Zangados, mas não por serem um dos maiores "megas" do país

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A dimensão das turmas preocupa mais do que a integração das escolas em grandes agrupamentos Enric Vives-Rubio

Com mais de 4000 alunos, o agrupamento de escolas de Queluz-Belas é o segundo maior do país. Para o seu responsável, é esse o problema: "Serem tantos." Mas não é isso, pelo menos para já, que os faz sofrer

Por momentos, a confusão instalou-se numa das turmas sobrelotadas da escola básica n.º 2 de Queluz. A coordenadora deste estabelecimento, Lurdes Santos, acabara de perguntar aos alunos daquela aula do 2.º ano, com idades entre os sete e os oito anos, quem era o senhor que entrara na sala com outros dois estranhos (os jornalistas do PÚBLICO). Apenas um dos 24 alunos presentes - tinham faltado dois - soube responder: "É o presidente."

Lurdes Santos corroborou, deixando os outros boquiabertos primeiro, e logo depois imersos numa torrente de exclamações e perguntas: "Não é nada o presidente"; "O presidente? Mas qual presidente?"

José Brazão, de 55 anos, sorri. No ano lectivo passado, por esta altura, era "apenas" o director da Escola Secundária Padre Alberto Neto, em Queluz - 1700 alunos do 7.º ao 12.º ano, mais os que frequentavam, à noite, os cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA). Agora, a sua escola é a sede de um dos novos 307 grandes agrupamentos criados desde 2010, na sequência da fusão de outros já existentes, em alguns casos aos lotes de dois e três, com as escolas secundárias da sua área de influência. Brazão passou a ser responsável por 12 escolas, que vão do jardim-de-infância ao secundário, e mais de quatro mil alunos.

Como sucede com todos os novos agrupamentos, também este está a ser gerido por uma Comissão Administrativa Provisória (CAP), nomeada pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC). José Brazão é o seu presidente.

O novo agrupamento de escolas Queluz-Belas, criado em Maio passado, é o segundo maior do país em número de alunos. O primeiro está situado em Alcobaça.

O de Queluz, esclarece José Brazão, tem 4350 alunos, mais 246 do que lhe foram atribuídos oficialmente pelo MEC porque, para estas estatísticas das chamadas novas unidades orgânicas, não foram contabilizados os adultos que frequentam o ensino nocturno. Recentemente, eram 600, agora, com as restrições à abertura de cursos EFA impostas pelo MEC, estão reduzidos a pouco mais de 200.

Esta foi uma das razões que contribuíram para a redução drástica do número de professores contratados na Secundária Padre Alberto Neto: há dois anos, eram 50, hoje são dez.

As outras, diz, prendem-se sobretudo com a revisão da estrutura curricular, que entrou em vigor este ano lectivo, que levou ao desaparecimento das chamadas áreas não curriculares e à alteração das cargas horárias de várias disciplinas.

Por enquanto, frisa, as mudanças na secundária não têm tido origem na sua transformação em sede de um verdadeiro mega-agrupamento - estão à espera do despacho de organização do próximo ano lectivo para avaliar novos impactos. No ano que está perto do fim, dos 340 professores do agrupamento três ficaram sem turmas para ensinar, mas conseguiram colocação noutras escolas. Para conseguirem ter horário completo, oito dos docentes da secundária passaram também a ter de dar aulas na escola básica do 2.º e 3.º ciclo Galopim de Carvalho, que integra o novo agrupamento e fica a três quilómetros da sede. A proximidade entre escolas é uma das características que beneficiam os novos agrupamentos criados na área de Lisboa, por comparação a outros constituídos no interior do país.

No geral, aliás, José Brazão não tem ainda grandes malefícios a apontar à nova estrutura. E vantagens? Vê sobretudo uma, também sublinhada pelo ministério: "Os alunos vão poder fazer todo o seu percurso escolar, desde a pré até ao final do secundário, no mesmo agrupamento, quando antes tinham de circular por três diferentes, o que pode permitir um maior acompanhamento e conhecimento" das crianças e dos jovens. O problema é "serem tantos", acrescenta. Para ele, é esta a grande desvantagem da nova estrutura.

À espera dos exames

Sintra é o concelho mais populoso do país. Três dos cinco agrupamentos com maior número de alunos estão ali situados. A escola básica n.º 2 de Queluz fica mesmo ao lado da Secundária Padre Alberto Neto. Tem 600 e, por lá, o que gera preocupação também não é o "mega" em que passaram a estar integrados, mas sim as alterações que foram ditadas pelo MEC neste último ano.

Com o aumento do limite da dimensão das turmas, a maior parte das salas passou de 24 para 26 alunos. "Fiquei ainda com menos tempo para ajudar os meninos que mostram mais dificuldades", constata Ana Ester, professora do 2.º ano.

Aida Gonçalves, professora do 4.º ano, tem 20 a seu cargo. A turma é pequena porque dois alunos têm Necessidades Educativas Especiais severas. No princípio de Maio, à semelhança dos seus colegas, terão de realizar exames nacionais de Português e Matemática. É isso que preocupa aquela docente. Não compreende como pode o ministério exigir que crianças com dificuldades provocadas por défices cognitivos passem por esta experiência: "Só lhes vai provocar sofrimento."

Também está preocupada com o facto de os seus alunos serem obrigados a ir fazer exame a outro estabelecimento de ensino que não o seu e vigiados por professores que não conhecem. Os docentes do 1.º ciclo estão impedidos de realizar esta tarefa. "Vão ficar ainda mais nervosos".

No agrupamento, há 400 alunos que irão estrear-se em Maio nos exames do 4.º ano: metade fará as provas na secundária e a outra metade na Galopim Carvalho. Para minimizar estragos, a CAP do agrupamento já decidiu que os professores do 4.º ano estarão nestas escolas até as provas acabarem. Pelo menos os alunos poderão vê-los no intervalo. Nos próximos dias, todos os do 4.º ano irão também espreitar as escolas dos crescidos, onde irão realizar os exames.

Mas, nestas medidas de contenção de danos, não estão incluídos os docentes do secundário a quem competirá a vigilância das provas destas crianças de 10 anos e José Brazão também receia por eles e pelo resultado da experiência: "Não estão preparados para lidar com idades tão jovens."