentes da Linha do Tua em 2008 e 2009, tendo sido alvo de alertas sobre as suas deficiências em matéria de segurança por parte de especialistas suíços.

A CP pretende afectar à Linha do Vouga os Light Rail Vehicles (LRV) que circulavam nas linhas do Tua, Tâmega e Corgo. Mas foram precisamente os LRV que estiveram envolvidos nos acidentes da Linha do Tua em 2008 e 2009, tendo sido alvo de alertas sobre as suas deficiências em matéria de segurança por parte de especialistas suíços.

Num relatório a que o PÚBLICO teve acesso, sobre o descarrilamento de Brunheda (Carrazeda de Ansiães) em 22 de Agosto de 2008, no qual morreu uma pessoa, os técnicos dos caminhos-de-ferro suíços dizem que estas automotoras são muito leves e têm o peso mal distribuído, o que as pode levar a descarrilar, em determinadas circunstâncias. O mesmo relatório conclui também que "a suspensão primária não garante a correcta atenuação do balanceamento do veículo, por ser muito rígida", e que há uma diferença significativa do peso do bogie (conjunto de rodados) da frente do veículo e do bogie do motor, que está na parte de trás.

Foi na sequência deste acidente, envolvendo um LRV, que a Refer e a secretária de Estado dos Transportes de então, Ana Paula Vitorino, decidiram, subitamente, encerrar também as linhas do Tâmega e do Corgo em 2009. Em causa estava a não-adequação destas automotoras à infra-estrutura existente, que, por sua vez, também se encontrava degradada.

No início desta semana, arrancaram os testes com este tipo de automotoras na Linha do Vouga, "em colaboração estreita entre a CP e a Refer, sob coordenação do Instituto Superior Técnico, com o objectivo de poder analisar e chegar a conclusões sobre o funcionamento e comportamento deste material", disse ao PÚBLICO fonte oficial da transportadora. Os ensaios vão prolongar-se por mais duas semanas.

Questionada sobre as falhas de segurança apontadas pelos suíços aos LVR, a mesma fonte disse que "foram retiradas as devidas conclusões, tendo como base este e outros relatórios de universidades e institutos".

A escolha de peritos da Suíça para investigar o descarrilamento de 2008 no Tua deveu-se ao facto de aquele país possuir uma extensa rede de linhas de via estreita, sobretudo na zona dos Alpes, e de os seus técnicos possuírem know how para avaliarem o acidente ocorrido numa linha de montanha, como era o caso daquela via transmontana.

Os LRV são automotoras reconstruídas nos anos 90 pela EMEF (Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário) a partir de material que a CP comprara, já em segunda mão, na década de 70, à Jugoslávia. Nas oficinas de Guifões (Porto), as velhas automotoras jugoslavas foram praticamente desmontadas, mantendo apenas o leito (estrutura metálica). Foram reequipadas com carroçarias ligeiras, motores, janelas, assentos e uma nova cabina de condução. O resultado foi um "autocarro sobre carris", um veículo mais leve e de operação mais económica. Os primeiros entraram ao serviço no Metro de Mirandela.

A CP dispõe de oito unidades (perdeu uma num dos acidentes no Tua), das quais quatro estão afectas ao Metro do Mirandela. Com o encerramento das linhas de via estreita em Trás-os-Montes, estes veículos ficaram sem serviço, propondo-se agora a empresa usá-los na Linha do Vouga, substituindo as automotoras que ali prestam serviço, que são mais pesadas e têm maiores custos de exploração.

Os peritos suíços sugerem, como medidas susceptíveis de reduzir os riscos identificados, que estas unidades circulem sempre com outra acoplada (e não isoladas, como era frequente no Tua, Tâmega e Corgo), que sejam dispostas de forma a que os bogies mais pesados fiquem nas extremidades, e que seja dada particular atenção à lubrificação dos componentes das rodas.