O blues do deserto, segundo Bombino

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O encontro entre celebridades rock ocidentais e celebridades rock africanas nem sempre é garantia que daí saia qualquer coisa de entusiasmante. Por norma, esse tipo de reuniões acaba por resultar frustrante. Esta é uma das excepções.

Ao que parece, o cantor e guitarrista Dan Auerbach dos americanos Black Keys não descansou enquanto não se encontrou com Bombino, acabando por produzir o novo álbum deste. Omara Moctar, mais conhecido por Bombino, de 33 anos, nasceu no contexto de uma família de pastores nómadas tuaregues da região de Agadez, no Níger, tendo vivido grande parte da vida no exílio, na Argélia e Líbia. Na actualidade, é um dos mais importantes cantores e guitarristas do Sara e Sahel, tendo chegado aos ouvidos ocidentais há dois anos com o álbum Agadez, através de uma música que consegue ser, em paralelo, sensual, electrizante e hipnótica.

Quem já o viu em palco com a sua banda sabe que esse é o seu habitat natural. Dir-se-ia que em concerto a sua música ganha contornos de transcendência, percorrida por mantras rítmicos hipnóticos, sendo entrecortada por alucinantes solos de guitarra, por onde ecoam as influências da adolescência de Bombino, personificadas no blues ou rock de John Lee Hooker, Robert Johnson, Muddy Waters ou Jimi Hendrix.

O encontro entre os dois mestres da guitarra deu-se nos estúdios de Auerbach, em Nashville. Foi ali que, durante dez dias, tentaram criar o ambiente ideal para reproduzir alguma da espontaneidade dos concertos em curtas sessões de gravação. "Foi uma experiência libertadora e abriu-me para diferentes possibilidades de estúdio que não conhecia", afirmou recentemente Bombino, acerca do encontro com Dan.

Para ouvidos ocidentais, não é difícil gostar do blues do deserto, tal como ele é praticado pelos nómadas tuaregues do Norte e Nordeste de África, com uma dinâmica rítmica focalizada, por onde passam noções como espaço e tempo, e uma forma de tocar guitarra concisa e física, na linha de outro colectivo de nómadas que ficou conhecido, os Tinariwen. Na última década, para os tuaregues, a guitarra foi mais do que um instrumento. Tornou-se também símbolo de revolução. Durante alguns períodos, tocá-la era mesmo crime. Para Bombino, transformou-se num estilo de viver.