Presença de Isabel II no funeral de Thatcher gera críticas

Relação entre as duas mulheres nem sempre terá sido fácil, mas homenagem a uma primeira-ministra que continua a dividir o país pode beliscar imparcialidade da rainha.

O funeral de Thatcher terá honras militares
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O funeral de Thatcher terá honras militares Olivia Harris/Reuters

A presença de Isabel II no funeral de Margaret Thatcher é a última das polémicas a rodear a morte da antiga primeira-ministra britânica. A participação da rainha transforma, na prática, as cerimónias num acontecimento de Estado, e muitos consideram que a distinção é injustificada para uma mulher que continua a dividir o país, o que poderá ferir a imparcialidade da monarca.

As críticas surgem sobretudo da esquerda, que acusa o Governo de David Cameron de querer transformar o funeral numa parada triunfalista do Partido Conservador à custa dos contribuintes – o nome de código de toda a operação, True Blue, uma referência à cor dos tories, foi visto como um indício –, mas também à direita se questiona a sensatez do precedente, até agora só aberto para Winston Churchill.

A decisão de “aconselhar a rainha [a estar presente] marca uma traição a um dos mais essenciais princípios do Estado britânico: a divisão entre as funções executivas e cerimoniais”, escreveu Peter Oborne no conservador Daily Telegraph, sublinhando que ocasiões de Estado deveriam servir para “unir os britânicos”. O colunista diz ainda que, ao ir ao funeral de Thatcher, quando não foi ao do antigo primeiro-ministro Clement Attlee, que no pós-guerra instituiu o Estado providência, “faz com que a rainha pareça estar a tomar partido e isso é incompatível com a imparcialidade tradicional da monarquia”.

O Guardian noticiou que foi a própria rainha a tomar a decisão, em sinal respeito pela única mulher e a que mais tempo esteve em funções entre os 12 primeiros-ministros com quem conviveu. O jornal refere, no entanto, que Buckingham mostrou reservas sobre a participação de militares no funeral quando a ideia foi sugerida (durante o anterior Governo), uma vez que as cerimónias deste género estão muito associadas à monarquia. Isabel II acabaria por dar o seu aval, numa decisão que alguns viram como um desejo de pôr fim aos rumores sobre as relações nem sempre fáceis entre as duas.

Biógrafos de ambas garantem que havia entre elas “enorme respeito” – Thatcher era ferozmente monárquica e ficaram famosas as pronunciadas vénias que fazia à rainha; e Isabel II admirava a ascensão a pulso da primeira-ministra. Mas o relacionamento foi sempre distante e a rainha terá chegado a dizer que não ouvia uma palavra do que Thatcher, mais interessada em falar do que em procurar conselhos, dizia nas audiências semanais.

Ainda assim, o único momento público de tensão aconteceu em 1986, quando o Sunday Times, citando fontes próximas da rainha, noticiou a sua preocupação com o impacto social das políticas económicas de Thatcher. A monarca, mais adepta do consenso do que da controvérsia, questionava a dureza do braço do ferro com os mineiros, o aumento do desemprego, mas também a recusa de Thatcher em aderir às sanções propostas pela Commonwealth ao regime do apartheid na África do Sul.