Ir para o trabalho põe 6.100.000 kg de CO2 no ar

Cerca de um quarto das emissões dos transportes ocorrem quando os portugueses vão para o emprego e para a escola.

Se vive no Barreiro, guarde esta imagem: quando vai para o trabalho ou para a escola, cada trabalhador ou estudante do concelho adiciona em média à atmosfera 1,5 quilos de dióxido de carbono - o vilão do aquecimento global. É o município com maiores emissões de CO2 por deslocação pendular em todo o país, segundo contas feitas a partir de dados dos Censos 2011.

A história pode, porém, ser contada ao contrário. O Barreiro é o concelho em que há maior percentagem de movimentos casa-trabalho e casa-escola feitos em transportes públicos, em que há mais pessoas a andarem de barco e o segundo que menos depende do carro. É um bom exemplo da complexidade de factores, e de leituras, que envolve a contribuição da mobilidade urbana para as alterações climáticas.

Cálculos que levam em conta os modos de transporte, as quantidades de CO2 que cada um liberta e os tempos médios das deslocações (ver metodologia na infografia) sugerem que sempre que os trabalhadores e os estudantes do país saem de casa, cerca de 6.100.000 quilos de CO2 são libertados. Contando com o regresso, os chamados movimentos pendulares - que não incluem uma série de outras deslocações urbanas, nem camiões, táxis, carros de serviço, aviões ou navios - representam quase um quarto (24%) das emissões dos transportes em Portugal.

Os Censos 2011 mostram que a proporção de trabalhadores e estudantes que dependem dos transportes públicos caiu de 25% para 20% desde 2001. Andar a pé também tem menos adeptos - de 25% para 16%.

O que subiu mesmo foi o uso do automóvel, de 46% para 62%. "Estes números de Portugal mostram uma história que já vimos no resto da Europa", afirma João Vieira, presidente da Transport & Environment, uma plataforma não-governamental europeia em prol da mobilidade sustentável.

Centro com mais carros

Em Portugal, é na Região Centro que a necessidade do carro particular é maior, com 70% dos movimentos pendulares, segundo os Censos. Os três concelhos no topo da lista no país são Condeixa-a-Nova (82%), Batalha (80%) e Leiria (76%). E são também os que têm mais emissões de CO2 por quilómetro percorrido nos movimentos pendulares (entre 145 e 146 g/km), segundo os números a que o PÚBLICO chegou, em colaboração com a consultora em mobilidade Izimoove.

As emissões por quilómetro e as emissões por deslocação são dois indicadores que, combinados, apontam para situações muito variadas. Nem sempre estão alinhados no mesmo sentido. Seixal e Almada, na Margem Sul do Tejo, por exemplo, estão entre os que menos emitem por quilómetro (113 e 116 g/km), mas entre os que mais emitem por deslocação (1385 e 1325 g/viagem). Têm uma dependência do carro abaixo da média (51% e 49%) e são dos melhores em transportes públicos (33%). Mas acabam penalizados pelo tempo médio de deslocação (30 e 29 minutos), que indica sobretudo que os seus cidadãos trabalham longe de onde vivem.

O Barreiro está na mesma situação, sendo o concelho que tem o maior tempo médio de deslocação (33 minutos). "Isto está mais do que identificado", afirma Rui Lopo, vereador do Planeamento e Urbanismo na câmara municipal. O efeito da distância reduz o impacto positivo de outros factores, como a existência de um serviço municipal de transportes públicos, com 68 autocarros, com carreiras dirigidas às necessidades dos cidadãos e que, segundo Lopo, não dá prejuízo.

Bernardo Alves, da Izimoove, acrescenta outro dado. Os barcos do Tejo, não pelo modo de transporte em si, mas pelos equipamentos utilizados e pelo seu nível de ocupação, acabam por ter uma emissão elevada por cada passageiro transportado. "Se a ocupação fosse maior, seria mais vantajoso em termos da sua competitividade carbónica", diz.

Grandes zonas urbanas compactas e bem servidas por transportes públicos tendem a apresentar bons índices. O Porto é o 39º. - em 308 concelhos - com as emissões mais baixas por quilómetro (127 g/km). E está mais ou menos a meio da tabela nas emissões por deslocação (909 g/viagem). O tempo médio de cada movimento pendular praticamente iguala o da média nacional (20 minutos).

Por três minutos, Lisboa sai-se pior. As emissões por quilómetro até são menores (120 g/km), mas as distâncias são maiores e o resultado é um valor mais elevado de CO2 por deslocação (1004 g/viagem).

No extremo mais sustentável desta lista está o Corvo, nos Açores. Dos seus 259 trabalhadores e estudantes, 181 deslocam-se a pé (70%). É o suficiente para fazer da pequena ilha - com seis quilómetros de comprimento e quatro de largura - o ponto do país com menores emissões de CO2 nos movimentos pendulares (111 g/km e 186 g/viagem).

Os dados dos Censos não contam, no entanto, toda a história. Especialistas em transportes dizem que os movimentos pendulares representam as "inércias pesadas", ou seja, deslocações que estão sempre lá. Mas os cidadãos também vão às compras, ao cinema, ao médico, ao futebol, à casa de amigos. "Em Lisboa, as deslocações obrigatórias representam em torno dos 60% do total", afirma Fernando Nunes da Silva, vereador na Câmara Municipal de Lisboa e investigador do Instituto Superior Técnico.

Idealmente, diz Nunes da Silva, os dados dos Censos deveriam ser complementados com inquéritos de cinco em cinco anos. "A mobilidade muda mais rapidamente do que os dados demográficos", justifica.

Saber os detalhes

Algumas autarquias têm feito este trabalho. Em Almada, um inquérito foi realizado em 2006 e será repetido agora em 2013. "O nosso sector principal de emissões de CO2 são os transportes. É importante saber os detalhes", explica Catarina Freitas, directora do departamento municipal de Estratégia e Gestão Ambiental Sustentável. Os resultados serviram, por exemplo, para a criação do sistema Flexibus, que liga áreas residenciais nas zonas históricas aos pólos comerciais e funcionais da cidade.

Um trabalho semelhante foi feito para as freguesias de cinco concelhos da península de Setúbal - Barreiro, Moita, Palmela, Seixal e Sesimbra - que estão na área de influência de uma eventual terceira travessia do Tejo em Lisboa. O estudo permitiu saber que, de todas as deslocações efectuadas, 42% são para o trabalho e 6% para a escola. A maioria restante tem outros fins: em serviço (13%), visitar amigos e familiares (11%), lazer (11%), compras (7%), refeições (7%) e levar ou buscar membros da família (3%).

Uma nova ponte no Tejo, se vier a ser construída, possivelmente alterará o impacto carbónico dos movimentos pendulares da Grande Lisboa, e certamente os do Barreiro. Mas sem qualquer efeito no modo de transporte mais sustentável, além do próprio pé: a bicicleta. Os campeões das duas rodas estão na zona de Aveiro, com Murtosa à frente (17% das deslocações), seguida por Ílhavo (10%) e Estarreja (7%).

Apesar de a média nacional ser baixa (0,5%), João Vieira, da Transport & Environment, acredita que há uma tendência de mudança em marcha: "Nos próximos Censos, a minha expectativa é de que isso vá mudar".