Vamos a "Pârich"? Ou a "Páriss"?

Quem for de Algés para Belém, há-de encontrar do seu lado direito um vistoso edifício com o seguinte dístico, em letras grandes e brancas a erguerem-se da relva: Champalimaud Centre for the Unknow. Pormenor: se este centro tivesse sido edificado, por exemplo, na América Latina, chamar-se-ia certamente, Center for the Unknow. Porque "center" é a grafia usada nos Estados Unidos, do outro lado do Atlântico, e "centre" a usada em Inglaterra, do lado de cá. Ninguém tem ou teve, jamais, o mínimo problema com isso e, como se vê por cá, até os não anglófonos escolhem a grafia que mais lhes convém - ou simplesmente a que mais lhes apetece.

Outro exemplo. Peguemos numa palavra simples, conhecida de todos e com a mesma grafia em várias línguas: Paris. Se pedirmos a um lisboeta que a leia, ele dirá: "Pârich". Se fizermos a mesma experiência com um espanhol, dirá "Párís". Um brasileiro lerá "Páriss", um catalão "Párríss", um alemão "Párriss" e um francês, parisiense ou não, dirá "Párrí".

O que importa isto? Importa em dois sentidos. Primeiro, comprova (se ainda fosse preciso fazê-lo) que há divisões ortográficas naturais num mesmo idioma, derivadas da sua adopção por diferentes povos, que vão modelando a língua e criando novas variantes. Segundo, que uma mesma palavra é pronunciada de diferentes formas consoante os sistemas vocálicos existentes em cada país, distrito ou mesmo região. Paris não muda de grafia quando é pronunciada "Pârich" ou "Páriss", embora noutros idiomas tenha assumido forma gráfica diversa. Os italianos, por exemplo, escrevem Parigi.

Assim, não é por má vontade ou deficiência que um português lerá "ef"tivo" quando lhe põem à frente a palavra "efetivo", palavra que um brasileiro lerá como "êfétjivo". Isto é simples, muito simples, e qualquer criança percebe. Já "efectivo" obriga um português, pela presença do C antes do T, a abrir o E mesmo que o C não se "ouça" na fala. Não é uma regra arbitrária: é, além do respeito pela etimologia, pela raiz da palavra (do latim effectívu, ou "activo que produz"), o respeito pelo sistema vocálico próprio do português europeu.

Isto vem a propósito de duas coisas: a recente entrevista (ao PÚBLICO, 8 de Abril) de Francisco José Viegas (F.J.V.), escritor e ex-secretário de Estado da Cultura; e a edição da obra completa do Padre António Vieira com a aplicação do polémico acordo ortográfico de 1990 (AO90). Na entrevista, F.J.V. diz que lhe faz impressão tirarem um C a coleccionador. No entanto, o seu mais recente livro chama-se O Colecionador de Erva. Pelos vistos, ao contrário do que defendia outrora F.J.V., os escritores não são tão livres assim: o seu livro foi "transcrito" segundo as normas do AO90; e Vieira, séculos depois de morto, teve o mesmo tratamento. Ah, dirão, mas esta é a grafia unificada, aquela que vai ficar para o futuro! É? Não parece. Os autores do AO admitem que ele terá de ser revisto; Vieira não diz nada porque morreu há muito; e Viegas não só diz que haverá certamente alterações como acrescenta, na citada entrevista, que "é possível, dentro das várias comissões científicas, alterar o que quisermos". Extraordinário: estamos a imprimir livros numa grafia que vai ficar desactualizada muito mais depressa do que qualquer outra das que a antecederam; mais: que já está desactualizada no próprio momento da impressão porque os vocabulários e livros "acordeiros" não se põem de acordo entre si e as diferenças, além de muitas, são inacreditáveis. Portanto, corrigindo a frase: estamos a assassinar livros, dando-lhes uma ortografia errada, desconexa, incongruente e, às vezes, mesmo imbecil.

Dito isto, não era só com a grafia de "colecionador" que Viegas devia impressionar-se, mas sobretudo com a forma como os portugueses lerão a palavra: "col"cionador". Os brasileiros não terão esse problema, claro. Mas, como sabemos (e o próprio autor admite), no Brasil, "erva" quer dizer outra coisa, pelo que, em edições "lusófonas", o livro deveria "traduzir-se" talvez para "O Colecionador de Maconha" (Brasil), "O Coleccionador de Liamba" (Angola; e com dois CC porque o país não aplica o AO) e "O Coleccionador de Suruma" (Moçambique, que também não aplica o AO). É uma idiotice? Claro que é. Mas o AO é uma idiotice bem maior. A propósito: sabem que muitos materiais didácticos brasileiros falam das obras de "Padre Antônio Vieira"? Como se resolve isto numa obra una, hã?