Há 120 mil aves a sobrevoar o estuário do Tejo - e nós podemos vê-las

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Daniel Rocha

O EVOA - Espaço de Visitação e Observação de Aves abriu as portas há uma semana. Há três novas lagoas artificiais propositadamente para abrigar as aves migratórias que por aqui passam. E postos de observação para que, devidamente escondidos, as possamos ver e fotografar

Espreitamos pelo óculo e procuramos sinais de pássaros no ar. Um funcionário do EVOA - Espaço de Visitação e Observação de Aves vem ajudar-nos. Ajusta o óculo e dirige-o mais para baixo, para a lagoa à nossa frente. E então sim, vemos dezenas de patos a nadar calmamente. Era o que se conseguia ver daquele ponto e àquela hora - não os conseguimos distinguir claramente, mas podem ser colhereiros, pato-de-bico-vermelho, tadornas ou marrequinhas. Para tentar ver mais aves seria necessário avançar pelos percursos entre as lagoas e abrigar-nos nos locais criados para o efeito pelo EVOA, que pertence à Companhia das Lezírias.

Mas no dia da nossa visita, o centro, impecável e a cheirar a novo, apesar de já inaugurado oficialmente, ainda não abrira as portas ao público. Isso aconteceu finalmente no domingo passado e já é possível passear por entre as três novas lagoas de água doce criadas propositadamente para atrair aves naquela que é a mais importante zona húmida de Portugal e uma das dez mais importantes da Europa: a reserva natural do estuário do Tejo.

À nossa frente estende-se neste momento uma paisagem que há algum tempo não existia. Para chegarmos até aqui percorremos uma estrada por entre os campos verdes da lezíria, pontuados por caniços, dos quais, subitamente, aqui e ali, se ergue num voo elegantíssimo uma ave. Uma das mais de 120 mil que por aqui passam durante o Inverno, migrando entre o Norte da Europa e África.

Esta zona é fundamental para que estas aves repousem e se alimentem nessas grandes passagens migratórias. Aqui há garças, cegonhas, colhereiros (são os chamados ardeídeos), patos, cisnes, gansos (os anatídeos), borrelhos, tarambolas, pilritos e maçaricos (os limícolas). A importância do estuário do Tejo traduz-se nos números: segundo o EVOA, para 14 espécies, o estuário alberga 1% da população europeia. Só no que diz respeito ao alfaiate Recurvirostra avosetta, calcula-se que a zona albergue 25% da população invernante na Europa. Mas há também, por exemplo, o flamingo Phoenicopterus ruber, o ganso-bravo Anser anser, o pilrito-de-peito-preto Calidris e o milherango Limosa limosa. Ou ainda a águia-sapeira, a águia-pesqueira, o pernilongo, o borrelho-de-coleira interrompida e vários outros.

Estamos na chamada lezíria sul, que faz parte da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira, cerca de 14 mil hectares entre os rios Tejo e Sorraia. É aqui, nestas terras que alagam com frequência, que a Companhia das Lezírias planta o arroz, e esses arrozais atraem grande número de aves. Mas há também pastagens e podem ver-se vacas, cavalos ou ovelhas por entre o verde.

António Saraiva, presidente da Companhia das Lezírias, e nosso anfitrião numa visita, queria mostrar-nos o novíssimo EVOA. O edifício, com uma estrutura leve, sob estacas, e com o exterior em ripas de madeira, surge no horizonte enquanto percorremos a estrada. Trata-se de uma estrutura de apoio onde se pode ver uma exposição permanente sobre o estuário do Tejo, os tipos de aves que aí se avistam, a razão pela qual este sítio faz parte das suas rotas migratórias e o que levou a que aí fossem construídas as três novas lagoas. Há ainda um espaço para exposições temporárias, um auditório e um bar.

Desse bar pode observar a mais próxima das três lagoas aqui criadas - e cuja construção pode ser vista numa pequena exposição fotográfica também no EVOA. A lagoa Principal é permanente e tem diversas ilhas, o que permite manter no local patos todo o ano. São cerca de dez hectares permanentemente inundados, com uma profundidade máxima de um metro e meio.

A lagoa Rasa é, como o próprio nome deixa adivinhar, menos profunda, e por isso seca no Verão. Várias espécies de aves aproveitam-na para fazer os ninhos. No Inverno tem uma lâmina de água de não mais do que 15 centímetros e as aves aquáticas invernantes param nela para se abrigarem e alimentarem. Por fim, existe a lagoa Grande, com uma profundidade que é gerida em função das necessidades e que oferece às aves diferentes tipos de habitats húmidos.

Em cada uma das lagoas foi construído um observatório, com bancos de madeira e binóculos para que os visitantes (cada observatório tem capacidade para 15 pessoas, mas o da lagoa Grande destina-se sobretudo a profissionais) possam ter uma base a partir da qual ver e fotografar as diferentes aves. Em redor das lagoas existem percursos pedonais que, em alguns locais, têm pontes e passadiços.

Para que estas condições sejam excelentes para as aves aquáticas migradoras é preciso perceber o que é exactamente o sapal do estuário do Tejo. Explica o material de apoio do EVOA que no sapal se concentra uma grande quantidade de matéria orgânica por causa, por um lado, dos sedimentos trazidos pelo rio, e por outro da decomposição das plantas que nele existem e que têm características especiais porque se habituaram a viver num meio com grandes quantidades de sal. Esta concentração de sal torna também o lugar propício para as salinas - a salina de Saragoça, por exemplo, foi reabilitada e pretende-se que sirva como refúgio de espécies invernantes e zona para os patos poderem fazer os seus ninhos.

A ideia de criar aqui um centro para observação de aves começou em 2000 e partiu de uma proposta que a Aquaves - Associação de Conservação e Gestão de Ambientes Naturais apresentou à Companhia das Lezírias, proprietária dos terrenos. Com o patrocínio da Brisa - Auto-estradas de Portugal foi apresentada uma candidatura aos fundos do QREN, aprovada em 2009. A abertura do EVOA estava prevista para o início de 2011, mas foi sendo adiada, e, embora tenha inaugurado oficialmente ainda em 2012, só agora está de facto aberto ao público.

O projecto implicou não só a construção das lagoas, mas também a replantação de espécies autóctones como a tamargueira, o triângulo ou junquilho-dos-salgados, assim como áreas de caniço para resguardar áreas mais sensíveis. Assim, as aves ficarão mais tempo descansando pelo estuário do Tejo antes de partirem para outras paisagens. E quem gosta de as ver e fotografar só tem que esperar, de máquina fotográfica a postos, numa das casinhas de madeira, entre a lezíria e o sapal, espreitando as lagoas até que uma garça branca cruze os céus ou um rouxinol-grande-dos-caniços comece a cantar.

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