Isabelle Huppert foi refém de Brillante Mendoza

Foto
A actriz francesa diz que nada nas suas experiências de rodagem se compara ao trabalho com o realizador filipino

Vinte dias na selva filipina, sempre em movimento, estrangeira isolada - assim se sentiu Isabelle Huppert. Quem a raptou? Brillante Mendoza, realizador.

Com Até o Silêncio tem um Fim nas mãos (o livro em que Ingrid Betancourt contou os seis anos de cativeiro refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Isabelle Huppert esteve cativa de Brillante Mendoza. Comparar a rodagem de um filme com uma situação de cativeiro, ressalva com veemência a actriz francesa, pode ser uma grosseria face à experiência dos que foram reféns. "É impossível alguém imaginar o que é ser-se refém." Mas, continua, Betancourt "falava sempre dessa sensação de estar a ser constantemente deslocada de um sítio para outro", e foi isso o que aconteceu a Isabelle na rodagem de Cativos. Foi peça de uma estratégia em movimento. Que confessa não ser nada que possa comparar com outras rodagens; mas para a qual o realizador filipino "é extremamente hábil."

"Colocou-nos, durante cinco semanas, numa situação de desconforto e de exaustão. Eu não conhecia ninguém nas Filipinas. Fomos atirados para um barco, a primeira sequência do filme. Ninguém se conhecia. Estávamos o mais perto possível do maior desconforto, daquilo que uma situação real pode ser. Eu nem sabia quem era actor ou não. Não tinha qualquer ideia - e por isso me pareciam assustadores os actores que faziam de terroristas. Havia pessoas de partes diferentes do mundo. Como uma Arca de Noé. Gradualmente começámos a conhecer-nos e foi como se fôssemos reféns. A um certo nível - e falo também da situação dos reféns - a vida é mais importante do que tudo o resto, as relações humanas tornam-se mais importantes do que as lutas e do que as diferenças."

Cativos ficciona a partir de acontecimentos reais: 2001, a odisseia pela floresta do Abu Sayyaf, grupo separatista fundamentalista islâmico que opera no sul das Filipinas, dos reféns sequestrados (entre eles uma missionária estrangeira, interpretada por Huppert) e do exército que os persegue. É algo de diferente que se segue, na obra do realizador, a movimentos sem concessões atrás de uma personagem: Kinatay (prémio de realização em Cannes 2009, e foco de indignações; o falecido crítico americano Roger Ebert escreveu: "Eis um filme que me obriga a pedir desculpa a Vincent Gallo por ter considerado The Brown Bunny o pior filme das história do Festival de Cannes") e Lola. Aí, Brillante ia com as personagens até ao fim. Aqui tem um grupo, provavelmente não tem personagens individuais e os planos sequência e de longa duração são esquartejados pelo "cinema de acção". Mas o realizador confirma a estratégia de cativeiro.

"Não quis trabalhar com os actores de forma normal - aliás, nunca quero. Nunca lhes falei em personagens, nunca lhes entreguei um argumento: nem aos prisioneiros, nem aos raptores. Nem os apresentei uns aos outros. Eram actores ou não? Ninguém podia dizer com toda a certeza. Nunca quis falar com eles no set. Todas as conversas sobre motivações das personagens aconteceram antes da rodagem, no set ninguém falava uns com os outros. Queria que estivessem sempre dentro das personagens. E Isabelle estava sempre rodeada de gente que não sabia quem era. E era estrangeira. Isolei-a. Mas filmámos, durante 20 dias, por ordem cronológica para a experiência de calvário poder ter apaziguamento, algo de compreensão, ser uma história de sobrevivência. Eu tinha medo que os outros actores se sentissem intimidados com Isabelle, que pode ser uma pessoa bastante evasiva. Mas no fundo era o que ela queria e o que eu queria. Não se pode evitar o facto de ela ser estrangeira e de ser Isabelle Huppert. E é verdade que conseguiu desaparecer num grupo. Às tantas era um grupo com um objectivo comum: a sobrevivência."

Se o estatuto de estrela cria expectativas no espectador, elas serão contrariadas. Huppert, aliás, em alguns filmes especializa-se na capacidade de provocar - e também de sentir - a decepção. Mistura-se, esconde-se, desaparece. Pense-se em Home (2008), de Ursula Meier. "Percebo o que quer dizer... sim, o contrato nesse filme [Home] era a invisibilidade. Isso em termos artísticos pode ser às vezes o mais importante. Pode deixar-nos, como actores, frustrados, mas é preciso experimentá-lo. Não havia personagem, na verdade, em Cativos. Havia expressões físicas a mostrar. Mas sem implicações psicológicas."

Experimentar é o lema. Isabelle diz que o mais stressante é escolher. Ela escolhe pelos realizadores. Assume que vive numa terra de abundância, a França, onde existe curiosidade cinéfila e possibilidade de a exercer. "Nos últimos 20 anos as maiores surpresas cinematográficas vêm da Ásia". Isso levou-a à Coreia rodar com Hong Sang-soo (In Another Country).

É por essas e por outras - por mostrar preferência pelas zonas de sombra, por exemplo - que dizem que é "destemida." Ela responde como se dissesse "menos!". "Não sei por que razão deveria sentir medo. Se isso quer dizer enfrentar um projecto como este na selva filipina, direi que estou a fazer apenas um filme. Pode ser mais difícil, fisicamente, fazer teatro do que estar na selva. E quanto às personagens mais negras, são os melhores papéis. Houve uma altura em que os filmes mais leves eram os melhores. Mas isso foi numa golden age. Havia obras-primas nesse cinema leve. Hoje o target mudou, há menos oportunidades de grandes papéis em filmes leves."

Encontro em Cannes

Não é essa a força do cinema de Mendoza, a leveza. Huppert já conhecia Serbis (2008) quando viu Kinatay, o filme a quem atribuiu o prémio de realização em Cannes - presidiu ao júri nesse ano. O fascínio é notório. Filosofa. "É um filme em três partes. Uma primeira parte urbana, luminosa, toda a preparação do casamento. Uma segunda parte que é uma descida ao Inferno. E uma terceira que é o regresso à superfície, mas já com as personagens transformadas pelo que se passou, tudo mudado. Nisso há qualquer coisa de filosófico."

Foi nessa edição de Cannes que se encontraram, Brillante e Isabelle. A memória desse encontro, por ele: "Quando a vi, na cerimónia de encerramento, vestido branco... eu já a admirava, mas nunca sonhara que seria possível [trabalhar com Huppert]. Quando a vi no palco... pensava que ela era enorme, e afinal parecia tão frágil... é sempre grande e forte nos filmes. Disse-lhe isso, ela riu-se. [Fazerem Cativos] Não teve a ver com o facto de ela ter gostado de Kinatay. As coisas só aconteceram mais tarde, num segundo encontro em São Paulo. Foi aí que lhe falei deste projecto, para o qual precisava de uma estrangeira. Ela já tinha estado nas Filipinas, quando jovem. E queria regressar. Achei que era um sinal."

Precisava de uma estrangeira, e precisava da natureza, talvez a verdadeira personagem de Cativos. "Quero sempre que as minhas personagens se relacionem com a natureza, ela é sempre uma extensão delas, representativa delas. Quis mostrar a beleza da selva: é a natureza no seu melhor, luxuriante. E, no entanto, isso às vezes não se vê, a beleza desaparece, torna-se feia devido ao que acontece às personagens." Em Lola, a chuva: "Uma história de gente no fim da vida, aquela chuva é uma extensão emocional." Em Kinatay, a noite: "Passo do dia para a noite, de algo positivo para o outro lado, para onde já não se reconhecem as pessoas."

"Quando fiz a pesquisa para Cativos percebi que os militares, as vítimas e os raptores estavam sempre a mudar de sítio. Pela primeira vez ouvi alguém contar que dormia enquanto caminhava e que não sentia medo porque dormia enquanto caminhava - tinham de estar sempre a andar. Parti daí. E depois do filme feito, mostrei-o a pessoas que tinham passado por essa experiências. O pior que me poderiam dizer era que o filme mentia. Mas as reacções foram que o filme ecoava as suas experiências: porque quando aquilo lhes estava a acontecer elas sentiam que parecia a rodagem de um filme."

Ver crítica de filme