Bandeiras republicanas e cartazes contra o rei nas ruas de Madrid

Dezenas de milhares de pessoas, incluindo muitos jovens, marcharam pela republica um ano depois da foto do safari no Botswana

Bandeira republicana e cartaz contra a monarquia na Porta do Sol
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Bandeira republicana e cartaz contra a monarquia na Porta do Sol Susana Vera/Reuters

Todos os anos há manifestações a assinalar o aniversário da II República em Espanha. A deste domingo foi diferente: foi a mais numerosa em muito tempo e a que teve mais jovens, escreveram os jornais. Aconteceu num momento em que a monarquia é questionada como nunca e, por isso, apesar de “predominarem as bandeiras republicanas, também foram numerosos os cartazes que pediam o fim da monarquia e o direito do povo a decidir”, diz o El País.

O diário Público sublinhou a presença de milhares de jovens na maior marcha, em Madrid: “cidadãos que cresceram como actores políticos num Estado democrático”, a quem nunca “ninguém perguntou se preferiam monarquia ou república”, mas que sempre ouviram que “Juan Carlos fez muito pela democracia” sem o terem visto. Jovens que “se fizeram adultos com os escândalos”.

Dezenas de milhares de pessoas marcharam no centro da capital numa iniciativa da Junta Estatal Republicana, que reúne dezenas de partidos (incluindo a Esquerda Unida) e movimentos. O coordenador da Esquerda Unida, Cayo Lara, defendeu um referendo sobre o Estado. “Não se trata só de mudar o chefe de Estado”, disse. “É preciso avançar na democracia, nos direitos, e tirar da Constituição o artigo 135 que garante o pagamento da dívida e não os direitos sociais dos cidadãos.”

 


O protagonista da manifestação foi o coronel Amadeo Martínez, o militar e historiador que em Março foi condenado por “injúrias ao rei” por causa de um artigo. Martínez é autor de vários livros sobre a Transição e o 23-F — o golpe de Estado fracassado de 1981, de onde vem grande parte da legitimidade da monarquia; Juan Carlos opôs-se e isso permitiu-lhe estabelecer a sua relevância.

 


“A república é tudo para mim. Um país moderno não se pode conceber sem república. Isto que temos tido todos estes anos é um pós-franquismo, não uma democracia. Não tem nada de legítimo”, disse Martínez, citado pelo Público espanhol. “Perante o perigo do Exército, o povo aceitou a monarquia como mal menor, mas agora mudou tudo. É o final de ciclo do regime juancarlista.”

 


Na edição de domingo, o El País publicou um artigo, O ‘annus horribilis’ começou a 14 de Abril no Botswana, a resumir as polémicas recentes que envolvem a Casa Real. A foto do rei a caçar no Botswana, numa altura em que Espanha estava perto de ter de aceitar um empréstimo externo, levou a um inédito pedido de desculpas do monarca e marca um antes e um depois. “Antes do Botswana era impensável abrir um debate sobre a abdicação e muito menos que fosse um deputado socialista, Pere Navarro, a fazê-lo”, escreve o jornal.

 


Já este mês, a infanta Cristina foi tornada arguida no caso de corrupção que envolve Iñaki Urdangarin, com a acusação a considerar que tinha de conhecer as actividades do marido. Depois disso, conclui o diário, “tudo parece indicar que para a monarquia espanhola o annus horribilis vai durar mais de 365 dias”.
 

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