Não há atalhos para o céu

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Rui Gaudêncio

Não há alternativa à austeridade, diz o primeiro-ministro finlandês. "Não seria justo que criássemos uma União em que alguns países tivessem de assumir as responsabilidades de outros."

No outro extremo da Europa, a Finlândia tem sido um dos países mais intransigentes na defesa da receita de austeridade aplicada aos países sob intervenção e àqueles que estão a enfrentar maiores dificuldades. De visita a Lisboa, o seu primeiro-ministro, Jyrki Katainen, 41 anos, centro-direita, que lidera um governo de coligação com seis partidos, não se desviou um milímetro desse caminho, que considera sem alternativa. Quem é que vos emprestaria dinheiro se não cumprissem os compromissos que assumiram? A sua convicção assenta na experiência do seu país, quando enfrentou uma crise de grandes proporções no início da década de 90, na sequência da implosão da União Soviética, que era o seu principal cliente. O PÚBLICO entrevistou-o na sexta-feira passada.

Portugal está a fazer o seu trabalho de casa, cumprindo o programa de ajustamento imposto pelos credores. E, mesmo assim, os resultados não são propriamente os melhores. Falhámos a meta do défice, a dívida está a aumentar, a recessão é cada vez mais profunda. Não lhe parece que estes resultados provam que esta estratégia da "austeridade primeiro" não está a ter os melhores resultados?

Muito pelo contrário. Na Finlândia, tivemos uma crise muito profunda nos anos 90. Estivemos precisamente numa situação muito parecida com aquela que Portugal está a viver. Tivemos de cortar o défice drasticamente, o que afectou o crescimento no curto prazo, mas foi a condição prévia para obter de novo a confiança. E a confiança é a condição indispensável para os investimentos e, portanto, para o crescimento e novos empregos. Aprecio sinceramente a determinação com que Portugal está a fazer as coisas que previamente prometeu fazer. E já há alguns sinais positivos disso mesmo. Não na vida de todos os dias, mas na reacção dos mercados. Os juros da dívida a longo prazo já desceram para um pouco mais de 6%. Isso significa que o mundo exterior acredita no que está a ser feito em Portugal. São boas notícias. Também quando olhamos os para os números das exportações verificamos que estão a crescer....

Agora já não, porque a Europa é o nosso principal mercado e a Europa está em recessão.

Compreendo isso. Mas, olhando para o longo prazo, verificamos que as exportações representavam cerca de 30% do PIB e agora já estão nos 40%. Quando falamos de exportações, é evidente que estamos dependentes do que acontece na Europa e no resto do mundo. Mas o comportamento das exportações está a provar que Portugal já recuperou competitividade. E isso também são boas notícias. A balança externa está a avançar na mesma direcção. Mas também sabemos que leva tempo a conquistar novos investimentos que criam novos empregos. Não há um atalho em direcção ao céu. Nós já fizemos aquilo que Portugal está a fazer agora, é preciso algum tempo para que o crescimento regresse e isso só se consegue com o regresso da confiança.

Como sabe, a Finlândia tinha a sua própria moeda e pôde desvalorizá-la acelerando os ganhos de competitividade. Nós estamos no euro, o que é uma grande diferença.

É verdade. Fizemos o que vocês estão agora a fazer mas também pudemos desvalorizar. Mas, mesmo que seja preferível um euro forte em tempos normais, o seu valor actual está a servir bem os exportadores. A desvalorização não foi assim tão eficaz e também não o seria para vocês. O importante são as reformas que Portugal já está a fazer, como a do mercado de trabalho. Mas há ainda uma coisa que eu gostava de acrescentar: este momento que vocês estão a viver é o mais difícil...

Porquê?

Porque grande parte das reformas já foram feitas, deixaram um sabor amargo, e ainda não se traduzem na criação de empregos

Pelo contrário, traduzem-se na destruição de emprego.

Mas, se essas medidas não tivessem sido tomadas, Portugal seria mais ou menos competitivo? O mundo exterior confiaria mais ou menos em Portugal? Tudo parece muito negro quando as pessoas não têm trabalho.

Oficialmente, o desemprego está a atingir quase 20%.

Sim, mas é uma questão de tempo. Tenho a certeza absoluta de que, com as reformas que estão a ser feitas, o resultado será um futuro melhor. Claro que a austeridade provoca sempre recessão no curto prazo, mas no longo prazo as coisas vão ser melhores.

Conhece, porventura, os argumentos que muita gente em Portugal apresenta para criticar esta estratégia de austeridade e mais austeridade: que se corre o risco de, no fim do processo, a economia estar destruída e não haver nada para construir a partir daí.

Mas quem estaria disposto a emprestar dinheiro a Portugal se o país não tivesse decidido responsabilizar-se pelos seus próprios problemas?

O ministro das Finanças português esteve em Dublin para negociar mais tempo para pagar os empréstimos. Pensa que isso é suficiente para garantir um regresso aos mercados mais fácil?

Creio que todos os países da zona euro esperam que Portugal faça aquilo com que se comprometeu. Toda a gente compreende que, em tempo de crise, quando se aplicam medidas de austeridade, é inevitável que haja um impacto negativo no crescimento. Se houver pequenas variações quanto ao valor do défice, esse não é o problema mais importante. O mais importante é o país ser capaz de se renovar, fazer as reformas estruturais e tornar-se mais competitivo. E é por isso que em penso que haverá compreensão europeia quanto às maturidades. Portugal merece alguma ajuda nesse capítulo.

Nos últimos dias tem-se falado da possibilidade de um novo resgate para Portugal. Como sabe, temos de regressar aos mercados no próximo ano, quando acabar o programa da troika e isso pode revelar-se difícil.

Não penso que Portugal vá precisar de um novo resgate. Já referi que os juros da dívida estão a descer drasticamente. Se Portugal continuar a fazer as reformas, os juros continuarão a descer e Portugal pode financiar-se nos mercados na altura prevista.

Disse recentemente sobre o debate entre austeridade e crescimento, que pode ter interesse académico mas não tem nada a ver com a realidade. Continua a defender isso, quando olha para o que se passa em Portugal, na Grécia, na Espanha ou na Itália?

Sim. Acredito nisso. Percebo muito bem que as reformas levam tempo a dar frutos e que as pessoas não vêem isso imediatamente. Mas qual é a alternativa? Não percebo muito bem os que dizem que querem parar com a austeridade. Quem emprestaria dinheiro a um país que não se dispusesse a aplicar um programa de austeridade? Só se consegue melhorar a economia com medidas que possam melhorar a competitividade. Como penso que Portugal está a fazer isso, também penso que vai regressar ao crescimento.

Como vê o futuro da Europa? Fala de uma "integração justa" [fair].

É verdade que estou preocupado com a falta de justiça [fairness] na União Europeia. Há países que acham que a Europa não está a fazer o suficiente e que não é solidária, e há outros que perguntam por que razão estão a pagar para terceiros. Isso indica uma falta de justiça. Sou a favor de mais integração em algumas áreas, por exemplo no Mercado Unido ou na política externa e de segurança, onde é preciso fazer mais, e estou muito satisfeito com o que estamos a fazer quanto ao reforço das normas que devem prevalecer na União Económica e Monetária.

Através do Pacto Orçamental?

Sim. Uma União assente em regras é, para mim, fundamental. A UE é uma união de valores democráticos e, em democracia, só se pode funcionar com regras. É por isso que valorizo muito o reforço das regras comuns. Só isso pode criar um sentimento de justiça entre os cidadãos. Temos de ter regras e temos também de ter a certeza de que todos as cumprem.

Mario Draghi (presidente do Banco Central Europeu) disse recentemente que é preciso acelerar a união bancária para antecipar problemas como o de Chipre. É também uma prioridade para si?

Sem dúvida. Temos estado a resolver as nossas fraquezas e essa é uma delas, no que diz respeito à união monetária. O primeiro objectivo é garantir a separação entre os [riscos dos] bancos e o [risco] soberano [das dívidas públicas]. Mas é preciso também garantir que o seu funcionamento esteja de acordo com as regras de uma economia de mercado. São precisos mecanismos de resolução das crises dos bancos, a partir de fundo que os próprios bancos devem financiar. É preciso também estabelecer um conjunto de critérios que se devem aplicar em caso de falência de um banco. Não são os contribuintes que têm de pagar as crises bancárias.

Esta crise também tem pesadas consequências políticas. Uma delas é a divisão que se está a criar entre os países do Norte e os do Sul, que está a alimentar toda a espécie de estereótipos e de preconceitos. Acredita que se pode construir alguma coisa a partir desta desconfiança mútua?

Compreendo que as pessoas tendam a pensar assim. Mas isso é muito mau. Em primeiro lugar, porque é uma fonte para toda a espécie de populismos.

Inclusivamente no seu país, com os True Finnes [Verdadeiros Finlandeses].

É verdade. O populismo é um veneno para a forma como tomámos as nossas decisões e como lidamos com elas. E é um veneno também para a integração europeia. Não faz qualquer sentido falar nessa divisão entre o Norte e o Sul, porque a União é feita a partir de valores que todos aceitamos. É uma só Europa e é por isso que insisto em que as regras são tão importantes - para todos e para serem cumpridas por todos. Não há espaço para uma interpretação criativa. São regras e temos de as respeitar. Incluem o Estado de direito, a democracia, os direitos das pessoas etc., etc.

Mas não se pode apagar a diversidade entre as culturas económicas e a situação concreta de cada país. Não se pode querer que sejamos todos iguais aos alemães e, já agora, aos finlandeses.

É verdade. Mas quando falamos de economia, somos todos interdependentes. E quando falamos de culturas económicas diferentes, isso não quer dizer que as economias se sujeitem a regras diferentes no Norte ou no Sul. Não. Temos a mesmas regras económicas e é por isso que temos de mudar, reforçando essas regras comuns. Sem isso nunca saíremos da crise.

Tem sido contrário à mutualização da dívida com a criação de obrigações europeias [eurobonds]. Porquê?

Sim. Porque agora já percebemos o que é que isso significa. Nos primeiros dez anos do euro não havia praticamente diferença entre os juros da dívida pagos pelos diferentes países. Tínhamos todos o acesso ao financiamento pelo mesmo preço da Alemanha. Os mercados cometeram um erro porque não levaram em conta a realidade económica de cada país. Se criássemos eurobonds estaríamos a institucionalizar a situação anterior à crise. É por isso que precisamos de mais Europa mas também de mais responsabilidade nacional pelas nossas dívidas, pela nossa economia. Não seria justo que criássemos uma União em que alguns países tivessem de assumir a responsabilidade de outros.

O seu país atravessa uma recessão, a segunda em quatro anos. A Finlândia é o único país do euro com um Triplo A sem outlook negativo. Como estão a lidar com isso?

Também tem sido difícil. Tivemos de cortar o Orçamento para um défice de 3% nos últimos três anos. Aumentámos os impostos. Mas conseguimos estabilizar a dívida pública nos 46%. Foi difícil, até porque o governo é uma coligação de seis partidos.

Essa era a pergunta seguinte. Como é que se lidera um governo de coligação com seis partidos?

Não é fácil porque não há semelhanças ideológicas que possam servir de base. Mas o que nos une é o pragmatismo. Definimos um objectivo e depois discutimos a melhor maneira de o atingir. E temos conseguido obter compromissos para as medidas necessárias, como cortar o défice ou aumentar os impostos. Recentemente, decidimos descer o imposto sobre as empresas para 20%, porque levamos muito a sério, todos nós, a necessidade de criar emprego. Não é fácil, mas pomos de lado a ideologia e concentramo-nos na melhor maneira de criar emprego.

Eram o país da Nokia e da indústria de papel. Hoje estes dois sectores estão em dificuldades. O que estão a fazer para resolver esse problema?

As nossas indústrias principais estão a sofrer uma profunda transformação. O sector da floresta está a transformar-se numa indústria de energia: está a produzir energia renovável a partir da madeira. Também estão a utilizar a madeira na indústria química, para transformá-la em plástico. No que respeita à Nokia, estamos a perder emprego porque o mundo mudou e temos de nos adaptar a essas mudanças, criando coisas novas. Mas acredito que, com esta redução do imposto sobre as empresas, vamos conseguir voltar a liderar em algumas áreas tecnológicas. É muito simples: temos de estar sempre a criar coisas novas para manter a competitividade à escala global.

Com um sistema de ensino considerado exemplar, essa adaptação é mais fácil. A minha última pergunta: qual é o segredo do vosso sistema de educação, que é invejado por toda a gente?

Os bons resultados vêm de algumas coisas muito simples, como a educação e a preparação dos professores. E investimos na educação há décadas. É uma área onde há um consenso absoluto entre todos os partidos políticos. Mas temos de estar sempre a reformá-lo. Agora, estamos a reduzir o número de municípios para os tornar mais fortes, porque são eles os principais responsáveis pela educação. Estamos também a investir nos programas de aprendizagem, porque nem todos os jovens querem ir para a universidade. Estamos a estudar os modelos alemão e austríaco. Mas a questão fundamental é a qualidade dos professores e o seu treino.