Implosão a implosão, o Bairro do Aleixo está a desaparecer

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O ex-seleccionador nacional António Oliveira é o principal investidor do fundo imobiliário do Aleixo e foi assistir à implosão. Crianças e jovens escalaram a montanha de entulho da torre 4, assim que a polícia permitiu a reentrada no bairro. Na Rua da Arrábida viram-se lágrimas no rosto de muitos antigos e actuais moradores do Bairro do Aleixo PAULO PIMENTA

A torre 4 do Bairro do Aleixo, no Porto, foi ontem demolida. Rui Rio diz que os moradores terão prioridade nas casas a construir pelo fundo imobiliário que gere o processo

Desta vez, quando os acessos ao Bairro do Aleixo, no Porto, foram reabertos e os moradores puderam regressar a casa, pelas 12h30 de ontem, não havia um único polícia no local. Em 2011, a implosão da torre 5 terminou com arremesso de pedras aos agentes que abandonavam, ainda, o espaço. Agora, quando reentraram no bairro, com menos uma torre do que ao início da manhã, os moradores estavam entregues a si próprios. E todos os passos se dirigiram para os escombros.

Sobrou muito mais torre, ontem, do que em Dezembro de 2011. Às 11h13, o edifício de treze andares tombara sobre si próprio, em direcção ao declive de terreno à sua frente, mas uma parte da zona acima do sétimo andar continuou praticamente intacta. O resultado foi uma montanha, perigosa e recheada de ferros, pedaços de pedra solta, envolta numa nuvem invisível de poeira (que não se via, mas se sentia na garganta e nos olhos), para onde todos os passos convergiram e que vários moradores teimaram em subir.

Eram raparigas de cabelos compridos oxigenados, rapazes de boné, homens que trepavam como se subissem escadas, perante os gritos de mulheres que se ouviam, vindos das redondezas: "É perigoso, pode haver explosivos" ou "Esta gente não sabe o perigo que corre". Um homem surge no vértice do enorme bloco do que já foram casas e irrompem aplausos, de um grupo que ficou mais abaixo. Pouco depois, outro homem, empunhando um cachecol azul e branco em que se lê "Aleixo", junta-se ao alpinista, esticando, bem alto, o emblema. Uma mulher de fato de treino cor-de-rosa, afasta-se, ruidosa, avisando o filho pequeno: "Eu que te apanhe aqui no fim-de-semana, vais ver".

Bárbara chega com uma amiga. Não trepa aos escombros, limita-se a dar a volta ao recinto, espreitando o resultado final de todos os ângulos. Mora na torre 3, com mais seis familiares e, ainda há poucas horas, quando se procedia à evacuação do bairro, dizia, animada, que ia ver a implosão, do outro lado do rio Douro, na Arrábida. A mãe dela, Orquídea, é que não. Com 57 anos, chegou ao bairro apenas com 18 e, às 8h15 de ontem, dizia que não ia ver a demolição da torre 4. Como já não vira a da torre 5. "Para quê ver desgraças?", questionava. Bárbara cumpriu o plano e assistiu à queda do prédio vizinho do seu. Pelo caminho, perdeu o sorriso. "Foi triste, é sempre triste", afirmou, de rosto fechado. Não muito longe, sentada, sozinha, num banco de pedra, outra jovem começou a chorar, olhando o cenário cada vez mais vazio que se estendia à sua frente.

Direito a casas novas

O Bairro do Aleixo acordou cedo. Todos sabiam que a evacuação começava às 8h30, mas, antes de hora, várias pessoas já se encaminhavam para o exterior do complexo, condenado a desaparecer, se se cumprir o destino traçado pelo executivo de Rui Rio, na Câmara do Porto.

Uma carrinha abandonada ardeu, um homem à janela insultou quem o quis ouvir, mas, no bairro, reduzido a 457 moradores (menos de metade dos que ali viviam antes da implosão da torre 5, em 2011), sentia-se, sobretudo, resignação.

Longe dos olhares dos moradores, Rui Rio e todos os vereadores da maioria PSD/CDS-PP, acompanhados, entre outros, do empresário Mário Ferreira e de António Oliveira (o principal investidor do fundo imobiliário que gere o processo do Aleixo), assistiram à implosão num terreno reservado, junto à Rua do Ouro.

À chegada, o autarca manifestara sentir "um misto de emoções" com mais uma derrocada - "satisfação", por estar "a resolver um problema", mas também "respeito" pelos moradores, que não vêem com bons olhos desaparecer, em segundos, e desfazer-se em pó, a casa de uma vida. Quando a torre 4 já não era mais que um monte de lixo torcido e desfeito no chão, Rio congratulou-se por mais uma operação bem-sucedida. "Correu tudo como previsto, uns segundos e o problema ficou resolvido", afirmou.

O autarca disse não se sentir frustrado por abandonar a câmara ainda este ano, sem que o processo do Aleixo fique concluído, e admitiu que "é difícil" conseguir demolir mais uma torre ainda durante o seu último mandato. Do que não tem dúvidas é que o Aleixo será integralmente demolido "ganhe [as eleições autárquicas] um presidente sóbrio e consciencioso ou ganhe alguém menos sóbrio e menos consciencioso".

Rui Rio admitiu ainda que a construção ou reabilitação de cerca de 300 casas, que o fundo imobiliário está obrigado, contratualmente, a realizar, está "atrasada", mas garantiu que o plano será cumprido na íntegra, e que os moradores do Aleixo terão sempre prioridade na ocupação dessas casas. Mesmo aqueles que, entretanto, já tenham sido realojados. "Essas casas, em primeiro lugar, serão para as famílias do Aleixo, mesmo que tenham ido para outras habitações. Basta que mostrem preferência por estas. É justo que o possam fazer", disse.

O comandante das operações, Rebelo de Carvalho, e o comandante da Polícia Municipal, Leitão da Silva, repetiram que a implosão da torre correu como previsto e que o edifício se comportou exactamente como se esperava. Mesmo que, desta vez, as retroescavadoras tenham mais trabalho a desfazer os enormes blocos de pedra que não se desfizeram de forma tão clara, como há cerca de um ano e meio. Uma evidência que não escapou mesmo aos moradores que, ao aproximarem-se dos escombros, não se cansavam de repetir: "Isto não está nada bem", "Esta caiu muito mal, não tem nada a ver com a outra". Rebelo de Carvalho explicara, minutos antes, que o facto de esta torre não estar tão próxima das vizinhas (o que acontecera com a torre 5) levou ao uso de uma "diminuição da carga explosiva", o que explicava a menor destruição do edifício.

No Aleixo, agora, já só restam três torres de pé, incluindo a problemática torre 1, que Rio garante ir manter até ao limite, para não ter de realojar "traficantes" que lá vivem. Os escombros da torre 4 vão demorar semanas a desaparecer. Depois, o bairro terá mais um terreno vago.