Centenas de obras de Paula Rego deixam Portugal

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A inauguração da Casa das Histórias com a artista, o Presidente da República (ao fundo), Maria Cavaco Silva e o então ministro da Cultura raquel esperanÇa

Paula Rego pediu a devolução de todas as pinturas, desenhos e aguarelas que tinha em Portugal como empréstimo à Casa das Histórias

São dezenas de caixas já de regresso a Londres: com a extinção da Fundação Paula Rego, a artista, que vive em Inglaterra desde os anos 1950, pediu a devolução de perto de 200 das obras que tinha na Casa das Histórias, em Cascais.

Nesse núcleo estão alguns dos mais importantes trabalhos de pintura que Paula Rego tinha em Portugal, muitos dos melhores desenhos que estavam no museu, e todos os modelos, os bonecos em papier-machê feitos pela artista para as teatralizações que servem de ponto de partida a muitos dos seus projectos.

São 181 obras só na lista de trabalhos que a Câmara Municipal de Cascais (CMC) está actualmente a devolver à artista - poderão ser mais caso Paula Rego decida pedir ainda a devolução de trabalhos como a sua conhecida série das Óperas, deixada no museu para uma exposição a inaugurar este mês.

Tal como as Óperas, as obras já devolvidas faziam parte de um empréstimo da artista legalmente designado como "comodato precário". Este foi dissolvido durante as negociações que decorreram da extinção da Fundação Paula Rego, confirmada a 8 de Março no Diário da República na sequência dos resultados do estudo de viabilidade das fundações portuguesas lançado pelo Governo em Janeiro do ano passado.

Mantêm-se assim em vigor apenas os dois acordos iniciais: a doação original da artista para o lançamento do museu, em 2004, com o antigo presidente de Cascais António Capucho, e contemplando 257 gravuras, 273 desenhos e 52 pinturas, e o acordo de comodato por dez anos assinado em 2006 e válido até 2016, contemplando mais 170 desenhos de Paula Rego e 15 telas de Victor Willing, o seu marido, que morreu em 1988.

O mais recente "comodato precário" integrava 25 pinturas, sobretudo acrílicos dos anos 1980, mas também obras como O Exílio (1963) e trabalhos recentes importantes como Agonia no Jardim (2002), Morte da Virgem (2002), Visitação (2002) e o tríptico The Pillowman (2004), todos a ser devolvidos a Londres num conjunto que, em Lisboa, estava segurado em mais de 5,7 milhões de libras (mais de 6,7 milhões de euros), com The Pillowman a representar, sozinho, 1,5 milhões de libras (1,7 milhões de euros) desse valor.

A Londres regressam também 160 desenhos e 16 aguarelas, 15 das quais estudos para o políptico Ciclo da Vida da Virgem, o conjunto de oito quadros que em 2002 a artista pintou para a Capela do Palácio de Belém.

"As circunstâncias mudaram, agora já não há fundação", explica sucintamente Nicholas Willing, filho de Paula Rego, aludindo, sem entrar em pormenores, a novos enquadramentos jurídicos com que a família terá de lidar em Inglaterra. "Tivemos de nos organizar de outra forma."

A partir de terça-feira, com a assinatura de um novo acordo, a Casa das Histórias passará formalmente a ser um museu municipal, financiado e gerido por Cascais e dirigido, a nível artístico, por uma comissão paritária com dois membros: Nicholas Willing, em representação da mãe, e Salvato Telles de Menezes, administrador da Fundação D. Luís I, vizinha em Cascais da Casa das Histórias, pela CMC.

Negociações fáceis

Com o edifício de Eduardo Souto de Moura de regresso ao poder da autarquia, a esta comissão caberá a organização de uma programação no museu. "Chegámos a um acordo, que é mutuamente benéfico", diz Nicholas Willing.

Recusando a ideia de um indício de cisão entre a mãe e as autoridades portuguesas, Nicholas Willing reconhece que "esta podia ter sido uma negociação muito feia", mas sublinha que não: "Tudo foi tratado de forma muito adulta e preocupada por ambas as partes."

Apesar de várias tentativas de contacto para Londres, ao longo dos últimos dias, Paula Rego mostrou-se indisponível para prestar declarações. Segundo o filho, o "principal desejo" da artista ficou assegurado com o acordo obtido com a CMC: "A minha mãe apenas quis manter o museu aberto e com tantos trabalhos quanto possível. Não digo isto por ser minha mãe, mas é uma das pessoas mais generosas que conheço e continua absolutamente disponível."

Referindo que o novo acordo com a CMC "é muito simples, sem nada de sinistro", Nicholas Willing diz que "o que mais interessa é que os portugueses ainda possam ir ao museu e ver o trabalho de Paula Rego". "Basicamente, no acordo, está tudo o que a minha mãe queria, nomeadamente que o museu seja exclusivamente dedicado à sua obra."

Nicholas Willing aponta ainda os traços da actuação da Casa das Histórias que vê como fundamentais, desde a inauguração do museu, em 2009, e que espera estarem assegurados no futuro: "O museu continuar a contar as histórias portuguesas" da obra de Paula Rego, mantendo "um serviço educativo tão forte quanto antes".

Pela CMC, o vice-presidente Miguel Luz diz que também a autarquia "está muito satisfeita com esta solução". "Apesar de termos sido obrigados pelo Governo a extinguir a fundação, acho que tivemos todos a ganhar. Pela primeira vez em muito tempo há uma ligação directa e sem intermediários entre a câmara e a artista e está a correr de forma muito sinérgica. Era uma das coisas de que a pintora se queixava: o excesso de formalismo. Agora as coisas são mais fluidas."

Afastando a ideia de perda no regresso a Londres das quase duas centenas de obras que Paula Rego pediu de volta, este responsável, secundado por Nicholas Willing, sublinha que "são peças que voltarão [a empréstimo] quando for necessário".

"Não entendemos como uma perda. Este fluxo tem de existir e sempre existiu", defende o autarca, referindo que haverá agora um esforço redobrado para fazer passar cada vez mais pelo museu, por exemplo, obras de coleccionadores privados. "Cascais tem a particularidade de ter muitos coleccionadores de Paula Rego. A Casa das Histórias tem de ser a casa também dessas obras, um ponto de encontro de todos os que têm orgulho de termos uma pintora com esta dimensão."

Directora demitiu-se

São ideia reforçadas por Nicholas Willing. "Estamos todos [na família] muito envolvidos no museu. O museu terá agora de ser mais barato do que antes. Mas temos de ser compreensivos com a situação de Portugal e da Europa. Este ano vamos ter exposições fantásticas, duas das quais ainda programadas pela Helena de Freitas."

Helena de Freitas, historiadora de arte, foi a segunda directora da Casa das Histórias, nomeada no princípio de 2010, depois de a primeira directora, Dalila Rodrigues, se ver afastada por Paula Rego. Depois de três anos, Helena de Freitas demitiu-se no princípio de Março, regressando à Fundação Calouste Gulbenkian. Contactada anteontem pelo PÚBLICO, recusou prestar declarações, mas, no fim de Março, quando a sua saída se tornou pública, disse: "Sinto que não tenho condições para continuar. O projecto não é o mesmo, a equipa não é a mesma, a colecção não será a mesma."

Na altura, explicou que os seus anos na Casa das Histórias foram "extremamente compensadores", em parte devido ao contacto directo com Paula Rego: "É uma artista incrível e uma pessoa extraordinária. Trabalhar com Paula Rego foi um privilégio."

Também Paula Rego a elogiou publicamente. Em Setembro último, a artista afirmou ter recebido "com grande surpresa" a notícia da extinção da fundação com o seu nome e declarou-se "desolada com tantas promessas quebradas" da parte de Portugal. "Que tristeza. Depois de tanto trabalho e depois de termos um edifício maravilhoso", escreveu numa nota enviada ao PÚBLICO. Nessa nota falava numa "directora admirável" e numa "equipa que trabalha com dedicação, sensibilidade e com imaginação na ponta dos dedos".

No mês anterior, Carolina Willing, filha da artista e membro do conselho de administração da fundação, denunciava publicamente erros na avaliação feita pelo Governo. Em cem pontos possíveis, a Fundação Paula Rego teve uma classificação de apenas 40,8 pontos. Nas contas de Carolina Willing, confirmadas pelo PÚBLICO, deveria ter atingido 55 pontos, o que a deixaria num lugar confortável entre as fundações públicas e público-privadas portuguesas.

Em Cascais, a Fundação D. Luís I, entre cujos fundadores estão a Sociedade Estoril Sol, o empresário Stanley Ho e a autarquia, teve avaliação igual nos parâmetros "pertinência" e "sustentabilidade", diferindo apenas na "eficácia". Neste parâmetro, a Fundação D. Luís I teve 22,1 pontos enquanto a Fundação Paula Rego teve 8. Isto apesar de a única avaliação diferente entre as duas num de três subparâmetros, relativo a "fundamentos para a manutenção dos apoios financeiros públicos concedidos", ser favorável à Fundação Paula Rego em 11,3 valores - teve 81,3 pontos, a Fundação D. Luís I apenas 70.

"Um vexame", disse à época Helena de Freitas. Já em Janeiro deste ano, Paula Rego apresentou na sua galeria de Londres, a Marlborough, uma série de pinturas onde foram lidas alegorias do processo político por detrás da extinção da sua fundação. Numa das obras, intitulada Avareza, Carlos Carreira, o actual presidente da Câmara de Cascais, surgia como O Avarento junto a uma mulher derreada e à figura da justiça cega.