BBC vai ter que escolher entre Thatcher e Ding Dong! The Witch Is Dead

Só no próximo domingo se saberá se a BBC seguiu as regras do jogo e passou a canção de O Feiticeiro de Oz por ter sido uma das mais vendidas na semana.

As manifestações contra o Governo de Thatcher continuam acesas décadas depois de ter saído de Downing Street
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As manifestações contra o Governo de Thatcher continuam acesas décadas depois de ter saído de Downing Street CARL COURT/AFP

Ding Dong! The Witch Is Dead (Ding Dong! A Bruxa Morreu), a canção interpretada por Judy Garland no filme O Feiticeiro de Oz, de 1939, é nestes últimos dias um pesadelo para a BBC. Tudo porque o tema está na lista dos singles mais vendidos na última semana no Reino Unido, depois de uma campanha iniciada no Facebook a celebrar a morte de Margaret Thatcher, a antiga primeira-ministra britânica, aos 87 anos. Passar ou não a canção na Radio 1, da BBC, é agora tema de debate no país, a dias das cerimónias fúnebres de Thatcher.

A morte da antiga chefe de Governo britânica foi lamentada por muitos, mas também celebrada por outros. Ao ponto de se terem recuperado canções de intervenção criadas durante o executivo da “Dama de Ferro” na década de 1980. Ding Dong! The Witch Is Dead, apesar de ser muito anterior a esse período, acabou por entrar no grupo das canções escolhidas pelos que têm celebrado a morte de Thatcher. De tal forma, que o tema da banda sonora do filme O Feiticeiro de Oz foi já adquirido por mais de 20 mil pessoas e ocupava esta sexta-feira o terceiro lugar dos singles mais vendidos no Reino Unido, segundo o site da Official Charts, entidade que certifica as vendas da indústria musical no país. Com esta posição, o tema de 1939 deverá ser transmitido na emissão oficial das tabelas de venda na Radio 1, no domingo.

O problema começa aqui. A BBC tem manifestado algumas reservas quanto a passar o tema, a três dias do funeral de Thatcher. Um porta-voz da Radio 1, citado pela própria BBC, afirma que será tomada uma decisão quando for divulgada a tabela com as posições finais da semana.

Para John Whittingdale, deputado conservador e presidente da Comissão de Cultura, Desporto e Media, tudo não passa de “uma tentativa de manipulação das tabelas por pessoas que querem firmar uma posição política. A maioria das pessoas considera-o ofensivo e profundamente insensível”. Com este argumento, defendido em declarações ao Daily Mail, Whittingdale defende que o tema não deve estar na lista da Radio 1 do próximo domingo.

À BBC, o seu antigo responsável pela música de entretenimento, Trevor Dann, considerou que “não há qualquer razão” para que o tema não passe na rádio, afastando a hipótese de se tratar de uma questão editoral. “Não cabe à BBC julgar se é um tema apropriado para as pessoas comprarem e se o devem passar”, defendeu.

Vivienne Pattison, do Mediawatch UK, organização que promove os valores familiares nos media britânicos, lamenta a mensagem que a tabela transmite neste momento, mas reconhece que as tabelas de música existem para mostrar o que foi mais vendido e descarregado na Internet e que “alterar isso é interferir num processo democrático”.

O biógrafo de Thatcher, Charles Moore, acusou entretanto os media britânicos, incluindo a BBC, de recordarem Thatcher como uma personalidade que provocou a “divisão” da sociedade britânica e de o povo estar a “denegrir a sua reputação ao celebrá-lo”. “Foi a sra. Thatcher que derrotou o Leste e nessa história [Feiticeiro de Oz] e nessa canção, a sra. Thatcher é Dorothy", a personagem interpretada por Judy Garland.

Um caso semelhante e um dos mais conhecidos a envolver a BBC aconteceu em 1977, quando a estação se recusou a passar o tema God Save the Queen, dos Sex Pistols, quando se celebrava o Jubileu de Prata da rainha. Um dos casos mais recentes teve como protagonista a banda Frankie Goes to Hollywood, e o single Relax, de 1984. A letra da música, com partes de carácter sexual, foi banida, o que apenas aumentou a sua popularidade, chegando Relax ao primeiro lugar do top, como recorda a própria BBC.